Rapidinha

Ilustração: Christy Hydeck/Flickr.com

Você telefona e a pessoa do outro lado da linha, de imediato, informa:

– Estou numa reuniãozinha.

Duas mensagens claras: a pessoa não pode falar agora, e a reunião é com os subalternos ou com os pares. Fosse com o superior, não seria reuniãozinha. Aliás, nesse caso a pessoa nem atenderia. Ou nem uma coisa, nem outra, é mentira. A pessoa está jogando paciência no computador e não quer prosear.

Você confere as vitrines. Entra, por acaso, numa das lojas. Passa a mão num casaco, só para sentir a textura, e a vendedora aparece para oferecer ajuda. Sua resposta:

– Só estou dando uma olhadinha.

A olhadinha rende. Você acaba experimentando o casaco, mas não está tão determinada assim a efetivar a compra. Agradece a vendedora, ajeita a bolsa no ombro e avisa, já em direção à saída:

– Preciso dar uma pensadinha.

A amiga, de última hora, convida você para o aniversário dela. Não será nada especial, ela não ia comemorar, mas o namorado insistiu, então vão todos a uma pizzaria. Você finge entusiasmo:

– Vou dar uma passadinha.

O marido interrompe seu banho, e lhe mostra a página vinte e cinco da revista:

– Depois, dá uma lidinha.

É coisa importante, melhor prestar atenção. Pode ser um artigo sobre tensão pré-menstrual, uma matéria ensinando a lidar com a birra dos pequenos ou uma promoção de TV LCD, aquela que vocês ensaiam comprar desde a última restituição do imposto de renda.

Não se trata do mamanhês, o tatibitate oficial de pais e mães (tias, eventualmente) na comunicação com seus rebentos, usando e abusando do diminutivo. Tampouco é uma característica exclusiva das pessoas que adotam o “inho” e a “inha” com freqüência em seus diálogos. Não, não. Gente de todo tipo, tamanho, idade e sexo esbarra no vício da palavra diminuta, vez por outra. É preciso registrar, no entanto, que o vício não apresenta justificativa. É sem necessidade, mesmo. Poderia ser reunião. Olhada. Pensada. Lida.

O que estará por trás do insondável diminutivo casual? Se para cada uma das suas aplicações pode ser atribuído um significado diferente, a teorização a respeito dele se mostra impossível. Tentemos. Um: ele está, notadamente, associado a um verbo. Dois: geralmente, é precedido do verbo dar. Três: tem relação com tempo. A pessoa não tinha tempo para atender aquela ligação. Você precisava de tempo para decidir se comprava o casaco ou não. Se desse tempo (ou vontade), você iria à pizzaria. Sobrando tempo, seria importante você ver a página vinte e cinco. Quatro: ainda sobre tempo, sugerindo que a ação é ou será breve. Era uma reunião rápida. Uma olhada rápida nos casacos. Uma passada rápida na pizzaria. Não levaria muito tempo para ler a página vinte e cinco.

Paro por aqui. Para justificar o título da crônica. E também porque já passa da meia-noite. Bateu soninho.

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5 responses to “Rapidinha

  • Laély

    Sabe por que, às vezes demoro passar por aqui? Porque não dá pra dar uma passadinha, dar uma lidinha…Sei que, se aqui vier, preciso vir com calma, saborear seus textos como quem saboreia uma lauta refeição.
    Lembrei do meu pequeno, que não é mais tão pequenininho assim. Na igreja, outro dia, ele se recusou a cantar umas “musiquinhas”, com as outras crianças:
    “Não tem nem uma música, sem ser no diminutivo, não?”perguntou.
    Tive de rir, mas dei a razão a ele.
    Agora, as musiquinhas foram deixadas de lado.

  • Karam

    quando eu estava na inglaterra e só falava inglês, senti uma falta danada de diminutivos….

    • Karam

      …engraçado é explicá-los. eles podem ser negativos ou positivos, depende do contexto.
      por exemplo: – passei agora um cafezinho… hummm… está fresquinho.
      – só tem aquele cafezinho ali.

      hehehe

  • Albuq

    Oi Sil, estava lendo tua crônica e vendo que faço isso exatamente assim, que encurto o tempo as vezes para o necessário e dou tempo demais para o que não me acrescenta… E lendo a gente vai percebendo que as vezes não deveria dá só uma passadinha no niver do amigo, não dá só uma olhadinha numa vitrine, uma lidinha num texto… e assim vai, porque a gente encurta o que poderia ser muuuuuuuuuuuuuuito bom na nossa vida.
    bjs e lindo texto! amei! como sempre né?! tô ficando fã de carteirinha mesmo!

  • Josi

    Olha eu que novamente, corridinho, dou uma lidinha, no texto (o texto todo), e não posso deixar de fazer meu comentariozinho diário…
    Parei pra pensar… mas não uma pensadinha…. provavelmente vou pensar o dia todo, o assunto é sério e requer reflexão. Qual a importância que damos ao nosso tempo. O que custa o tempo que disperdiçamos com tarefas desimportantes em vista de outras essenciais. Estou num dilema. Pouco tempo pra fazer um monte de coisa… ou seria um monte de coisas chata que tomam o tempo em que eu poderia estar brincando com meus filhos? E aí o tempo se transforma em grana, essa malévola criatura de mil cabeças… Não vou mais perder o tempinho. Vou usar todo o tempo que tenho e mais um pouco pra pensar ou repensar e enquanto isso faço de tudo um pouco, brinco, lavo, passo, pinto, bordo, escrevo…

    Beijinho
    Sil

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