Poesia de vento

Ilustração: Kathryn Harper/Flickr.com

.

Escrevi uma letra para a música que o vento fez

Quando anunciou a chuva de ontem.

Gravei meu quintal chovido em sonho

Para o dia que ele não for mais quintal de ninguém.

***

Estudei fora e dentro de mim

Só não fiz dever de casa

Eu nada devia.

***

Ganhei de aniversário uma vida, mas ficou pequena

Troquei por outra, dois números maior.

***

Fotografei o cheiro de feijão no fogo

Passei perfume na flor sem cor

Desenhei a risada da minha filha num papel de pão

Aqueci a foto da minha mãe no peito

(Ou foi ela que me aqueceu)

Deitei no colo do meu filho

Chamei-o de pai

Ele riu

Sabe que já foi meu pai.

***

Beijei o passado, flertei com o futuro

Casei-me com o presente.

Formei-me cedo, tive filhos tarde.

Não vi a hora de ser feliz.

***

Entrei no Messenger, Deus não estava online.

Atendi o telefone, era eu mesma

E não era engano.

***

Fiz sopa de palavras no jantar

Estava com tanta pressa

Esqueci de por os pontos finais.

***

À meia-noite, fingi que dormia

E deixei a Cuca me pegar.

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8 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. tatianarf
    out 18, 2011 @ 15:35:59

    Silmara, gostei muito dos seus escritos. Ainda não li muita coisa, mas do que já vi, essa poesia foi a mais saborosa. Peço permissão para publicá-la no meu blog: http://www.sentidoirrestrito.wordpress.com

    Grata, Tatiana.

    Resposta

  2. Elan Popp
    mai 23, 2011 @ 09:23:34

    Fiz sopa de palavras no jantar

    Estava com tanta pressa

    Esqueci de por os pontos finais.

    Minha vida tá uma sopa apressada.. e eu tb tenho esquecido de botar pontos finais.
    Perfeito, Sil! Tudo! Como sempre!
    Bj

    Resposta

  3. paula mello
    out 29, 2010 @ 21:06:12

    Ô Sil! Nunca postei nada seu no meu quintal, e essa daqui realmente cai fundo no meu coração. Me empresta?

    Levo o texto e você junto.

    Beijos

    Resposta

  4. Cecília
    set 30, 2010 @ 08:25:05

    Oi Silmara, endosso todos os comentários acima. Que bom encontrar o que você deixa por aqui. No meio do turbilhão das coisas, sua delicadeza é um alento!
    Beijos
    Cecília

    Resposta

  5. Felipoca
    set 29, 2010 @ 13:15:57

    “Entrei no Messenger, Deus não estava online.

    Atendi o telefone, era eu mesma

    E não era engano.”

    Perfeito, Sil.

    Resposta

  6. Albuq
    set 28, 2010 @ 23:35:49

    Ahhhhhhhhhhhh me deliciei… linda poesia!

    Resposta

  7. Déia
    set 28, 2010 @ 11:46:13

    Delícia de poesia!
    Tão delicada e suave :)
    Vou começar meu dia melhor despois dessa deliciosa leitura!
    bjokas

    Resposta

  8. Josi
    set 28, 2010 @ 08:45:36

    Sua poesia de vento chegou aqui como brisa…
    suave e fresca, vento primaveril…
    beijinho
    Josi

    Resposta

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