Ilustração: Tim Morgan/Flickr.com
Querida R.
Não estranhe receber somente agora esta carta, não é culpa dos Correios. Tenho essa mania de adiar as coisas. Fiquei sabendo que isso se chama procrastinação. E fiquei sabendo também que é coisa do meu signo, Touro.
Ainda estou triste por não ter me despedido direito de você. Como fazem as grandes amigas, quando uma delas está prestes a fazer uma grande viagem. Por não ter telefonado para você dia sim, dia não, naquela primavera de 2003. Acabei perdendo seu, digamos, embarque. Sem direito ao último abraço, ou mesmo um aceno. É que seus pais ficaram com receio de me contar. Eu estava grávida, um barrigão deste tamanho. Nunca se sabe.
Sempre achei curioso o nome do que tirou você da gente: diabetes. Lembra ‘diabrete’, que é um diabo pequenininho. Pensando bem, nem é uma lembrança tão errada assim. Tal um diabinho, ele pintou e bordou em você, que encarou tudo. Até transplante. Bonito, isso: primeiro, sua mãe lhe teve no corpo dela. Depois, com um pedaço dela em você, foi a sua vez de tê-la em si. O amor tem dessas: nos põe um dentro do outro.
Recebi a notícia dias depois. Foi como chegar atrasada ao aeroporto. Sua mãe contou para minha irmã. Que falou para o meu marido. Que me contou. Lembrei de nós duas no pátio da escola, trinta anos atrás, ladeadas pelos amigos, brincando de telefone sem fio. A graça era quando o último entendia um absurdo qualquer, diferente do que o primeiro havia falado. Naquele dia, eu fui a menina da ponta. E entendi certo. Não valeu.
Quis que não fosse verdade. Quis não ser de Touro. Quis que você tivesse adiado sua viagem, também numa espécie de procrastinação. Mais três meses e você conheceria meu filho. Um pouquinho mais e me veria, pela primeira vez na vida, de cabelos curtos. Três anos depois, você pegaria minha filha no colo. Iria gostar de brincar no Facebook. De tomar café no Starbucks. De vir me visitar usando GPS. De ver o Obama na Casa Branca. E de ouvir a Céu. Porque o nome dela deve lhe inspirar mais do que a nós.
Sempre que eu penso em você, tenho a sensação de que você está perdendo um monte de coisas legais acontecendo por aqui. Talvez, daí, você tenha a mesma sensação – mas a respeito do que eu esteja perdendo.
Escreve, um dia, contando?
Saudades,





jul 10, 2012 @ 11:11:17
Querida linda amiga…
Gosto tanto qdo vc abraça a poesia assim.
Conforme eu ia lendo, meu coração ia ficando cheio de lágrimas.
Sabe, sou convicta que ela te leu, lê, continuará lendo. Alguns cordões ligam almas e não se rompem assim.
Bonito. Bonito!!!!
Merece milhões se acessos!!!!
Ps.: tem olhado pro céu? Ando vendo algumas linhas e palavras penduradas nele… Eu não entendia… e só agora sei que são pra vc. Leia lá!!!!
Bjs,
Simone Huck
nov 14, 2010 @ 12:30:53
Que lindas mensagens…PARABÉNS!!!
jul 29, 2010 @ 22:24:41
Poxa vida! Eu não estava tão preparada para ler esta carta… Há uma semana perdi uma amiga… Ela, por morar sozinha, foi encontrada morta após quatro dias da sua passagem… Vivi na pele e alma o que você tão bem externou nesta epístola!
Para resumir: chorei.
Não tenho mais o que escrever…
abr 08, 2010 @ 09:44:59
Linda!
abr 07, 2010 @ 23:35:59
Ah, como é bom passar por aqui e ler tanta coisa bonita e emocionante!
Belo presente aos seus leitores.
Bjs
Keli
abr 04, 2010 @ 23:07:57
É repetição dizer que fiquei emocionada, mas fiquei, e muito! Adoro a maneira como escreve, não importa o tema. A falta da despedida de uma amiga, a saudade, a tristeza pelo não vivido, a sensação de ser roubada nas lembranças que ainda seriam criadas… Não tem como não se reportar ao seu texto, não pensar naqueles que nos deixaram, que seguiram outro destino. Obrigada por suas palavras, é o mais que posso dizer!
abr 04, 2010 @ 18:13:37
Silmara,
Coisa incrível que essa vida é, não? Navegando por aí, em busca de umas ilustrações legais, encontrei seu blog.
Me arrepiou quando li esta sua postagem. Estou, nesse exato momento, tentando me refazer por causa da morte de um amigo querido. Entendo perfeitamente sua angústia diante da ausência, da falta de uma despedida legal…
Há, ainda, uma outra coincidência incrível. Meu filho, hoje com 25 anos, é diabético desde os 3. Você me emocionou tremendamente com seu texto.
Lindo o seu espaço! Já o incluí entre meus favoritos.
Beijoca!
abr 03, 2010 @ 01:30:49
Sil…
Vou ter que escrever a minha carta também….
abr 01, 2010 @ 10:23:31
Querida Silmara,
vi esse título por dias no meu blog e esperei o momento de ler…
Que coisa mais linda. Carta que chega com certeza!
Um beijo em seu coração,
Claudia
mar 31, 2010 @ 22:14:38
Não conheci sua amiga, mas também fiquei com saudade. Lembrei do filme: “Nunca te Vi, Sempre te Amei”.
À você, que nunca tinha visto, mas que já amava virtualmente, passei a admirar/amar mais ainda, depois de conhecê-la pessoalmente: linda!
( Falei que tem bom gosto: também gosto da Céu e tenho o cd com a música citada)
abraço!
mar 30, 2010 @ 21:28:56
Como outros que comentaram antes de mim, também me emocionei.
mar 29, 2010 @ 16:58:38
Olá Silmara, parei por aqui pela querida Lá…ando meio emotiva e ler teu texto me deu um nó na garganta. Despedidas são sempre difíceis, mesmo que você consiga dizer adeus, que tenha tempo para dizer adeus, é sempre adeus …
Lindo texto e reflexão…posso voltar mais vezes? Bjinho!!
mar 29, 2010 @ 16:43:40
Alo,Silmara!
E a primeira vez que comento aqui…Eu nao tenho um blog ainda nao…Outro dia desses descobri o seu cantinho atraves da Laely…E comecei a ler e ler…E descobri tanta delicadeza e tanto conforto no seu olhar…Falo assim,porque e atraves das palavras que descobrimos como cada um olha para o mundo…E no caminho das suas letras encontrei aconchego e fui ficando…
Essa carta de hoje,representa um pedaco da estoria de cada um de nos…As pessoas queridas que partem sem a gente poder se despedir direito…Lembrei muito do meu pai…Ele tambem fez a viagem em 2003…Eu fui me despedindo dele devagarinho…A doenca foi consumindo o corpo de forma lenta,mas (estranhamente ) foi fortalecendo o seu espirito…E fomos nos despedindo um pouco a cada dia…Nao pude lhe dar um ultimo adeus…Eu tambem estava gravida…E um dia, ele se foi…Como se uma brisa o levasse para um lugar muito distante…
As vezes tambem penso,mais um pouco e ele teria conhecido o netinho mais novo…Vejo alguns filmes,escuto certas musicas e vem o pensamento de que ele teria gostado muito…Mas nao houve tempo e tudo segue o seu ritmo…Como as mares que sobem e descem,a vida se recicla e se reinventa!
Ate hoje fico pensando…Como tem coisas que eu ainda gostaria de falar pra ele…Doi o vazio da sua falta!
Mas como dizem todos, a vida continua…Olho para os meus filhos e sinto a presenca do meu pai neles…E tento decifrar as mensagens que ele deixou no meu coracao…
Que pena que ele nao pode me mandar o seu alo…Faltava inventar uma internet no ceu…
Desculpe pelo desabafo sentimental…Mas e que as palavras tocaram a minha emocao!
Meu abraco emocionado pra ti!
Teresa
mar 29, 2010 @ 16:35:51
Nossa, Sil… dessa vez vc me fez chorar… até tentei segurar o nó q deu na garganta, mas não consegui… Tb não sei bem pq, pq tenho amigos q já se foram, um em especial, o Diva, q foi embora na mesa de cirurgia fazendo seu tão sonhado transplante de fígado… Mas tb tenho amigos q amo q nem sempre estão perto… e amigos q nem sempre nos entendem ou não os entendo e a gente fica meio ‘de mal’… q coisa boba! VC TEM o dom das palavras! Amo seus textos, contos, crônicas e o q vier de vc! Amo seu blog! OBRIGADA! Bjs da Li
mar 29, 2010 @ 12:50:13
Sil, querida, que coisa mais linda…Me deu uma saudade enorme de todos os meus amigos que já se foram, mesmo sem mudar de dimensão, e do meu pai, que está me olhando de algum lugar. Você e sua visão de raio-x das nossas almas….Beijos e abraços carinhosos.
mar 29, 2010 @ 12:32:35
Olá querida!!!
QUE COISA MAIS LINDA!!!
bjs e boa semana
mar 29, 2010 @ 10:03:16
A poesia está sempre infiltrada nas tuas palavras.
A poesia está no teu coração.
Beijo estalado, upa apertado.
mar 29, 2010 @ 07:41:05
Lindo…
Pensei em tudo que minha amiguinha de infância perdeu também… ela foi cedo demais aos quinze, ela foi cedo demais e deixou um vazio… mas me deixou um carinho imenso num abraço de sua mãe. Quem estava longe era eu, e quando voltei ela não estava mais lá. São anjos, Silmara… sem asas ou não, mas são….
Um beijinho, querida
Com essa saudade de mil braços que nos agarrou pela lembrança…