Enquanto me arrumo para passear

Ilustração: Andrew Eason/Flickr.com

Minha mãe usava pó-de-arroz. Eu me sentava ao seu lado na penteadeira e a assistia, através do espelho. Ela abria o estojo, apertava os lábios e, com a esponjinha cor de rosa, espalhava o pó translúcido pelo rosto. Eu não sabia onde é que o arroz entrava na história, mas me alimentava da beleza do ritual. Aquele pó é tão distante – em cor, perfume, textura – deste aqui, comprado às pressas numa farmácia qualquer, ano e meio atrás. Eu era madrinha de um casamento em outra cidade e, no hotel, percebi que havia me esquecido dele. Nem conferi o tom, Quanto é? Não precisa embrulhar. Em frente ao espelho do banheiro, flagrei-me com uma esponjinha rosa entre os dedos, lábios apertados comprovando a herança. Na igreja, não me recordo se houve chuva de arroz nos noivos. Nem em grão, nem em pó. Agora vejo que ele não bate com a cor da minha pele. A gente usa muita coisa que não combina conosco. Pois hoje vou passear de pele nua.

Rente aos meus olhos, o lápis preto finge um traço. É um poema em código, para ser lido em silêncio pelas pessoas. Cada um inventará sua rima própria. Mas só eu sei da minha métrica. No fundo da gaveta, apanho o delineador. Tento usá-lo, mas não dá certo. Nunca dá. Seu traço sai imperfeito e destoa da noite de hoje, enluarada à perfeição. Disfarço tudo com sombra azul-marinho. Um pouco de mar é sempre bom.

Quantas palavras minha boca terá proferido, desde que nasci? E de quais cores? Rosas, lilases, alaranjadas, a paleta inteira da fala. Descobri tarde o batom vermelho, com vinte e poucos anos. Hoje não tenho mais um exemplar sequer. Eu mesma trato de me alertar: mulher tem que possuir – e usar – batom vermelho. Na sua ausência, apanho na cestinha um cor de vinho. Hoje quero me embriagar de lucidez. Passo-o devagar nos lábios, desafiando os apressados ponteiros do relógio verde sobre a pia.

Busco o pente de madeira. Tem que ser o de madeira. Alguém o pegou, então vai sem. Passo os dedos na nuca e afiro o novo limite dos cabelos. Curtos como nunca. Ajeito com o secador uma ponta aqui, outra ali. E pronto. A brevidade soa estranha para a maioria das mulheres, que naturalmente requerem certa demora. Penteado concluído, busco o que fazer na cabeça, como se faltasse algo. É impressão: não falta nada nela. Talvez falte dentro dela.

Para o vestido azul cor de céu, meu coração escolhe o salto alto. Meu cérebro prefere o baixo. No final, sou regida pela estranha proporção: cabelo comprido está para o salto alto, assim como o cabelo curto está para o salto baixo. Há exceções. Mulher é feita de exceção. Essa é a regra.

Um beijo em cada filho, outro em cada gato. Estou pronta. Saio de casa, sem sair do mundo. Aonde vamos, mesmo?

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6 responses to “Enquanto me arrumo para passear

  • Rafa

    Reparei bastante na última vez que nos vimos. Você estava tão linda! Adoro seu estilo, você sabe. Mas acho que não deixei isso muito claro. Logo, no nosso próximo café, ou chocolate-que-a-nacionalidade-eu-esqueci, vou ser mais honesto contigo!

    beijo, minha amiga!

  • Alini Raquel

    Adorei… Minha falecida vó, que infelizmente convivi muito pouco, tinha em sua cabeceira de cama, um pote em formato de maça com pó de arroz dentro e esponja super fofa…Depois de alguns anos meu avô ainda tinha o pote com pó de arroz na cabeceira da cama…Achei tão bonito… a presença femina ainda estava naquele quarto.
    Hoje quanto passo o batom vermelho , fico feliz quando eu ouço da minha família: Alini é igual a vó Maria…

  • Ana Claudia

    Veja o que o seu texto me provocou:

    Um dia vou comprar um batom vermelho então vou ser uma mulher. Já comprei, finalmente, um perfume francês, e lápis azul petróleo para combinar com os olhos, estou aprendendo. Minha mãe não me ensinou a me maquiar nem pelo exemplo, mas ela me ensinou os dois extremos de uma só mulher: eu sou calma, eu sou histérica. Conforme convém. E vou, feliz descompensada, nesse desequilíbrio estável que é tambem uma síntese da mulher que em mim se adiou. Hoje assumo minha histeria quando saio descabelada, ou decido que já é hora de ir à padaria de salto fino enfim. Aprendi com as fotos de Clarice Lispector que rímel preto nas pálpebras superiores é um nocaute! Enquanto minha mãe me ensinou, silenciosa, que os olhos mudam e por isso mudam as coisas. Tá certo, mãezinha, já faz um tempo que comprei o rímel. Não, não vamos chorar agora, não é á prova d’água…

    Um beijo, Silmara, e obrigada

  • Zoraide

    Silmara,

    Como vc descreve bem os seus (e meus) sentimentos…

    Adoro ler seus textos.

    Muito obrigada por me presentear com seu dom e sensibilidade.

    Um beijo
    Zoraide

  • Albuq

    Fantástico!
    Acho que nós mulheres temos um ritual, considero que a melhor parte da saída é justamente esse ritual de arrumação kkkk
    Também costumava olhar minha avó se arrumando… ohhh saudades.
    Lindo texto! bjs

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