Sobre a esperança, os óculos e outras formas de ver as coisas

Foto: Charles Dodds/Flickr.com

Perdera, misteriosamente, os óculos. Eram novos, de um azul cobalto intenso, leves como borboleta. Com eles, passara a enxergar tudo. Desde as letras pequeninas até os minúsculos veios do papel reciclado que usava no escritório, que nunca havia notado. Certa noite, recolhida em sua cama e sem sono, deu por sua falta – queria ler um livro. Levantou-se, foi até a sala, vasculhou a bolsa. De pijama, foi até o carro, conferiu os porta-trecos. Apanhou o telefone e acordou a mãe, Não deixei aí, não? Repetiu mentalmente o percurso que fizera de manhã até àquela hora, procurando se lembrar do que os óculos haviam participado. A má notícia: não os usara naquele dia. Suspirou. O jeito foi pegar os do marido emprestado, que tinham um grau próximo. Avançou duas páginas do livro e uma leve tontura a obrigou a desistir dele. Apagou a luz. As ideias, no entanto, continuaram acesas.

Olhos abertos para a escuridão do quarto, brincou de ser cega. Era capaz de localizar a chapeleira. O armário. A almofada do gato. Mas isso era fácil; ela era uma ‘recém-cega’, e com alguma memória espacial. Virou-se para onde dormia o marido, e tentou construir sua imagem a partir dos sentidos que lhe restaram. O som da sua respiração, tranquila e compassada, indicava uma serenidade que normalmente ela não via. Estranhou o perfume fresco dos seus cabelos, não combinava com a velhice que ela notava despontar neles, dia após dia. Perdeu-se, por um instante: em qual dos sentidos deveria confiar, então?

Após o inexplicável desaparecimento dos óculos novos, conformou-se em continuar com os velhos, já não tão bons assim, e passou a viver de uma esperança: a de que os reencontraria, assim, de uma hora para outra. Ao desfazer as malas de uma viagem: será que não haviam ficado lá no fundo? Sempre que abria uma gaveta, na verdade, aguardava uma surpresa: a empregada poderia tê-los guardado ali por engano. Uma caixa antiga sobre o armário virava representante de uma nova possibilidade. Assim como um bolso de um casaco antigo. Passou anos na crença de que, cedo ou tarde, eles surgiriam na sua frente. Intactos, como na última vez que os vira. Sua esperança, assim como a fé, não via falhas. Desconhecia o pessimismo. Ignorava o azar. Desconsiderava até o deboche fantasiado de realidade: Perdeu na rua, ué!, sentenciou o marido numa ocasião, farto da esperança silenciosamente estrondosa da mulher.

Solitariamente, passou a fazer a brincadeira da cegueira nas ruas, no trabalho, no shopping, na igreja. Para isso, recorria, como naquela noite, aos demais sentidos. Principalmente à imaginação, que é a soma de todos eles. Espantava-se com os diferentes jeitos de ver uma mesma coisa. E viu que poderia escolher o que mais lhe agradava, já que, no fim, tudo dava praticamente no mesmo. Um dia, avistou na vitrine de uma loja um par de óculos de intenso azul cobalto. Pediu ao vendedor para experimentá-los. Levíssimos. Como é que os danados vieram parar aqui?, brincou, feliz da vida, enquanto digitava a senha do cartão de crédito.

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8 responses to “Sobre a esperança, os óculos e outras formas de ver as coisas

  • Rafa

    Não sou ninguém sem meus óculos. Acho que é hora de rever as cosias, assim, desse jeito mais bonito.

  • Tati

    Como sempre, adoro a sensibilidade dos seus textos. “A imaginação é a soma dos demais sentidos”, sim, sim, sim!! Bom demais. Vou dormir revigorada, aproveitando o cansaço dos olhos (que não usam óculos) para brincar de cega e sentir o perfume do marido. Inspirador!!!
    Beijos.

  • Camila

    Domingo vai ter bolo e festa, Sil?

    Beijos!

  • Camila

    Lindo. Leve. Azul. Sinestésico.

  • cris prado

    LINDA!!!!!
    bjs

  • Josi

    Oi Sil!
    Seu texto, me fez pensar que mesmo com boa visão, não podemos confiar “cegamente” nela. Vemos, aquilo que queremos ver, muitas vezes… e inconscientemente, julgamos pela aparência, e nos enganamos muitas vezes… Seria mais fácil, olharmos com mais leveza para tudo que nos cerca e para dentro de nós. Um olhar leve e azul como asas de borboleta, que nos dêem um outro ponto de vista, um brilho novo nos olhos, uma nova luz, e novos ares…
    Um beijinho Silmara e uma ótima semana!
    Josi

  • Ana Paula Monteiro

    Sil querida,
    muito lindo. Adoro estas suas crônicas.
    Bjs
    Ana

  • Tania Meneghelli

    Oi Sil!

    Adorei o texto! Não apenas porque é ótimo mesmo, mas talvez porque tenha me identificado muito com ele. Sou uma verdadeira ceguinha também… E me coloquei no lugar dessa mulher, de repente sem os óculos. Caramba, sem meus óculos não sou ninguém!

    Outra coisa que achei bem legal e até me lembrou um pouco o filme “Ensaio sobre a Cegueira” foi o lance de aguçar outros sentidos na ausência da visão. Dá uma ótima reflexão isso, né?

    Beijoca!

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