O sapato bastardo

Ilustração: Don Stewart/Flickr.com

É um desses sites com fotografias de gente na rua. Nele, todas as outras gentes podem ver, de qualquer lugar e a qualquer hora, o que os clicados vestem no seu dia-a-dia. Muito se tenta, mas ninguém consegue explicar, com alguma convicção, de onde vem (nem para onde vai) o prazer de bisbilhotar o guarda-roupa alheio. Só para ver que jeito a pessoa usou o lenço, como combinou a calça xadrez com a blusa florida, ou que solução deu para uma peça que, aparentemente, não vai bem com nada. Somos uma legião de espiões urbanos, verdadeiros fashion voyeurs obcecados pelo visual dos outros.

Num dos retratos, uma moça sorridente. Ela dá a ficha e o repórter do site faz a legenda: o vestido é da marca tal; a bolsa, daquela outra. Na hora dos sapatos, a moça diz que não se lembra onde os comprou. Epa. Que mentira, que lorota boa.

Ora, ora. É impossível uma mulher – com as faculdades mentais razoavelmente em ordem, claro – se esquecer onde comprou seus sapatos. Nem mesmo se o fez há anos. Toda mulher se recorda de onde eles vieram. Com certo esforço, ela se lembra também do preço e como os pagou. Se era inverno ou verão. Se, na época, estava namorando, e quem. Se a compra foi depois do trabalho ou num sábado à tarde. Se foi consciente ou por impulso, só para tentar dar jeito no coração, então estraçalhado. Mulher é capaz de associar um sapato a um evento. A ponto de, nos dias de hoje, se lembrar que estava com um modelito vermelho no batizado do sobrinho. Aquele, que já sabe ler e escrever.

A moça da foto havia contado uma mentira deslavada. Não se lembra, uma ova. Acionei o zoom para conferir os enjeitados. Bonitos, classudos. Mas seus colegas de indumentária tinham certidão de nascimento, eles não. Eram sapatos bastardos, ilegítimos, sem direito a história. Como se tivessem brotado, espontaneamente, na sapateira. Talvez tenham sido adquiridos numa liquidação qualquer de uma loja cafona, daí ela não querer tocar no assunto. Pode ser que os pobrezinhos façam parte de alguma memória afetiva triste, responsável pela amnésia acidental. Vai ver, os sapatos não eram dela. Eram emprestados. Ou qualquer outro motivo mais extenso que não coubesse na legenda. Abreviou-se o dilema, portanto. E, como uma ré no tribunal, ela fez valer seu direito de permanecer em silêncio, esquivando-se da revelação, eventualmente incômoda, ao argumentar que nada sabia sobre o caso. Pois sim.

De frente para meu próprio armário, e sem esforço, tiro a prova. Que não é dos nove, mas de bem mais que isso. Par por par, conheço a origem de todos. Até dos que foram parar ali como um presente de alguém. Faço o teste com duas vizinhas e… bingo. Conclusão: recordar-se de onde vêm nossos sapatos é uma característica do DNA feminino.

Não há dúvidas. A moça da foto guarda, em meio aos seus saltos, um segredo e tanto.

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10 respostas para “O sapato bastardo

  • Lilian

    Olá meninas! Encontrei bolsas e sapatos femininos de couro lindíssimos no site http://www.haguen.com/ Eu já comprei um sapato pra mim. Dêem uma olhada e vejam se vocês vão gostar. Eu adorei! Beijos!!!

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  • Helena Miranda

    Adorei ver você falando sobre moda!!! Meu DNA está inteiro e ok; lembro-me até da origem de certa sapatilha preta de verniz com um enfeite em cima que tive aos 6 anos de idade e do dia em que foi comprada, assim como da bota branca (!!!!!!!) que ganhei no niver de 07 anos da vozinha porque ela sabia que eu queria muito uma daquelas…
    Beijo

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  • paula mello

    Ai, curta e grossa hoje: quero morrer sua amiga…
    beijos!

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  • Tati

    Silmara, fui lendo e pensando nos meus sapatos. Me lembro da compra de cada um. Das roupas? Nem tanto… Das bijous? Um pouco mais que das roupas, um pouco menos que dos sapatos.
    Fiquei pensando na tristeza dos pobres ali, sem pedigree, sentindo-se desprezados por aquela dona. Mas acho que eles já se acostumaram, dizem que ela tem o hábito de pisar nos coitados… E eles gostam! De repente, há uma relação sado-maso entre a fotografada e seus sapatos, vai saber?
    Beijos.

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  • Layla Barlavento

    Olá Sil!
    Sapatos estão realmente no nosso DNA. É herança familiar sim! Minha querida mãezinha quando viajava sempre levava uma mala só com eles. Um para cada roupa e ocasião e alguns de reserva caso mudasse de idéia. Quando nasci, a tradição continuou, porém em outros pés. Uns que ainda não sabiam pra que serviam mas que já andavam calçados com a mesma estampa dos vestidos do bebê. Cada um do meu armário conta uma parte da minha história. Talvez os bastardos da moça não trouxessem boas recordações e deslavadamente ela resolveu encaminhá-los ao limbo dos sapatos malvados, assim como gostaria de fazer com as lembranças…

    Beijos na alma!
    Layla Barlavento
    culpadowalter.blogspot.com

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  • Núbia

    Silmara,
    Tenho sapeado (não sapateado) no seu blog desde o dia em que, procurando por uma amiga na web, cheguei a você (por um comentário dela, pasme!). Aliás, a você não, ao seu blog e suas crônicas e afins.
    A primeira que eu li foi uma dessas que emociona!
    Não era sobre sapatos, nem suas histórias sobre de onde vieram, mas me emocionou.
    Não lembro o dia, nem o tema, nem mesmo o título, mas me tocou e me fez chorar!
    Agora, deu aquela vontade danada de lhe falar.
    Mas não sei o quê, nem porquê, nem para quê!
    Fica aqui o meu alô e o comentário que a sua falta de “post”, no dia do seu niver, me deixou com uma outra vontade de lhe dizer “parabéns”, mesmo com todos os atrasos de uma recém chegada e atrasada, além de desconhecida.
    Núbia
    P.S. Os sapatos sempre dizem algo sobre nós… Deve ser porque são eles que nos levam a lugares inesperados, a pessoas surpreendentes e acontecimentos idem.

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  • Josi

    Ingenuidade nossa pensar que não pensamos a respeito… tenho alguns pares que ganhei, de uma amiga, antiga sócia, de uma outra que sempre lembra de mim quando a patroa faz a limpesa nos armários, (acho que a patroa dela já sabe que cançamos o mesmo número e separa pra mim os sapatos e rasteirinha que não quer mais usar) graças a ela tenho duas! até uma bota de bico beem fininho dessas de matar barata no canto, que confesso não consegui usar, mas dei pra minha irmã… Meus pés não são exigentes, aceito de coração quando a Marina chega aqui e diz: Tenho um presente pra você! toda feliz. E assim tenho uns pares que não sei onde ou quando foram comprados, mas sei exatamente quando foram rejeitados, e vieram para aqui… Já fui mais maluca por sapatos, hoje ando bem mais contida e resignada.
    Um beijinho Sil!
    até mais

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  • Nara

    Ufa!

    Acabei de checar todos os meus sapatos e sei de onde vem cada um deles! Que bom saber que só me falta mesmo o cromossomo “b”! Meu DNA tá ok! rsrsrs \o/

    A mulher sem “b”olsa

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  • Albuq

    Silmaaaaaaaaaaaaaaaara amo sapatos! kkkkk
    Achei massa, ótimo o texto! Muito bom! bjs

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  • Raquel

    Que flagrante! Coitada da moça. rs. Também sei onde comprei todos os meus sapatos – com exceção de um par horroroso, mas vai ver esse é o motivo do lapso de memória.

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