Prazo de validade

Ilustração: Elizabeth/Flickr.com

Passou o requeijão no pão nu, com cuidado para não avançar a fronteira da casca. Moça meticulosa. Apresentou o açúcar ao café e, com ajuda da colherinha, os dois iniciaram uma dança no interior da xícara. No dia sem pressa, levou a fatia à boca e distraiu-se com a paisagem da mesa. Tomou um susto que lhe congelou a garganta. Buscou os óculos, “Cadê meus óculos?!”. Estava escrito no rótulo do requeijão: ele venceria no dia do seu aniversário. Teve certeza, aquilo era um sinal. Só não sabia de quê.

Pouco mais de quarenta dias. Era o que restava ao requeijão, condenado ao sair da fábrica. Era o que faltava para ela comemorar mais um ano da sua saída, não da fábrica, mas do ventre. Que não deixa de ser uma fábrica. E se, escondida no corpo, embalagem da alma, estivesse tatuada a data de seu fim, tal como no copo? Olhou os pulsos, os tornozelos. Apanhou dois espelhos e conferiu a nuca, sempre encoberta pela longa cabeleira. Nada. “Melhor assim”, pensou.

Daquela desapressada manhã em diante, passou a ter uma pressa incomum. Urgências diversas para todas as coisas, como atender os pacientes no consultório, beijar o noivo, passear com os cães. E o medo, insólito, de expirar no dia do parabéns? E se sua vida também fosse assim, breve? Nem sempre as respostas vêm assim, tão expressas como nas embalagens. Ainda bem.

Dias depois, duas torradas assistiram ao fim do requeijão, antes mesmo da data fatal. Seu aniversário chegou, e com ele, a descoberta: vida, assim como amor, felicidade e saudade, não têm prazo de validade. Eles duram conforme o estoque.

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12 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. Maricotinha
    out 29, 2010 @ 21:49:26

    Muito bom. Tomei como um presente ao lê-lo, já que “venci” mais um prazo de validade em 20/10. A urgência e a pressa se tornam inevitáveis quando se está na metade dos ´intas…. beijocas

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  2. Felipoca
    out 21, 2010 @ 19:39:51

    É como dizem, “dura até acabar”. Rs

    Texto perfeito, Sil, pra variar, né?!
    Sou fã.
    bjus.

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  3. Luciana
    out 21, 2010 @ 15:13:17

    Sil, muito legal esse texto … como todos os outros, sempre …
    E me deixou pensativa em relação ao nosso prazo de validade …
    E se ele viesse impresso em nosso corpo, como no requeijão, será que faríamos as coisas diferentes ?
    Será que amaríamos mais, perdoaríamos mais, e … ?

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  4. Josi
    out 21, 2010 @ 06:38:14

    Oi Sil
    eu já estava com saudades de passar por aqui com tempo para escrever.
    é as coisas estão tão corridas por esses dias… deve ser pela aproximação do fim do ano… e o prazo de validades do ano esgota rapidinho, quando vai cheagando outubro, novembro parece que queremos viver mais rápido pra não perder nada, lamber o copo e garantir que nenhum segundo desse restinho será disperdiçado… pensando bem, o mundo ainda acelera, o sol nasce mais cedo, a noite passa voando e outro dia invade a janela do quarto nos chamando pra correria… antes que o prazo expire, antes que sino toque, antes que o menino torne a nascer e tudo recomeçe devagar e o cilclo se feche e nós, vamos ficando a cada dia mais perto do nosso prazo de validade…
    Beijinho Sil
    bom fim de semana!
    Josi

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  5. jeanne
    out 20, 2010 @ 17:19:59

    sempre achei comentários sobre “prazo de validade” (de relacionamentos, p.ex) algo pessimista e fatalista. Concodo que tudo tem inicio,meio e fim, mas era como se eu não pudesse interferir em nada, deveria apenas esperar o tempo passar. O seu texto suave,poético e profundo me fez sentir que eu sou a responsável pelo meu estoque e que depende de mim a duração dele. Adorei! Beijos

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  6. Kilson
    out 19, 2010 @ 20:57:28

    Lindo texto! Perfeito! Adoro a sua maneira de escrever.
    Mas permita discordar quando vc diz que “vida, assim como amor, felicidade e saudade, não têm prazo de validade”.
    Eu acho que tudo, assim como a vida tem início, meio e fim.
    E justamente por isso devemos estar atentos para perceber quando esse prazo de validade está vencendo ou já venceu.
    Beijos

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  7. Karam
    out 19, 2010 @ 17:35:30

    Vou degustar os sabores que me restam sem fazer esse controle de estoque. A existência da reposição ainda é um mistério.
    Obrigado pelo texto!

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  8. Deia
    out 19, 2010 @ 16:10:40

    Lindo demais esse texto Sil, fico babando com o seu talento e sensibilidade!
    Grata sempre por esses presentes que nos dá em forma de palavras e reflexões :)
    bjoka grande

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  9. Jennyfer
    out 19, 2010 @ 11:37:44

    Ótimo texto!

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  10. Nara
    out 19, 2010 @ 07:00:27

    Bravo! Adoro seus textos de urgência!

    PS.: Hj vim aqui as duas da manhã à procura do seu texto e necas! Agora chego aqui 6:30 da manhã e ele tá quentinho aqui… Estou saboreando junto com o capucccino. Uma delícia!

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  11. Cléo
    out 19, 2010 @ 06:54:50

    Verdade, Sil…não devemos esquecer de conferir o estoque…Hoje pela manhã, vi que o estoque de vida de um vagalume, acabou, bem no meio de minha sala…e o fim do estoque de uma rolinha, pegou-a desprevenida bem na minha calçada…Adorei essa coisa de embalagem da alma…acho que temos, né? só não temos olhos para ver. bjão querida!

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  12. Eduardo Coelho
    out 19, 2010 @ 06:54:03

    Amei.

    Resposta

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