Sequestro-relâmpago

Ilustração: Joseph Francis/Flickr.com

A psiquiatria deveria, com urgência, desvendar um dos mais complexos desvios do comportamento humano. O que acomete o sujeito, até então de bem, e o leva, num ímpeto, a arrancar pedaços de páginas – ou páginas inteiras, em casos crônicos – das revistas das salas de espera, notadamente as de consultórios médicos e salões de beleza. Aquelas, à disposição dos pacientes e clientes. Geralmente antigas, trazidas de casa pelo dono do negócio (dá para ver na etiqueta de assinante). Aquelas, que todo mundo lança mão quando percebe que a coisa vai demorar.

Mistura de cleptomania com vandalismo, a estranha atitude é o sequestro-relâmpago da informação. Pior: não tem negociação, nem pedido de resgate, muito menos libertação. No caso, reposição do material sequestrado. O desvio não chega a ser um transtorno de personalidade. Transtorno mesmo é para quem tenta extrair algum conhecimento da revista mutilada – meu caso. Fiquei, enquanto aguardava a manicure, semana passada, sem saber todos os benefícios da alcachofra.

Ao folhear uma revista-vítima qualquer, os mais desatentos não percebem que pularam, por exemplo, do meio de um artigo sobre economia para outro, sobre astrologia. Virar a página, para essas pessoas, é ato contínuo. Serve para fazer com que os segundos cumpram seu destino, que é passar. E rápido, se possível. Porém, quem o faz com um pouco mais de afinco, desejando, talvez, saber mais sobre a Croácia, aprender a fazer um risoto de morangos ou se atualizar sobre os avanços nas pesquisas sobre o uso das células-tronco, esbarra num obstáculo impiedoso, causado pelo maníaco. Dá de cara com um naco de página, decepada a sangue frio, que passa a exibir as vísceras da celulose.

O psicopata que ataca revistas é frio, porém não calculista. Não traça, com exatidão, a rota do estrago que planeja imputar à pobre. Rasga sua folha com selvageria. Não importa se, junto ao endereço daquele resort que pode ser uma boa opção para as próximas férias, venha também um teco do anúncio de uma cafeteira elétrica e o carimbo de tinta roxa avisando que aquele periódico não lhe pertence. Ele não utiliza nenhuma ferramenta para dar acabamento ao seu crime. Uma régua, que seja. Só para deixar a página violentada num mínimo de esquadro, despistando o que aconteceu por ali. Não. Quanto mais evidências da subtração, com lascas de papel esmigalhado ou prejuízo da brochura inteira, melhor.

Não sei se é caso de saúde ou de polícia. Mas quando me deparo com uma página anonimamente estraçalhada, sinto-me surrupiada em meu direito à informação. À revista amputada restará apenas o aconchego do revisteiro ou da mesinha de centro. E a mim, a missão de descobrir por que diabos a alcachofra tinha duas páginas inteirinhas só para ela.

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5 respostas para “Sequestro-relâmpago

  • Rosana Tibúrcio

    Vários dias sem te ler, hoje tirei dia de folga e me dei esse presente. Dos novos, pra mim, esse foi o delicioso de ler.
    Tem hora que me dá uma agonia em ler coisas tão corriqueiras que ninguém jamais houvera escrito. Inda bem que foi você, e tão bem.
    Beijoss

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  • Felipoca

    e uma vez que tava vendo as férias da Luma de Oliveira na ilha de Caras, e faltavam as páginas que ela estava de biquini? Um crime inafiançável!

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  • Águida

    Silmara, adorei seu texto e dei boas risadas!
    Agora, preciso confessar, já sequestrei uma página de uma revista no colsultório do meu oftalmologista!!
    Foi numa época que não usávamos tanto a internet e achei uma receitinha maravilhosa de pão integral.
    Não pensei duas vezes e …….
    Juro pra você, foi uma única vez, mas agora depois de tanto tempo estou morrendo de remorso!

    Beijo grande

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  • Dani

    Ai Sil, só te digo que dia desses fui até um consultorio, o doutor era velhinho as revistas idem, enquanto esperava encontrei uma revista Manchete, quase mais antiga que eu, com uma reportagem sobre o naufrágio do ‘bateau mouche’ vê se pode?

    fiquei com medo do doutor! ;-)

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  • Albuq

    Sil, agora mais perfeito que nunca esse post kkkkkk

    O lugar que mais encontro revista assim é em salão de cabelereiro, lá os sequestros relâmpagos são constantes kkkk

    adorei!

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