Nome aos bois (ou sapos)

Toda vez que falo para minha filha de três anos que ela tem perereca, eu me sinto uma imbecil. Toda vez que falo que ela tem vagina, eu me sinto uma imbecil. Vagina é certo. Mas é sisudo, formal, pesado. Perereca não é certo. Mas é lúdico, informal, leve.

Acontece o mesmo com meu filho de seis. Não há como soar natural eu lhe pedir para, durante o banho, abrir o prepúcio (para evitar infecções, quem tem menino sabe), ou então para segurar direito o pênis na hora de fazer xixi. Bilau e pipi nessas horas, que mal há?

É bom saber o nome científico das coisas. Mas ele nem sempre cabe. Imagine a canção do Ira! assim:

“Um helianthus annuus sem sol
Um navio sem direção
Apenas a lembrança
Do seu sermão”

Ou o Chico Bento, personagem do Mauricio de Sousa, roubando psidium guajava da fazenda do Nhô Lau.

Não que os nomes populares da flor – girassol – e da fruta – goiaba – sejam a mesma coisa que os apelidos sexuais. No entanto, o que se busca ao usá-los, pelo menos aqui em casa, não é disfarçar o pudor, nem a vergonha. Antropólogos e pedagogos podem ter suas explicações na ponta da língua. Prefiro, porém, acreditar que o atrativo do apelido esteja na simplicidade, na sonoridade, na estética da palavra. Está certo, crianças devem aprender as coisas como elas são, sem infantilizações. Em casa sempre foi cachorro e não au-au. Mas com perereca e bilau, confesso, a porca torce o rabo.

Quando eu menstruei pela primeira vez (ou fiquei mocinha, para usar uma expressão da mesma turma), minha mãe me levou ao médico. O esquisito Doutor Fuad, com seus implantes capilares que lhe davam certo ar de Frankenstein, cuidava de todos lá em casa. Na consulta, ele pediu para que eu me despisse, assim poderia examinar minhas partes. O que não fez sentido para mim, já que eu era inteirinha feita de partes: parte de trás, da frente, de cima, de baixo. A qual delas ele se referia? Meu corpo já tinha seus pontos cardeais. Mas só ali eu comecei a entender qual deles apontava para o sexo. Vez por outra, vejo alguém se referir aos genitais como partes baixas. Localização mais exata que a do médico da família. Também sem sentido. Geografia de gente é outra.

Dizer ou não dizer vagina e pênis, eis a questão. Ensinar os nomes às crianças até que é fácil. Porém, se é difícil encaixá-los nas conversas, esclarecer de onde vêm seus apelidos é inviável. Que associação pode ser possível entre o órgão sexual feminino e um anfíbio anuro e verde, que salta e come mosquito? Como nasceu o verbete bilau, cujo único e exclusivo significado (pelo menos neste país) é o órgão sexual masculino?

Certo estava meu filho, aos quatro anos, quando filosofou: “Mãe, ‘perereca’ é um tipo de bilau”. Anotei. Não é sempre que se vê tanta clareza.

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9 responses to “Nome aos bois (ou sapos)

  • debora corigliano

    Que legal! Tenho uma palestra que fala sobre a sexualidade infantil. E este tema é abordado. Falo sobre os apelidos que damos para a vagina e o penis. O engraçado é que apresento isso em telas de power point, e quero que vc veja, que gracinha na hora que surge uma pererequinha que até da uma piscandinha, um pintinho, um pirulito, uma pombinha e assim por diante. A platéia ri e se identifica com todos esses apelidos.
    Agora terei mais um comentário a fazer…..darei o exemplo do Luca!!!Adorei.
    Bjos

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  • Rafa

    Na minha época era “pipi”. Tenho um amiguinho de oito anos que fala “boló” ao invés de bunda. Vou perguntar de onde ele tirou isso. Pode ser que de lá também tenha vindo o “bilau”!

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  • Jennyfer

    Ser mãe é substantivar e adjetivar à moda da casa. É sempre muito bom passear por aqui. Um abraço!

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  • Albuq

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Sil, imagino a situação… como é difícil dá nome aos bois quando se está sob essa ótica!
    kkkk

    bjs, muito bom o texto!
    Teu filho foi muito sábio com esse comentário!

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  • Noele

    To aqui rindo, porque minha filha mau fez dois anos, e ja me deixa assim, sem saber o que dizer, fomos tomar banho juntas e na hora que ela foi lavar a Popoca (é assim que ela chama), ela olhou assustada para mim e perguntou cadê o pipiu mamãe? Eu não sei se ria ou se chorava, e la fui eu, marinheira de primeira viagem, falar que quem tem pipiu é menino e popoca é menina, não passou 30 minutos e meu namorado chega em casa e a primeira coisa que ela diz é: Ieiê (José na lingua dela) tem pipiu ne mamãe e eu tenho popoca. Pronto, pegou, ficou umas duas semanas apontando todo mundo e dizendo quem tinha o que.

    Agora me diz, como se explica certas coisas meu Deus rsrs

    BEIJOS

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  • Néia

    Tão bom aproveitar esses momentos lúdicos e inesquecíveis com nossos pequenos, o tempo não para e quando nos damos conta, a infância já passou. Temos mesmo que deixar os duros formalismos de lado e aproveitar dessa farta pureza da alma, que tem tanto a nos ensinar, bjos.

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  • Josi

    Oi Sil.
    Muito boa essa reflexão…Aqui em casa aconteceu algo “engraçado”, acho que posso falar assim… Minhas sobrinhas, (minha irmã tem 3 meninas) apelidaram suas genitálias de Puca… assim mesmo, simples, era puca pra cá e prá lá e esse apelido pegou, passou de geração pra geração. Chegando na Bea também… Há algum tempo apareceu aquele desenho japonês… a Pucca que estampa rou pas infantis, briquedos e figurinhas e tudo mais… imagina a cara da Bea quando viu! ela dizia “eu que não vou usar roupas com a Pucca. Credo!!”
    Hehehehehe… a moda pegou … mas não pra Bea…
    Uma outra história interessenate foi a de um aluno da minha irmã…
    Num jantar de família, quando o irmão mais velho levou a namorada para apresentar aos pais e avós… o menino vendo todos conversando assuntos importantes, decidiu que ele também tinha um assunto de gente grande… e soltou… _”Vocês sabem que eu aprendi que o nome verdadeiro do meu pipi é pênis?”
    hehehehe
    crianças… pra que complicar se a vida é simples assim?
    beijinho
    Josi

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  • Bel

    Eu ri. Ri imaginando sua cara e lembrando de algo que aconteceu com meu filho, quando tinha uns 3 anos. Aqui em casa, a “perereca” é “perexeca” (não achei justo dar o nome de um bicho do qual eu tenho nojo!) e o “bilau” ´e “pinto”, sei lá porque.
    Uma vez, estávamos na chácara dos ex-sogros, e meu filhote entra correndo em casa, vindo do quintal, e gritando: “Mãe, mãe, eu vi uma perexeca!!!” (No primeiro instante eu me assustei (tinha muitas primas na chácara, sei lá o que ele poderia ter visto…), mas logo em seguida ele me chamou pra ver, e… era uma PERERECA (bicho)!!!

    Mas brincadeiras à parte, nunca usei vagina e pênis, nem hoje, pra mim eles têm outros nomes (impublicáveis num blog de família como este!) hahahaha

    Beijoooo

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  • Laély

    he, he!
    Eu ri muito da sua dúvida e do esclarecimento sábio, do seu menino!
    Também sou do tempo em que as meninas “ficavam moças”, quando menstruavam! Mas a minha mãe não foi tão sutil, quanto à sua: mostrou-me um “Modess” e avisou constrangido que, quando tivesse “esse” problema, deveria usar “aquela” coisa!

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