A rua do laço de fita
17 jun 2011 5 Comentários
em Crônicas Tags:Castro Alves, Rua do laço de fita, ruas de São Paulo, São Paulo
Apanhei o chocolatinho com menta, veio no pires fazendo companhia à xícara do café. Rasguei a ponta da embalagem verde – tudo o que se diz de menta é verde – e enfiei-o inteiro na boca, esperei gelar. Depois, li os dizeres, tão pequeninos. Sem grandes novidades, exceto o endereço onde o dito cujo é feito: rua do Laço de fita. Me diz: há coisa mais singela?
Laço de fita, que enfeita cabelo, vestido e presente, também adorna logradouro. E essa rua é continuação da travessa Lanterna mágica. Depois dizem que São Paulo é uma selva de pedra. Selva, talvez. De pedra, não.
Como são as casas da rua do laço de fita? Quem são as pessoas que moram nas casas da rua do laço de fita? Que laços têm entre si as pessoas que moram nas casas da rua que tem fita no nome? E quando se passa o endereço para o disque-pizza, a redonda vem combinando? Ih, deu nó.
Caio na tentação de adivinhar a razão do nome. Invento três.
Primeira. Inaugurada com pompa e circunstância, o prefeito da cidade corta o laço de fita da rua novinha em folha, que tem um nome esquisitão escrito em húngaro. É rebatizada em seguida.
Segunda. Metade do comércio da rua é de aviamentos. Todo mundo sabe, nesses lugares o que mais tem é laço e fita.
Terceira. Do enamorado para sua amada: “Comprei isto para ti”. É a rua, embrulhada para presente.
Diz o ditado que quem procura, acha. Eu, que até estava bem feliz com minhas razões inventadas, descubro, no site que conta a origem dos nomes das ruas paulistanas, que “Laço de fita” é um poema de Castro Alves. Já suspeitava, porém; esta história aqui quis virar verso desde o início, eu que insisti na prosa. Fita e laço dão poesia instantânea.
Como sou teimosa, agora vivo de imaginar a rua do laço de fita com os versos do poeta, grafitados ao longo dum muro branco e comprido. Visíveis também à noite, com ajuda da mágica lanterna da rua vizinha. Seria uma espécie de certidão de nascimento da via, atestando sua autenticidade. Bossa urbana, enfim. Que ia ficar bacana, ia.
E pensar que era para ser só um café e chocolatinho com menta.


jun 18, 2011 @ 17:16:48
Sei que estou sendo repetitiva, mas: adorei!
jun 17, 2011 @ 19:46:04
Quisera tanto ter esses tipos de questões. Amiga? Inveja branca, tá????
Se eu tivesse um café, um chocatinho e um endereço “rua do laço de fita”… ixi… isso já ia dar saudade, solidão e todo o repertório poético tão conhecido…rs, rs rs…
Amiga? Amo a leveza das suas palavras. Admiro demais, demais.
Será que é por isso que aquela nossa crônica morreu?? Começou “bem pesada”… kkkkkkkk
Bjs e bom fds com muitas fitas, pra usar de outras maneiras… bemmm criativas.. hehehehe.
jun 17, 2011 @ 14:59:10
Doce seu texto. Suave e romântico como… um laço de fita! Eu nunca imaginei que houvesse uma rua com esse nome, mas consegui imaginar todos os detalhes que vc descreveu tão bem, como sempre.
Sil, seus textos me fazem viajar e sonhar acordada. E é tudo tão pleno e intenso que às vezes nem sei mais se é sonho mesmo… acho que consigo, por alguns momentos, viver uma realidade paralela… nas suas letras, nos seus encantos.
Bj, amiga querida.
jun 17, 2011 @ 11:42:32
Que lindo esse teu texto. Uma pausa poética no meu dia.
Adorei!
jun 17, 2011 @ 10:59:58
Silmara, pra mim sempre foi apenas um café e chocolatinho com menta. Eis que vem vc e enxerga poesia. Como sempre. Esse par nunca mais será o mesmo. Beijos e bom fds!