Pés sujos

Ilustração: Hagar E/Flickr.com

Dormi com os pés sujos, ontem.

Precisei dum tomate para preparar o jantar, interfonei para a vizinha. Vizinhos sempre têm tomates. Não tinha chinelo perto. Então fui buscar descalça.

Vizinhos são generosos ao emprestar comida. Você pede açúcar, leva a sua xícara para não dar trabalho, e eles surgem com uma quantidade muito maior, devidamente acondicionada numa vasilha grande. Às vezes, dão um pacote fechado. Mesma coisa com batata, ovo, leite condensado. Ontem, eu trouxe dois tomates estalando de vermelhos.

Não só. Voltei para casa com toda sorte de coisas grudadas nas solas dos pés. A maioria, invisível ao meu olho nu, tão nu quanto meu pé. Seres vivos do tamanho de um nada, habitantes das rugas do asfalto. Ciscos, pó.  Rastros de bichos que passaram por ali, pelo de cachorro, raspas das solas de sapatos que vão ficando pelo caminho, pensa que isso não acontece? Uma solitária gota d’água da chuva que veio e foi. Escamações do dia e da noite, pegadas do orvalho, fuligem de gente – a minha própria. Vieram todos dormir no meu lençol porque, findos jantar e dia, me deitei com os pés sujos. Uma preguiça invencível de lavá-los antes, e a certeza de que mal não haveria. Não tive nojo, nem medo de ficar doente. Sujeira boba assim não adoenta ninguém. Falta de comida e de música, sim.

A hora do nascimento é a única onde pé é genuinamente limpo. Os minúsculos dedos, cegos, à procura de algo onde possam se agarrar. O parto é um voo. A partir do pouso, sabão nenhum dará conta de deixar os pés tão limpos quanto eram no útero preservado.

Jesus sabe disso. Morreu com os pés sujos.

Quando meus filhos nasceram, não conferi o número de dedos em cada um de seus pés (e mãos), como já tinha ouvido algumas mães confessarem. Não conferi se faltava alguma coisa. Não conferi nada, essa é a verdade. Só lhes sorri e disse ‘olá’, como convém quando se reencontra um velho amigo.

À noite, na hora do banho, tudo que minha cria fez ao longo do dia está registrado em seus pés. Meus olhos, nariz e mãos de mãe descobrem tudo. Se pisaram a terra, se jogaram bola descalços. Se estiveram o dia todo de meia e sapato. Sola de pé é uma espécie de diário.

Luz apagada e sonhos em fila aguardando a vez, esfreguei meus pés, um no outro. Ih, espalhei tudo – pensei. Vestígios do dia, memórias de outra volta da Terra – redonda como o tomate que participou da minha refeição – em torno de si. Ou de mim? Que venha a boa noite.

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6 responses to “Pés sujos

  • paula mello

    Falta de música pode, sim, deixar a gente doente… Já imaginou um mundo sem música? A chatice que seria? O tédio a tomar conta de tudo, o marasmo instalado, nada para desafogar o coração apertado de saudade ou de alegria, de preocupação ou de tristeza…

    E pés. Pés que só se sujam quando andam por caminhos errados. Aí, sim, a gente tem que lavar bem e começar a trilha de novo.

    Que ela seja sempre orvalhada de amores.

    Beijo grande!

  • Laély

    No meu edredon há sempre marcas de pés sujos; na verdade são patinhas sujas: as do meu gatinho. Na verdade, não me importo muito com isso. Até gosto. Mas não consigo dormir de pés sujos. Acho que respiro pelos pés, os meus…

  • Isabella

    Às vezes eu durmo de meia suja rsrsrs

  • Silvana Maciel

    às vezes tb durmo com os pés sujos, mas dificilmente me escuso de uma boa leitura.. hoje encontrei vc!

  • Albuq

    Post lindo Sil, me fez lembrar da minha infância kkk

    bjs

  • Ana Maria

    Lindo!
    Me lembrei do Cauan. Quando ele era pequeno, brigava contra o sono. Tomava banho lá pelas 19h, mas só ia dormir lá pelas 22h com muita luta…
    Como ele sempre teve pé quente (até hoje não cobre o pé por mais frio que esteja), ficava descalço até a hora de dormir. Quando finalmente o sono ganhava a briga eu molhava uma toalhinha com sabonete liquido e limpava aquele pezinho gostoso todo sujinho.
    Ai, ai! Agora ele já tá indo embora pra fazer faculdade e eu tô aqui lembrando do pezinho…
    Bijim e Namastê

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