Sobre aparências e enganos

Não sei você. Mas eu descubro se uma lanchonete ou restaurante são limpos pelo tratamento dispensado aos seus galheteiros. Os suportes com pequenos vidros para azeite, vinagre, sal, pimenta. Depois do avental do garçom e da situação da toalete, esse é o termômetro mais confiável da higiene de um lugar.

O local pode ter boa aparência e estar arrumado. “Um brinco”, como diziam as tias (expressão, aliás, que nunca compreendi). Porém, se sobre as mesas avistam-se tais utensílios com vestígios de conteúdo interno do lado de fora, fundidos com toda sorte de substância presente na atmosfera, coisa boa não há de ser. Hei de não me impressionar com as modernas aquarelas decorando as paredes, nem com as antiguidades, harmoniosamente dispostas ao longo de arcais em madeira de lei, tampouco com o elegante jazz a preencher o ambiente. As aparências, nesse caso, não enganam. Melhor não correr risco, nem aceitar o convite impresso para visitar a cozinha. O jeito é sair à francesa e fazer a refeição noutro lugar.

No mesmo banco dos réus estão os remanescentes frascos de maionese, catchup e mostarda. Se sua abertura oferecer resistência, por conta do produto ter se alojado no orifício, ou caso se observe, nas saliências da tampa, fragmentos orgânicos que não têm a ver com os condimentos ali presentes, nada feito. É caso de abandonar a coxinha no meio, abreviar o papo com o x-salada, despedir-se do enroladinho de presunto e queijo. Adiós, muchacho.

Ver por outra, encarno uma obcecada vigilante sanitária e inspeciono os compartimentos daquilo que se candidata a temperar meu almoço. Se for o caso, autuo o galheteiro, sem maiores delongas: “Teje preso!”. E aos estabelecimentos que aposentaram suas galhetas e frascos, potencialmente encardíveis, trocando-os pelos sachês individuais, um aviso: estou de olho nas suspeitíssimas cestinhas que os abrigam.

11 Comentários (+add yours?)

  1. Maria Teresa D. Valente
    abr 24, 2011 @ 17:44:34

    Amei suas crônicas, fazem bem ao coração, não têm gordura.Estou viajando na PÁSCOA, conheci a “sala da La” e de lá viajei para cá, maravilhoso seu espaço, obrigada, abraços carinhosos Maria Teresa

    Responder

  2. Marília Luz
    abr 20, 2011 @ 22:03:46

    Oi Sil!
    Minha irmã comentou uma vez que essa história de trocar os saleiros e açucareiros por sachês era antiecológica, porque gasta-se muito papel e produz-se mais lixo, mas poxa, é muito mais higiênico. Com o sachê a gente tem certeza de que ninguém enfiou o dedo no tempero, pelo menos.
    Mas eu já vi sachezinhos tão amarrotados e encardidos que até deles eu fiquei com nojinho…
    Beijo! :)

    Responder

  3. Laura Reis
    abr 20, 2011 @ 15:05:07

    Adoro como você consegue pegar coisas cotidianas e ‘descartáveis’e transformá-las em.. poesia.

    Responder

  4. sindrominha
    abr 19, 2011 @ 20:39:36

    Oi
    Adorei o seu blog, convido você a passar no meu blog de textos, obrigado, te espero lá.

    Responder

  5. Camila
    abr 19, 2011 @ 18:44:23

    Segundo o Jô, é exatamente por isso que os pastéis de casa nunca são tão bons quanto os dos restaurantes: faltam os germes.
    Rá!

    Responder

  6. Elan Popp
    abr 19, 2011 @ 12:10:56

    Cara… vc tem total razão. Já me peguei incomodada com algo, sem me dar conta do quê.
    Obrigada pela dica!!! Ficando esperta agora.
    Bj.

    Responder

  7. dani
    abr 19, 2011 @ 12:00:48

    Tenho medo dos paliteiros, de algum dito cujo ter palitado os dentes e devolvido seu palito lá, já vi gente bem limpinha fazendo isso e torci o nariz.

    também não gosto de salpicar o sal, que vira e mexe está empedrado ou então semi empedrado (por conta dos graos de arroz que colocam junto)

    até hoje não entendo para que serve o pimenteiro se nunca encontrei pimenta nele… outro dia em um restaurante natureba encontrei gersal, e a tampa do potinho reluzia…rs

    beijocas

    Responder

  8. Nara
    abr 19, 2011 @ 11:58:58

    Esse seu texto dá uma metáfora perfeita sobre as pessoas também…
    Adorei!

    Bjs

    Responder

  9. Isabella
    abr 19, 2011 @ 09:50:02

    Deu aula de Saúde Pública sob outro formato.
    ADOREI!!

    Responder

  10. poraliblog
    abr 19, 2011 @ 08:01:55

    Sobre higiene do local realmente está coberta de razão. Canso de ver galheteiro ou cestinha de catchup descartável imunda. Assim como detesto comer no kilo por ver aquela comida mexida, que as pessoas, com pressa e na hora do almoço, conversam à beira do banquete…arf!

    Fato que cada ano que passa, fico mais atenta a esses detalhes…

    Obs.: e quando lê-se nos jornais que determinado restaurante famoso é fechado pela vigilância? Dá uma sensação que se tivesse comendo no podrão da esquina seria a mesma coisa…urgh!

    Responder

  11. Simone
    abr 19, 2011 @ 06:38:15

    “Teje preso” não tem preço !!!
    Lécut, sou a “dona acha coisa nas coisas”… é impressionante. O cabelo sempre vai estar no meu prato, assim como todos os ciscos oriundos da terra, das mãos, do lixo, das orgias…
    Vou te levar comigo pra fazer a vistoria porque sinceramente? Ando tão cansada de ser a chata que percebe o quanto o local não é NADA LIMPO.

    Nada como a cozinha da casa da GENTE, porque até de alguns familiares e conhecicos, vamos combinar em??? A gente fecha os olhos e come !!! Afeeee…
    Meus olhos microscópios me matam.

    Sil? TEJA PRESA !!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Amei.

    Responder

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