O dersubu das amensons

arte: Károly Kiripolszky

arte: Károly Kiripolszky

Tente concluir alguma operação na internet – qualquer uma: deixar comentário no blog da comadre, comprar um livro ou enviar um simples email – e lá estarão elas. Implacáveis, desafiadoras da sua acuidade visual, insensíveis à sua pressa e, sobretudo, descrentes de que você é você. São as palavras de verificação, remédio amargo inventado para combater a doença do spam. Prescrito a todos, sem exceção. Até para quem não apresenta sintoma algum. Prevenção pura. É assim nas epidemias.

Como num jogo eletrônico, a função da palavra de verificação é impedir que você passe de fase. Um malévolo programa tentará lhe confundir: é um “i” maiúsculo ou um “L” minúsculo? A letra ó ou o número zero? Ele borrará o fundo, enfiará rabiscos no meio, distorcerá as letras. Sacaneará você, sem cerimônias. Um carrasco virtual, inexplicavelmente piedoso: serão-lhe concedidas quantas chances, ou vidas, você precisar. Ao detectar seu erro, outra palavra se apresentará e, diante do segundo equívoco, nova mistura alfanumérica, igualmente incopiável. E assim sucessivamente. O verdadeiro intuito não é auxiliá-lo, e sim testar seus brios. Checar até onde você está determinado na sua intenção. Até a hora em que seu chefe se planta ao seu lado, o telefone toca ou seu filho prende o gato no armário, e você deixa a verificação para lá. Não era nada tão importante assim. Depois você telefona para a comadre. Vai até a livraria e compra o dito cujo. Manda uma carta pelo Sedex. Mais fácil.

As palavras de verificação não são exatamente palavras. Oficialmente, são “imagens”. Para livrar dos tribunais quem as inventou, evidentemente. No entanto, se o objetivo é detectar se tem gente do lado de cá do computador, é incompreensível que não surjam de forma simples como banana, arara, cogumelo, casa. Não: tem que ser o indecifrável dersubu. As enigmáticas obvent e pargampu. A etérea amensons e a indizível muthst. Para não errar, você se concentra e, usando apenas o indicador, digita uma letra de cada vez. Confere na tela e, estando tudo correto, parte para a próxima letra. Sensação idêntica, para os mais velhos, a da primeira vez a sós com uma Olivetti.

Você fica na dúvida se a tecnologia está, de fato, a seu favor. Ou se é um movimento organizado em prol do idioma da nova era, conduzido por extraterrestres detentores de alta tecnologia, infiltrados em nosso planeta. Justo agora, que você aprendeu a se expressar em cento e quarenta caracteres e já havia se conformado com o huashuashua das mensagens instantâneas.

O futuro é incerto. Melhor se preparar.

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12 responses to “O dersubu das amensons

  • Maurício Mellone

    Silmara:
    Adorei sua crônica. Além de indecifráveis, as tais letrinhas tb às vezes são grafadas em minúsculas ao lado de maiúsculas. Vc coloca a letra correta, mas ela era maiúscula (ou inverso)…. estamos nas mãos mesmo de extraterrestres, como vc sugere!
    bjs

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  • ayagui

    depois que li esse texto eu sempre penso em vc na hora de preencher as malditas “palavras” de verificação.

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  • Rosana Tibúrcio

    Quis tanto escrever um post sobre isso, não saberia… hahahahaha
    Odeio essas letras, deixo de comentar em blogs por isso e depois, fulano inda pergunta: por que não vai mais no meu blog? Até vou, mas… “Paciência? Não temos”, com diria Patrícia do “te amo, porra”.

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  • Rafa

    huashuashuashuas

    Adorei!

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  • Camila

    Sempre acreditei que ajudava na revisão. Sempre.
    Se é assim, que assim seja. Já tirei a obvent do pargampu.
    Os leitores agradecem. Mas eu ainda acho uma boa forma de revisão…

    Beijo!
    PS: Tive que pesquisar sobre a Olivetti… O passado também é incerto. Melhor me informar.

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  • BOAS VIBRAÇÕES...

    pensava que era só eu…que tinha este probleminha ai, que vc falou neste post bem humorado.
    Eu faço muita propaganda do seu blog,imagine do seu livro… estou aguardando… Boas Vibrações para escrever o seu livro…

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  • Marco

    Caramba, bem que a Cléo, sua vizinha, me falou que seus textos são maravilhosos! Quanta sensibilidade, Silmara, pra dedicar uma crônica gostosa como essa a essa questão pela qual todos passamos mas sobre a qual raramente nos dedicamos a pensar mais que alguns minutos, ou nos permitir mais do que alguns pensamentos de raiva e indignação. Adorei seu texto, fluido como água corrente. Lindo!

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  • Ana Claudia

    Desculpe, viu. O comentário hoje era pra esse texto aqui, saiu no das bolsas. Embora o das bolsas seja muito bom, esse aqui me chamou bastante atenção. É engraçado até.
    Um beijão

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  • paula

    Olha, já cheguei num ponto que isso daí nem me irrita mais. O que eu fico p da vida é com uma coisa que ninguém me explica até hoje, talvez vc possa. Por que raios eu pago banda larga e leva um tempão para “carregar” as minhas páginas?? Carregar o quê??? Só se for o diabo. Mas ele, coitado, provavelmente está ocupado com coisas mais importantes.

    Ah, a gente pode melhorar um pouquinho, liberando dos comentários dos nossos blogs essa verificação. As comadres e os compadres agradecem.

    Eu também.

    Beijo grande.

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  • Albuq

    Sil, me vi no seu texto… todas as vezes que vou colocar um comentário que vem esses enigmas, coloco mil vezes até realmente escrever esse novo dialeto. Também me questiono, será que estão ao nosso favor? Eis grande dúvida. kkkk

    adorei o post,
    bjs

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  • Josi

    Hehehehe, só você mesmo! Eu tento abstrair pra não me irritar com as palavra incertas que aparecem, mas o mais complcado foi explicar pro meu pai, quando fiz o blog dele o porque daquelas palavrinhas e acho que não o convenci e nem expliquei, foi mais fácil dizer que era assim mesmo e que tinha que ser… ele aceitou de nariz torcido, resmungando, mas fazer oquê? É o snal dos tempos…

    beijinho
    Josi

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  • Eduardo Coelho

    Adorei. Beijos!

    Alias: “bjs”

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