Papel de parede

Arquivo (muito) pessoal

Coloquei uma fotografia da minha mãe como papel de parede na tela do computador. Por que é que nunca fiz isso antes? Dona Angelina em branco-e-preto, regador nas mãos, novembro de 1958. Grávida de meu irmão mais velho, seu primeiro filho que nasceria dali dois meses. Meu reino para saber o que lhe disseram, na hora do clique, que a fez rir daquele jeito.

Hoje de manhã ralhei com as crianças, mania de querer ficar de pijama o dia inteiro. Para fugir de mim, se esconderam, os dois, entre a estante e a parede. Voltei para o computador e peguei a avó deles rindo. Para mim ou de mim. Ou da estripulia deles. Acabei rindo junto. O que que tem ficar de pijama?

De pequena, eu achava a coisa mais fina do mundo casa com papel de parede. Para mim, hoje, ter tanta gente bonita vivendo comigo em casa é que é fina coisa. Tem sempre uma novidade. Minha filha aprendeu outro dia, na escola, aquela música:

Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não

Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede

Porque na casa não tinha parede

Se não tem parede, também há de não ter papel de parede. Descomplicaram a casa. E complicaram o velho álbum de fotografias. Cada vez que as professoras das crianças pedem foto, para uma atividade qualquer, lá vou eu correndo imprimir. Depois não tenho onde guardar. Não temos mais álbuns. Só os antigos, já com lotação completa. E pensar que há tantas fotos de minha mãe no computador, graças ao scanner. Dela e de tanta gente. As memórias agora são digitais. Todas as pessoas podem virar papel de parede, enfim. Coisa fina?

Tivesse eu feito isso antes, minha mãe também riria se visse a exposição de arte que as crianças organizaram há uns meses. Fizeram vários desenhos em papel sulfite e grudaram com durex na parede da sala. Achamos bonito e deixamos lá por vários dias. Agora, vira e mexe uma exposição se instala no mesmo lugar. Renovamos o estoque de fita adesiva. Nossa sala entrou para o roteiro cultural da família.

A filha da vizinha me perguntou outro dia, “Onde está sua mãe?”. Crianças ficam consternadíssimas quando sabem de alguém que não tem mãe. Eu deveria ter respondido que ela estava aqui em casa. Só não diria Dormindo dentro do computador. Ela não ia mais querer vir aqui.

Às vezes, penso que deve ser um bom negócio partir e poder continuar vivendo aqui e ali. Em fotografia, filme, carta, coração, retrato na parede. Gente que se foi cabe em qualquer lugar. Está liberta das amarras do espaço terreno, embora separadas de nós. Paredes grossas, essas do lado de lá.

Pensando bem, eu não daria meu reino para saber o motivo da risada na hora daquele clique. Eu sei: foi um anjo (que não saiu na foto) soprando em seu ouvido: “Você ainda vai se divertir muito com seus netos”.

Se, um dia, um anjo lhe soprar a mesma coisa, você também não vai rir?

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9 responses to “Papel de parede

  • marta pinillos

    Lindo! os que amamos vivem para sempre na nossa memória afetiva, e as fotografia tem este mágico poder de ativá-la.

  • paula mello

    Linda a sua mãe… me emocionei e não acabei de ler, volto outra hora… bjs

  • Laély

    Linda sua mãe, Silmara! E que linda crônica!
    Abraço!

  • Bel

    Sil, fiquei emocionada. Tanto pelo sorriso da foto da D. Angelina, como por todo o texto e suas reflexões sempre tão pertinentes. Ainda mais agora que estou vivendo um tempo difícil de enfermidade dos meus pais… e estudando sobre imagens no computador. Tudo se encaixa, sabe?

    Obrigada por você existir e me fazer tão bem, com seus textos!

    Bjo!

  • Simone Huck

    A evolução tecnológica de certa maneira “quebrou” as paredes. Tudo escorre, basta nossa permissão. Podemos levar as lembranças no bolso da calça ou no bolso dos olhos.
    Linda foto. Eu diria que ela literalmente “conversou” com vc e permitiu o pijama o dia todo, tem coisa mais gostosa? Aposto também que ela correu com eles e depois sentou na sala, pra participar da vernissagem da semana.
    Adoro seu jeito despretensioso e lindo de escrever.
    Bjs, Sil.
    Si

  • Samanta

    Tenho um porta retrato da minha mãe na sala, no meio de tantos outros das crianças. Engraçado que antes dela partir nunca me passou pela cabeça colocar uma foto dela ali. Mas agora, pra mim, faz tanto sentido… ela ali no meio de nós… Oh, saudade!!!!

  • Liliam

    Admiro esse poder de olhar uma foto de quem amamos tanto e já se foi,
    sem sentir dor…
    Levo meu Pai comigo no coração e na memória….
    Um dia acho que conseguirei. Hoje, nem pensar….
    Beijos

  • Elan

    Saudades da Dona Angelina… saudades do meu pai. Chorando aqui uma vida que nos traz tantas delícias e nos levam tantas bênçãos…
    Meu pai tb continua aqui e ali… nas paredes do meu quarto, da minha sala, do meu trabalho, do meu note, do meu coração. Tão perto e tão separado pelas tais paredes grossas.
    Um bj de coração pra coração.

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