A lista

Ilustração: SteTop/Flickr.com

Eu já me apaixonei uma centena de vezes. E comecei cedo no negócio. Tinha até lista de namorados, registrada pela irmã mais velha. Com cinco anos de idade, eu ainda não dominava o alfabeto. Namorado, a bem da verdade, era modo de dizer. A lista, composta basicamente dos moços bonitos das redondezas (na minha infantil opinião), também incluía celebridades midiáticas. Não sei de onde tirei a ideia de ter tantos affairs, simultaneamente. Ingênua e perdoada poligamia.

Com 32 nomes, a lista original era encabeçada pelo Leão. O goleiro da seleção de futebol nos anos 70. Por causa das pernas, deixei claro. Em segundo lugar, aparecia o Sérgio Chapelin, apresentador do Jornal Nacional na mesma época, e do Globo Repórter nos dias de hoje. Acreditem: ele era um gato. Mais tarde, Chapelin perdeu o posto para Carlos Campbell, outro apresentador bonitão de telejornal. A irmã que fazia o inventário de amores conta que eu beijava a tela da TV cada vez que um deles aparecia. Nem reality, nem show. Aquele era meu treino afetivo.

Na sequência vinham, talvez não nessa ordem: o moço do açougue, o rapaz que aplicava injeção na farmácia, o marido da vizinha e seus dois irmãos. E tantos outros, cujos nomes e rostos se perderam na barafunda da memória. Boa parte deles sequer sabia dos meus sentimentos-mirins. Para os que me conheciam, ainda que de vista, eu era apenas uma garotinha engraçadinha da vizinhança. Os tempos eram outros. E ganhar uma bala de um conhecido mais velho não levantava suspeita de nenhuma espécie.

A lista se renovou ao longo da infância e adentrou a adolescência. Jogadores e jornalistas já não faziam mais tanto sucesso no meu coração. Era a vez dos garotos de carne e osso do bairro e, principalmente, os amigos da irmã liderarem a lista. Tirando meu sono, arrancando meus suspiros. O objeto do amor, finalmente, saíra das telas para a vida real. O que não fez tanta diferença, quase nenhum dos pretendidos queria saber de mim.

Cresci, a lista encurtou. Nada de dezenas de nomes. Agora era apenas um por temporada. Ator de seriado norte-americano, vocalista de banda inglesa, psiquiatra badalado (com consultório perto de onde eu trabalhava, para azar das colegas que eram obrigadas a passar em frente ao prédio todo dia), professor de inglês e até palhaço de programa infantil. De tudo, um pouco. A reduzida lista resistia, carimbada pela primitiva essência: a paixão platônica light, sem maiores intenções e por vezes alimentada só de diversão, agora convivendo pacificamente com os namoros de verdade, com seus sujeitos e predicados.

Namorei muito. Mas minha lista, hoje, é de um nome só. Também escrito numa folha de papel. Papel passado, como se diz. No Dia dos Namorados, só um presente. Bem melhor assim.

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