A oração da Barbie

Hora de dormir, flagro Nina sentada em sua cama. Mãos em prece e olhos semicerrados, ela ora baixinho. Ao seu lado, na mesma posição, três Barbies. Exceto pelas mãos mortas (que jamais se juntam) e olhos crus (que nada veem), elas parecem imitar a reza da minha filha. Dela, fico sabendo o teor da oração: proteção para todos em casa (incluindo os gatos) e a viagem à praia, prometida há três feriados. Mas a súplica das bonecas, qual é?

Condenadas em sua eterna beleza, será que pedem ao santo pai do céu alguma feiúra humana? Uma desproporção aqui, uma assimetria ali, qualquer sinal que as converta em mulheres reais. Será que, fartas de sua perfeição lisa e previsível, imploram por um naco de defectibilidade? Talvez, saturadas em sua simpatia, reivindiquem um bocado de fúria, um punhado de cólera, um resto possível de indignação.

Será que sonham tirar do rosto o perpétuo, oco e bem educado sorriso, para em seu lugar virem surgir uma careta e espaço para um palavrão? Quem sabe, como santas em seu feminino de araque, roguem por um teco de devassidão, ou mesmo uma fração de tristeza, que destrua sua insossa e camuflada alegria. Ou será que esperam, resignadas, pelo antídoto para o feitiço da vida eterna?

Ou nada disso, e tudo que elas desejam é um Ken (quem?), para andar de mãos dadas pelo calçadão e comemorar juntos as bodas de ouro.

Será que, ao lado de sua dona-mirim, as miniaturas louras e inanimadas de mulher agradecem pelo lar aonde vieram parar, livrando-as das incômodas e claustrofóbicas embalagens nas prateleiras das lojas de brinquedo, santuário enviesado da nossa infância pós-moderna? Agradecerão, também, pelas minimãos que a levam para lá e para cá e lhes mostram um mundo, ainda diminuto, de menina de quatro anos?

Para uma Barbie, Deus é o Homem. É ele quem a cria – não em barro, mas plástico – à sua imagem e semelhança. Em vez do sopro divino, a brisa terrena, o faz-de-conta, a brincadeira séria. Barbies ultrapassaram a fronteira do imaginário. Viram seu modus vivendi transportado para a vida de gente de verdade, que é de onde saíram. Tornaram-se, enfim, capazes de provocar uma poderosa tríade de sentimentos: a inveja (confessa e não-declarada), o repúdio (sintoma frágil da desaceitação) e a compaixão (um raro efeito em todos nós).

Preces findas, as Barbies seguem para o baú. Sem beijo de boa noite, como o que minha filha ganha. Ao beijá-la, eu a tranquilizo: “O próximo feriado, Nina, vai ser na praia”.

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