Crônica de minuto #32

– Vamos?

Sobre a pequena e redonda mesa da doceria, os restos da comilança. Três xícaras de café, meia dúzia de guardanapos melecados. Na rua, ajeito a cria no banco do carro e suspendo o olhar para compreender o sol do inverno. Ali perto, sem que eu os note, estão eles. Os invisíveis: o homem, as duas crianças pequenas, a carroça.

Invisíveis para mim. Não para o marido. Que pede um minuto, atravessa ligeiro a rua, volta à doceria e de lá sai com quatro mousses de morango, embrulhadinhas no capricho. São para os invisíveis. A quarta iguaria é para a presumida e também invisível mãe, talvez a esperar em casa pela turma. Ou não. Nunca se sabe.

Deveria estar na constituição federal: todos têm direito a um doce saboroso e fresquinho nas tardes de domingo.

O pai, tímido, agradece. Não é todo dia que alguém se importa com ele. E com a família dele.

Todos são iguais perante um doce. Crianças, feitas com açúcar e com afeto, são mais iguais ainda. Sejam elas filhas e filhos de quem for.

Falta o último personagem. Este, sim, de invisibilidade insuperável: o cavalo que puxa a carroça. Que também gosta de doce. Mas que nem constituição tem.

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5 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. Dani
    jul 19, 2011 @ 14:57:53

    Ai Sil, sempre tento não passar batido pelos tais invisíveis do nosso mundo, mas confesso que não dá e que às vezes fico até com medo, quando uns certos (incertos) invisíveis me enxergam no meio da multidão, principalmente os que aparentam estar ‘na nóia’… enfim…

    eu escrevi este post, já tem um tempo, era sobre 3 invisiveis… mas ao contrário do seu marido eu não fiz nada, só olhei e relatei a histório…

    http://naoseiresponder.blogspot.com/2011/01/os-tres-macaquinhos.html

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  2. Laély
    jul 18, 2011 @ 12:35:37

    Marido enxergou longe!
    Silmara, tô ausente, mas sinto falta de passar por aqui.
    Outro dia lembrei de você: encontrei uns pacotinhos, que julguei a princípio serem de camisinhas, mas descobri serem chocolatinhos com menta, fabricados na Rua Laço de Fita. Levei vários para experimentar no café.
    Abraço!

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  3. Elan Popp
    jul 12, 2011 @ 18:14:06

    Quanto mais cuidamos das dores dos outros, mais suportamos as nossas… tudo na medida certa, claro.
    Fiquei com vontade de comer doce… a Elaininha ficou.

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  4. arianna
    jul 12, 2011 @ 16:48:49

    Como Noh Gomes disse: nem sempre tenho doces mas sempre tenho sorrisos largos e sinceros e, já me foi comprovado que vale a pena distribuí-los à todos, sejam quem forem…
    Se as pessoas pudessem seguir o exemplo do maridão, esse mundo seria mais lindo! Viva os invisíveis, os opacos, os translúcidos.
    Viva você por colocar em palavras tão linda experiência.
    beijo grande

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  5. Noh GOmes
    jul 12, 2011 @ 15:43:04

    Ta, eu chorei lendo, ta euto emotiva demais, ta bom, o que acontece é que estou sem areia nos olhos e ultimamente os inviseis tem sido vistos a todo canto, a todo momento, nem sempre tenho doces, mas sorrisos eu tenho de sobra.

    Lindo, o texto, o acontecido e seu marido.

    Beijos Flor

    Resposta

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