Segredo

Ilustração: Xavier/Flickr.com

A cor do casaco não caiu bem em mim. “Cor não cai”, lembrou o autor do presente. “Cor levanta”, filosofou. Ri. Mesmo assim, fui à loja trocá-lo. A vendedora grudou em mim. E não se tratava da síndrome de adesivo que a categoria tem. Ela realmente estava preocupada. Tensa. Escolhida a nova cor do casaco, ela se apressou em tirá-lo das minhas mãos. Fez uma semipirueta com ele e correu para o balcão. O motivo da preocupação: ela não queria que eu visse o preço da peça. Afinal, era um presente. Extirpada a etiqueta, a moça sorriu, aliviada.

Parece que tudo que se relaciona ao dinheiro tem sempre que estar envolvido em mistério, segredo, num tipo de confidencialidade, às vezes, sem muito sentido. Justo o dinheiro, troço dos mais antigos, conhecidos, comuns, populares.

A vizinha veio com esta, dia desses: “Desculpe-me perguntar, mas quanto você paga para a sua empregada?”. Outra, em época de matrícula escolar: “Sem querer ser inconveniente, quanto é a mensalidade do colégio dos seus filhos?”. Respondi com a naturalidade de quem informa o próprio signo, sem compreender o pedido de desculpas, nem a suposta inconveniência.

Fato: ninguém gosta que os outros saibam quanto se paga, nem quanto se ganha. Holerites vêm lacrados e só o pessoal de Recursos Humanos é onisciente. Bobagem. Como se nosso modo de vida, tão fundamentado e traduzido por coisas visíveis, não desse conta de fornecer, a quem interessar possa, uma ideia bastante aproximada sobre os nossos proventos. Mas ninguém pode saber. É segredo. A partir do qual parece – embora não devesse – nascer todo o resto.

Nós e o dinheiro, essa relação tão delicada. Ninguém sabe ao certo, além do óbvio, a quê realmente ele se destina, como ele vem parar em nossas mãos e o que faz o danado nos escapar. Que é tudo coisa do nosso inconsciente, já sabemos (ou nem tanto). Depende do que a gente viu, ouviu, aprendeu e fez na vida, desde pequenininho. São os famosos “padrões mentais”, impressos na gente que nem tatuagem. Uma tatuagem cor de pele, porém. Não dá para ver, mas ela está lá. Dinheiro é uma entidade. Masculina, forte, poderosa. Representa, ao mesmo tempo, bem e mal. Problema e solução. Amor e ódio. Segurança e insegurança. Felicidade e infelicidade. Tranquilidade e martírio. Vida e morte. Não tem nada mais doido que isso.

O que teria de mais em saber quanto o casaco havia custado? O quanto isso realmente importaria? Fosse uma bagatela ou uma fortuna, o que a informação, de fato, diria a respeito de presente e presenteador? Presente é, em essência e tese, amor. Se é caro, não significa amor maior. E vice-versa. Já vi gente ficar roxa de vergonha ao entregar um mimo e, por descuido, a bendita etiqueta com preço ter ficado nele. Cresci ouvindo que isso era feio. Acostumei-me. Acatei. Não questionei. Passei para frente, perpetuando o paradigma.

Será bom, no entanto, a gente começar a revisar o que sempre funcionou no automático. A nova ordem de pensamento em curso no planeta vai nos levar a um lugar diferente. É para lá que eu quero ir. E de casaco novo.

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9 responses to “Segredo

  • cristina isobe

    Olá Silmara,

    Passadas semanais são sagradas, apesar da ausência das últimas, abobrinha é o terror de casa, e as bolachinhas meu terror!! Hahhah!!
    Adorei e me identifiquei!! Bjos e boa semana!!

  • Renata Rossi

    Oi Silmara!
    Sempre damos uma passada no seu blog. Os textos são envolventes!
    Nós, que estamos apaixonadas pela blogosfera, buscamos referências inspiradoras. O Fio da Meada, com certeza, é uma delas.

    Topa escrever um post para o nosso blog? Contando como a maternidade abriu novos olhos para o mundo? Seria um prazer ter você como nossa convidada.

    Bjs,

    Renata Rossi
    olhosparaomundo@gmail.com
    http://www.olhosparaomundo.com.br

  • paula mello

    Silmara “fashion”, preciso de sua opinião sobre sapatos (não bem sobre eles, mas sobre as “caixas”).

    Passa lá no Quintal e me dá uma forcinha? Seria muito bom ter a sua opinião de expert. Agora também em casacos!

    Mas sabe, acho que o que importa mesmo é o presente, não o que ele é mas o fato de que alguém se importou o suficiente para te dar alguma coisa. Eu vou sempre de pães de mel, biscoitos, trufas, essas coisinhas bem básicas, que é para não errar.

    Beijos e obrigada.

  • Flavia

    Ei Silmara,
    Meu nome é Flávia, te descobri a muito tempo(via HVA, qdo a Cris falou do seu texto “Flores”).Sempre leio seus textos, me emociono, rio, concordo as vezes, em outras discordo…Estou sempre te espiando…Mas nunca comento…
    Hoje resolvi falar…Tenho uma “teoria” a respeito da dificuldade das pessoas em lidar e falar sobre dinheiro hoje em dia…Pois eu acho que o mundo mudou muito a esse respeito.
    Qdo eu era criança(somos da mesma geração,nasci em 67), a gente sabia quem era rico e quem era pobre, não era assim? Algumas coisas eram sinais disso, o bairro , a casa, se tinha TV a cores, se tinha carro (mais de um era coisa de muito rico), viajar para o exterior (milionário)!!!
    Hoje, com o advento do dinheiro de plástico, do crédito facilidade, do pagar a perder de vista e o que é mais triste…o não pagar. Todo mundo mora em apartamento de 1 milhão, eu fico louca qdo vem me entregar aqueles papeis de lançamentos imobiliários, onde tem tanto rico pra compra? Todo mundo viaja pro exterior e faz “comprinhas”, todo mundo anda de roupa na moda, todo mundo usa óculos bacanudo, todo mundo anda de carrão chic…Mas vai olhar o livro caixa de todo mundo…A maioria tá no vermelho…Todo mundo aparenta mais do que tem, na maioria das vezes…Por isso é tão difícel falar de dinheiro, pq muitas vezes, as pessoas tem um tanto de coisa, e até dão presentes que vão mostrar o qto elas tem, mas na verdade elas não tem, elas enganam a si próprias em suavez parcelas…de ilusão.
    Bjos
    Flavia

  • Camila

    Lembrei da minha passagem favorita do D. Quixote. Acho digno citar: “(..)embora eu bem saiba que sem a ajuda do céu, do acaso e da fortuna, o mundo ficaria falto do passatempo e sem o gosto que bem quase duas horas poderá gozar quem com atenção a ler.”

    Nesse caso, poucos minutos.

    Céu, acaso e fortuna. Sábio, não?

    Beijo, Sil!
    Camila
    ilimitada-mente.blogspot.com

  • Isabella

    Seus textos “não têm preço” !!!!

  • Albuq

    Oi Sil,

    essa parte do presente fiquei pensando no valor que pagamos, no valor que ele nos têm e no valor que vai chegar na pessoa. Engraçado é que a gente nem se dá conta que valor é uma coisa tão interessante, muito maior que valor em “dinheiro”, mas valor que nos representa. Grana? muuuuuuuuito importante, mas não tudo!

  • Josi

    Oi Sil, eu vi o mocassim fúcsia da Laély, e achei charmoso, de cara lembrei de um cachecol que tenho um tom mais escuro que “cairia bem” com ele, mas a Laély tá meio longe pra me emprestar os macassim ou para eu emprestar o cachecol… Bem, mas voltando ao safado, digo, ao dinheiro, é realmente um caso estranho esse nosso com a grana, eu particularmente tenho uma relação muito difícil com ele, simplesmente não nos atraímos, ele vive fugindo de mim por mais que eu tente agarrá-lo… outro dia descobri que pela numerologia meu nome está ligado a atividades filantrópicas, ai meu Deus, será que é por isso??que a grana não vem??
    vou refazer os cálculos emudar de nome…

  • Laély

    Acho que a cor que lhe levantou foi um verde-dólar…rsrs
    Levanta, qualquer um! rsrs
    Falando em cores que “caem” bem, comprei um mocassim de camurça fúcsia. Não é um nome lindo de se falar? Só de usar, dá pra sentir a diferença no glamour. Só não vou dizer o preço… rsrs

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