Profecias

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Surgirás – miúda, ainda – no ventre da tua mãe quando ela estiver ouvindo a parte mais bonita de Wild is the wind. Ela nem desconfiará. Muito menos teu pai.

Crescerás mais rápido dentro dela do que em toda a tua vida. O passo do tempo, ali, é outro. Quando estiveres do lado de fora, perceberás a diferença. Ao vires a luz do dia e da noite pela primeira vez, compreenderás tudo. E não sentirás mais medo algum.

De pequena, terás longas conversas com cachorros, gatos e passarinhos. Pois tudo que tem boca pode conversar.

Tua casa parecerá maior do que é realmente, embora teu mundo seja menor do que, de fato, é. São os contrapontos da vida, se apresentando a ti. Acostuma-te.

Chegará a hora em que calçarás um salto alto, e gostarás. Providenciarás outros. Libertarás tuas pernas do cativeiro de pano que são as calças. E, não agora, mas na hora certa, cortarás teus longos cabelos sem hesitação.

Não esquecerás o primeiro amor. Nem o segundo. Mas será com o terceiro que viverás, mais precisamente, por dezoito mil, novecentos e vinte e um dias. Terás com ele um filho. Em seguida, uma filha. Depois, outro filho. E a sequência lógica da tua biologia, então, se concluirá. Na véspera do 18.922º dia, teu amor partirá. Nem tentes saber em que dia isso cairá. Tu não sabes qual calendário Deus usa.

Perceberás, cedo ainda, quanto do teu precioso tempo dedicas às coisas sem importância. Considera este o teu maior presente.

Farás cinema, ainda que não acredites no teu talento.

Não te alimentarás com nada que tenha rosto.

Não visitarás nenhum país, além do teu. Uma pena. Não és árvore, para nascer, viver e morrer no mesmo lugar. Também não aprenderás a tocar nenhum instrumento. Vais sentir falta disso, quando quiseres traduzir tua tristeza.

Errarás o caminho seis vezes. Em três delas, encontrarás o caminho de volta. Em duas, não. Em uma, não fará diferença.

Quando reconheceres a primavera pelo perfume, o verão pelo toque, o outono pela cor das árvores, e o inverno pelo sabor do chocolate, tudo em ti estará pronto. Serás capaz, finalmente, de ouvir a ti mesma.

Um dia, acordarás noutro lugar, diferente daquele em que dormistes na noite anterior. Sentirás falta do livro que deixastes na cabeceira da tua cama, e também da própria cama. Ao olhares ao redor, ficarás assombrada com o nada que haverá. Mas bastará que tu feches os olhos, e tudo o que coube em tua mente ao longo da vida se manifestará. Estarás, enfim, em casa.

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16 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. Lúcia Soares
    mai 15, 2012 @ 10:58:43

    Silmara, coloca isso em livro, minha menina! Tem coisa demais para se ler, textos lindos, que calam fundo na alma. Vai lá na Digitexto, conversa com a Maria do Carmo Savioli (Macá). Anda logo! (ou em outra editora, basta reunir seus textos, não há como alguma editora não se apaixonar!).

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  2. Brisa
    abr 22, 2010 @ 09:21:36

    Me desculpe. Este comentário era para contar no texto: Comunicação e trumbicação.

    Resposta

  3. Brisa
    abr 22, 2010 @ 09:16:55

    E a poluição visual? Poética?

    Resposta

  4. Cris
    abr 20, 2010 @ 18:14:00

    “De pequena, terás longas conversas com cachorros, gatos e passarinhos. Pois tudo que tem boca pode conversar.”

    E tudo que tem mãos também conversa, ó pequena…eis as lindas e bailantes línguas de sinais pra te mostrarem!

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  5. iara
    abr 20, 2010 @ 07:55:06

    não é vulgar as palavras conseguirem arrepiar.
    que txt lindo.

    beijinhos grandes

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  6. Ana
    abr 19, 2010 @ 21:42:10

    Nossa, pertubador! Parabéns!

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  7. Nara
    abr 19, 2010 @ 20:49:36

    Texto profundo e intrigante…

    Me chamou atenção a mudança de gênero no final…

    Bjs

    Resposta

  8. Jorge Xerxes
    abr 19, 2010 @ 19:23:01

    Olá Silmara,

    Estive aqui, atrás do fio da meada.

    Gostei muito do seu blog!

    Um Beijo, Jorge X

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  9. Su
    abr 19, 2010 @ 19:13:44

    Divinamente real e realmente divino o que escreveste. Li essa com meu corpo em uma posição que creio não será possível daqui a alguns anos. E prestei atenção no meu corpo. E senti o prazer de me posicionar assim. É incrível olhar pro que não costumamos olhar.
    Abraço.

    Resposta

  10. Tati
    abr 19, 2010 @ 15:11:19

    Maravilhoso e mostra a grandeza de sermos tão pequenos. Bom para ler e reler.
    Beijos.

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  11. Cris Prado
    abr 19, 2010 @ 11:12:27

    Que lindo e emocionante Sil!!!!!!
    Veio bem em um dia de felicidade pra mim (muito significativas suas palavras), pois um grande amigo meu está no hospital agora, esperando seu primeiro presente de Deus chegar.
    bjsssssssssss e boa semana QUERIDA!!!!!

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  12. Marcela Gomes
    abr 19, 2010 @ 10:38:29

    Lindo!

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  13. Myrian
    abr 19, 2010 @ 08:31:48

    Lindo e suave, assim como a vida deve ser, embora não seja na maioria das vezes!! Parabéns! Você escreve divinamente bem! Boa semana!!!

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  14. Cecília
    abr 19, 2010 @ 08:13:27

    Silmara,
    você tem o dom da pena (da caneta, da máquina, do word…)
    continue dividindo com o mundo, pq certamente vc planta boas sementes nas pessoas.
    além de completa, vc foi concisa e certeira. disse o que precisava e foi ótimo.
    boa semana pra vc e para todos nós!

    Resposta

  15. Josi
    abr 19, 2010 @ 08:10:50

    Lindo… simples assim.
    Parece até simples demais falar assim, pois imagino que não seja simples criar algo tão lindo pra que digam somente isso… mas é lindo como deve ser a alma de quem cria.
    Beijinho
    tenha um semana abençoada…

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  16. Eduardo Coelho
    abr 19, 2010 @ 06:45:18

    Texto sensacional. Parabéns.

    Resposta

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