Buscadores de lembranças

Ilustração: Ravenelle/Flickr.com

Atire a primeira pedra quem nunca procurou ex na internet. Seja solteira, casada ou tico-tico-no-fubá. Feliz no casamento, nem tanto ou nem um pouco. Por saudade, curiosidade ou falta do que fazer. De qualquer idade. O impulso é democrático.

Vamos combinar: isso não constitui traição. Não representa, necessariamente, recaída ou interesse num revival. Nem é prova incontestável de crise conjugal, existencial, ou as duas juntas. Psicólogos de plantão que me perdoem, mas o negócio pode – vejam bem, pode – ser mais simples: trata-se de querer saber por onde anda quem um dia andou com você. Descobrir se engordou. Se está grisalho. Saber onde está trabalhando, se casou, teve filhos. Se terminou aquele mestrado em Direito Penal ou abriu um boteco. Se é feliz, se virou monge, se está em expedição na Antártida ou se alugou um apartamento no seu bairro. Ou se sumiu do mapa e há dois anos não telefona nem para a mãe no Natal. Sem motivações rocambolescas e, uma vez saciada a curiosidade, retomar os afazeres sem maiores inquietações ou aflições.

Para dar conta da atualização afetiva, com ou sem segundas intenções, quem precisa de vidente se existem os buscadores, as redes sociais? Google, 123People, Orkut, Linked in, Twitter, Facebook, todos podem dar boas pistas em poucos segundos, uma proeza para qualquer esotérico profissional. Vale quase tudo na hora de sondar um paradeiro. Que mal há? É preciso, porém, ter boa memória para fornecer primeiro nome, nome do meio e sobrenome, cuidado com os homônimos e paciência para varrer os resultados sugeridos – melhor incluir as aspas na pesquisa. Quem é tradicional recorre ao método antigo: liga para a amiga do primo da cunhada que trabalhava com o fulano, estabelecendo uma espécie de corrente investigativa. O sigilo, nesse caso, passa ao largo do absoluto. Não há política de privacidade e o ex vai ficar sabendo, o que pode ser boa ou má notícia, dependendo do passado – e presente – em questão.

Às vezes, nem se trata de um ex de verdade, como ex-marido, ex-noivo, ex-namorado. Somente um ex-quase. Ou sequer ter chegado a isso. O amor platônico da faculdade. O dono da academia de ginástica onde você queimou mais suspiros que calorias. O moço cheio de esperança que lhe entregou um cartão com nome e telefone numa livraria e você, boba, jogou fora. As histórias de amor que foram sem nunca terem sido. Por culpa do Cupido, que estava de folga no dia. Ninguém é de ferro. Para dar uma forcinha nos assuntos do coração na era da informação, Santo Antonio deve ter sido convidado a fazer parte do Conselho Executivo do Google. Será que ele topou?

Fazer essa busca na internet também pode ser tudinho que você está pensando. É parte de um plano de ataque, minuciosamente elaborado sabe-se lá por quais razões – afinal, ninguém tem nada com isso, exceto quem vai para escanteio logo, logo. Talvez, uma sessão nostalgia, com direito a imaginar o que teria acontecido, não fosse o adeus. O adeus de comum acordo. O adeus sem acordo. O adeus sem adeus. Para tal, as vantagens da internet são imbatíveis. Auto-serviço, razoável garantia de anonimato, flexibilidade de horário. E ainda é de graça. Pode-se apagar o histórico da fuçação no browser. Afinal, será difícil explicar depois que focinho de porco não é tomada. Na iminência do flagrante, alternar para a página previamente aberta de um jornal online e disfarçar – “Quem será que ganha no segundo turno, hein?” – é tão rápido quanto o piscar de um par de olhos ressabiados.

A internet, no entanto, não emite opinião. Não resolve angústias. Não faz terapia. Nem aconselha. No caso de se querer saber se o ex ainda sente alguma coisa por você, ou se vocês têm alguma chance, ela não serve. Aí, só a vidente. Porque nem o santo casamenteiro vai querer se meter nisso.

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9 respostas para “Buscadores de lembranças

  • vanderlei

    Vanderlei procura Eliane que tem irmãos chamados beto e elizabeth eo seu José!ela morava na comunidade da Maré em Ramos em 1970/71 na época tinha 11 anos

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  • vanderlei

    Queria reencontrar uma moça por nome de Eliane que morou na comunidade da Maré em 1970.os irmãos dela chaman-se beto e elisabete,o pai se chamava jose!Quando á conheci eu tinha 09 e ela tinha 11 anos!

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  • Laély

    Estava há um tempo sem lhe visitar( isto, também não seria traição, seria?!…rs) mas, quando vi o tema, interrompi minha leitura para ir à busca, no Google.
    Quebrei a cara: meu primeiro namorado sumiu no mundo, talvez, desiludido depois que nos separamos…É pra fantasiar?!…
    Abraço!

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  • Marinella

    hahahaha ri demais com o texto. Me fez ver que mulher é realmente muito igual :), acho que essa vontade de pesquisar como está o passado dá em todas, em procurar saber como teria sido se voce tivesse feito outrra escolha…muito bom mesmo, parabens!

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  • daniele

    Hum, acho que vou te contratar como minha detetive viu! o google continua dando os vários homonimos…e o medo de encontrar o tal do moço e me deixar levar pelo ‘foi sem ter sido’
    ;-)

    beijocas

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  • sandra

    acho que nunca busquei, mas é óbvio que já pensei nisso várias vezes, mas o outro lado também é gostoso…. já fui achada, putz….tava trabalhando, e lá na empresa usamos o skipe e, de repente, plin! a pergunta: Você não é a ?…. mais de 20 anos passados…. é uma sensação diferente e olha que ele nem foi ex, mas também não dava para chamar só de amigo ou colega de trabalho… rsrsrsr
    Silmara querida, um ótimo feriado para vc, acho que vou fazer umas buscas…ixxx mas o marido está em casa!!!!! rsrsrsrs

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  • Déia

    Ah Sil, que texto divertido e delicioso de ler..E quem nunca se viu em uma das situações que vc descreveu!
    Parabéns flor :)
    bjokas e obrigada sempre por nos presentear com textos tão tão lindos de super de qualidade!

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  • Cléo

    Hahahahaha, Sil, você entende a alma das mulheres…. E apesar de não termos intenção alguma, por tratar-se na maioria dos casos, de pura curiosidade, ainda o fazemos escondido do marido, por saber que ele não achará nada normal….hahahaha

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  • Albuq

    Eu já fiz essa busca, acabei vendo o que não queria.
    Otimo texto Sil, bjs

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