O que você quer ser depois que tiver crescido?

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Na rádio, a consultora em recursos humanos lia no ar e-mails dos ouvintes. Invariavelmente, eles pediam orientações para turbinar o currículo ou aprender a fazer o tal do network. Naquele dia, ela leu a mensagem de um médico bem-sucedido: dono de clínica, professor universitário e, de uns tempos para cá, palestrante. A vida estava ganha. Faltava algo, porém. Ele ainda queria crescer, pessoal e profissionalmente. E não sabia qual passo deveria dar. O programa corria sem novidades, não fosse o fato de o caro ouvinte em questão ter… setenta anos. Idade em que noventa e nove vírgula nove por cento das pessoas já penduraram as chuteiras. Não lembro qual foi a dica da consultora no caso, que também deixou escapar sua surpresa. Mas crucifiquei-me por, às vezes, ter tanta preguiça diante da vida.

A lendária pergunta “o que você vai ser quando crescer?” – e todas as suas variações – é uma senhora maldade. Querer arrancar isso de um jovem é dizer na entrelinha que, por ora, ele não é nada. Que ele está à toa na vida, vendo a banda passar. Questionar isso a uma criança, por mais inocente que seja a intenção, é dar um nó em seus tenros neurônios. Ela cresce acreditando que ainda falta muito tempo para se preocupar em ser alguém. E, por ora, segue sendo nada. Pior: passa a crer, piamente, que só será alguém de verdade, socialmente importante, quando escolher uma profissão. E profissão, para um bocado de gente, serve só para ganhar dinheiro. O difícil nessa história é saber qual é o ovo, qual é a galinha. A escolha da profissão, mesmo que da boca para fora, para todo mundo achar bonito – “Quero ser astronauta” – ainda é um rito de passagem, com poder de condenação assim que o aspirante a gente passar no vestibular: Serás advogado para sempre. Mas os ventos parecem estar mudando.

Até pouco tempo, assinalar com xis o curso desejado no formulário do vestibular significava decidir, ainda no início da vida, o que se faria pelo resto dela. E ai de quem marcasse ao mesmo tempo Direito e Educação Física, cadeiras nada afins. O candidato não tinha culpa se gostava, de verdade, das duas coisas. Passava por indeciso ou maluco. Hoje, sabe-se da importância dos múltiplos interesses ao longo da carreira. Não por acaso, o candidato se depara com um sem-número de opções de cursos que seus avós nem sonhariam. Sempre houve, claro, quem guinasse a carreira cento e oitenta graus aos trinta, quarenta anos. Ou quem se recusasse a aguardar o fim da vida na poltrona, com uma manta xadrez sobre as pernas. O que chama atenção, agora, é que esses comportamentos, longe de serem regra, tampouco são exceções, inaugurando um interessante meio-termo entre uma coisa e outra.

Aquele médico da rádio já era bem crescido, talvez tivesse netos e bisnetos. Mas continuava caçando coisas para ser, ainda que na mesma profissão escolhida há mais de cinquenta anos. Gente que faz isso não é doida varrida. É gente reinventada, para usar um termo já cunhado pela modernidade.

Vou lá me consultar com ele. E pegar uma receita de ânimo, atitude e fé.

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11 responses to “O que você quer ser depois que tiver crescido?

  • Laély

    Não lembro quando decidi ser médica. Mas lembro quando respondi, ainda “pirralha”, que seria uma escritora. Dessa promessa esqueci-me um bom tempo, pra só lembrar depois de grande, de mãe, de médica. Acabei virando uma “escritora torta”, fruto dos tempos modernos.
    Essa renovação de projetos é a lenha que mantém a chama da vida acesa.
    Agora, eu quero ser uma corredora. Tô correndo pra isso.

  • Lusinha

    Muito bom o texto!
    Bjitos!

  • Daniele

    Sil… rs, engraçado, sabe que penso o mesmo, às vezes já quero até me aposentar e nem cheguei aos 30…

    meu sogro sempre me dizia que ainda faltava “muita grama pra gente comer nessa vida”…

    tem uma poesia do drummond, que eu postei no meu blog já tem um tempo…http://naoseiresponder.blogspot.com/2010/04/ser.html

    que resume muito do SER…

    Que vai ser quando crescer?
    Vivem perguntando em redor. Que é ser?
    É ter um corpo, um jeito, um nome?
    Tenho os três. E sou?
    Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
    Ou a gente só principia a ser quando cresce?
    É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
    Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
    Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
    Que vou ser quando crescer?
    Sou obrigado a? Posso escolher?
    Não dá para entender. Não vou ser.
    Vou crescer assim mesmo.
    Sem ser Esquecer.

  • Beth

    Ooooooooooops, eu quis dizer estágio de 9 meses. Freud explica, rsrsrs.

  • Beth

    Eu também sou gente reinventada! Depois de trabalhar mais de 15 anos como tradutora freelance, fui obrigada a mudar de ramo e comecei um novo trajeto aqui na Holanda, onde moro. Tive muitas dúvidas e muito medo mas acho qeu estou no caminho certo. Estou fazendo um estágio de 9 anos e adorando aprender algo novo. Se antes trabalhava em casa com minhas traduções, hoje ajudo em salas de aula cheia de alunos.

    Na vida é preciso mudar, evoluir, se reinventar. Porque ficar paralisado pelo medo e viver uma vida pela metade não é uma opção.

    de uma leitora do outro lado do Atlântico..

  • Karam

    Juro que pensei nisso hoje. Pensei se quero ser isso que sou para ‘sempre’, trabalhar nisso que trabalho para ‘sempre’.

    Acredito que a pergunta “o que vc quer ser quando crescer?” tem um tom de fatalidade, como se, ao crescer, a vida perdesse uma de suas principais constantes, a mudança.

    Penso sempre numa frase que gosto do Joseph Campbell – Follow your bliss, siga sua bem aventurança o que te deixar empolgado o que te traz alegria…
    minha “bliss” tb muda com o passar do tempo. E sei que decidir a rota, cabe a mim. Ainda assim me sinto aquele cachorro que corre atrás do rabo.

  • paula mello

    Eu só tenho uma coisa a dizer: quem me dera! Será que aos setenta vou estar por aqui ainda e mais, com essa inquietação perante a vida? Por que vamos e venhamos, tem dias que tudo o que a gente quer na vida é ver a banda passar…Não é preguiçam não, Sil. É a parte integrante da melhor, mais difícil, masi dura e ainda assim, mais recompensadora profissão do mundo: ser mãe.
    Mas isso é assunto para outra prosa.
    Uma semana iluminada!

  • Josi

    Oi Sil… Pois é… eu marquei no formulário do vestibular, Desenho Industrial com habilitação em programação Visual (design Gráfico, hoje) e na segunda opção, (pasmem) Oficial da Polícia Militar! É claro que tive que encarar ter apenas uma opção, pois a Academia do Guatupê, não aceitava ser segunda opção na vida de ninguém, e lá fui eu sem uma segunda porta pra entrar na UFPR, antes tivesse colocado um Xis no curso de Educação Física… ou História, ou Letras, ou quem sabe… Educação Artística. Sou meio camaleônica, gosto de estar em muito meios, gosto dos sabores das diferentes profissões… Então pensando bem… fiz a minha escolha certeira, porque ser Designer nos dá um gostinho de cada coisa. A cada trabalho temos que entender um pouquinho do funcionamento do trabalho do cliente… acaba por não ser monótono! Uma vez eu estava desenvolvendo embalagens para dois clientes distintos, para um, pacotes de fraldas e para outro sacos de cimento, areia, brita, essas coisas. Duas linguagens diferentes, é um exercício tamanho!

    Um beijinho
    e bom fim de semana!

  • Albuq

    Silmaaaaaaaaaaaara desculpa, escrevi o nome errado!

  • Albuq

    Oi Silvana,

    Seus textos são verdadeiras reflexões de vida!
    EStava lendo e pensando na minha vida profissional, passei no vestibular aos 17 anos, comecei a facul de história, tranquei depois de 3 anos, fui morar em outra cidade, fiz o curso Técnico de Enfermagem, achei que tinha me achado, trabalhei 6 anos na área e descobri que a vida de enfermeira era dura demais prá mim, me alegrava com o surgimento da vida, mas, morria junto com quem partia… abandonei essa vida, fiz vestibular de novo prá o curso de História novamente, passei e comecei do “0″ aos 27 anos, e agora já estou no 6 período… e todos os dias ainda me pego pensando “será que tô no caminho certo?”. Acredito que isso é inerente do ser humano kkkkkk

    bjs

  • Ana F.

    Ai, gente…
    olha aí, e eu que me crucifico tanto por não ter conseguido fazer uma coisa só. Tantas pessoas parecem normais e eu é que saio de maluca.
    Sempre tive muitos interesses – tem tanta coisa interessante nessa vida! Trabalhei em jornal, ONG, assessoria e já quero mudar de área de novo. A história desse médico me confortou um tiquinho…

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