Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,

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