Foto: Guenno/Flickr.com
Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.
No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.
Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado – só poderia ser. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)
Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, disse que adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi: na tigela do gato. Não houve bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)
Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.





fev 03, 2010 @ 13:18:20
Silmara, tô aqui me culpando e perguntando como posso ficar sem passar por seu “fio”, regularmente?!
Também faço viagens nos seus textos: não sei se rio ou se choro. Mas fico a pensar: no menino da primeira série, que ajudava a me proteger e nunca mais encontrei, de quando minha mãe chegou do trabalho numa noite e me pegou em pé, em cima de um banquinho, lavando a louça, só pra que eu pudesse ajudá-la, do Corcel II…
jan 30, 2010 @ 23:29:19
Tão bom quanto ganhar o Corcel II. Melhor: quanto ganhar café com leite bem saboroso. Porque o toque de humor na medida certa sempre faz bem
Beijo, Sil.
jan 29, 2010 @ 19:10:39
“da tigela do gato” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk amei!!! muito bom seu retalho de memória! beijos
jan 29, 2010 @ 16:00:09
hahahha Poupar também não é comigo!!!
Lindo texto!
jan 29, 2010 @ 15:25:12
Ai… Muito lindo! Mas fiquei triste no final… Coração apertado. Talvez poque um dos maiores medos da minha vida seja perder meus pais e irmãos…
jan 29, 2010 @ 13:39:34
Rssss. Eu roubei dinheiro da carteira da minha mae. Foi pra comprar um presente de dia das maes. A professora disse pra trazer qualquer valor, por menor que seja a escola. Eu ambiciosa, roubei a maior nota de cruzeiro e a professora me mandou devolta pra casa com a quantia dizendo que era muita coisa e ficou por aquilo mesmo. Acabei nao pagando nada pelo presentinho.
Hoje eu a presenteio com passagens aereas, pra ela vir me ver, mas ela recusa. Nao quer vir pra ca, nao gosta daqui.
Agora, o leite do gato… voce me mata de rir.
Bjos
jan 29, 2010 @ 13:35:31
Postei sua poesia das chaves no meu blog… com credito!
beijos
jan 29, 2010 @ 12:59:12
Nunca aprendi a poupar grana.
Mas depois que tive que mudar-me pra outro estado para fazer minha faculdade de viver longe dos meus pais finalmente aprendi.
E eh muito bom porque nunca estou em apuros.
Beijos
jan 29, 2010 @ 11:03:39
Que lindo… todas as partes, nem dá pra destacar nada. Fiquei arrepiada.
Beijo!
jan 29, 2010 @ 10:26:59
Sil…
Na segunda série, sentava bem na minha frente um menino assim. Loiro, olhos verdes, magrinho, lindo de sorriso perfeito, era o mais inteligente da turma, suas notas enchiam os olhos da professora e ela sempre tinha um sorriso de protidão pra ele. Seu nome era Élcio, o sobrenome não me recordo. Na correção das redações, era bem comum que a professora pedisse que cada um trocasse de redação com o colega da frente pra que este a corrigisse. E o meu tormento era trocar de redação com ele. Um frio na barriga, uma vontade de fugir. Pois ele corrigia rigorosamente meus malfadados garranchos e meus errinhos de português de atenção não eram poupados. Mas um dia, quase no fim do ano o Élcio me surpreendeu. Eu ficava prestando atenção a cada vez que o braço dele se mexia, pois era lógico que tinha encontrado um mais um erro, mas daquela vez, não foi o lápis que ele uso pra anotar o errinho e sim uma borracha e o lápis… Ele havia corrigido mesmo, arrumado meus errinhos e assim a minha nota não seria tão baixa … fique “de cara” quando ele me devolveu a folha quase sem anotação de erro e o sorriso dele não me sai da cabeça… Tenho certeza que o Élcio não deu um carro pra mãe dele, mas ela devia ter muito orgulho dele pois demonstrou ter um grande coração, numa atitude tão simples e que de certa forma foi também uma traquinagem de criança, um delito leve digamos assim… mas eu nunca esquici o princepesinho da minha sala… e seu texto me trouxe essa lembrança de 30 anos …
obrigada
Josi
jan 29, 2010 @ 09:46:00
“Estrela não tem rua.” Lindo.
jan 29, 2010 @ 08:20:15
Oi, Silmara!
Uns dez anos atrás minha mãe tinha um Corcel II. Era branco. Me lembro dos dias em que eu acordava atrasada e lá ia minha mãe pra garagem esquentar o carro, que era a álcool, pra me levar pra escola.
O que eu mais gosto dos seus textos é que eles sempre me fazem lembrar alguma coisa da minha infância. Isso é uma delícia!
Beijo!
jan 29, 2010 @ 08:15:35
Corrigindo:
- Grandes gestos que, também, têm seus significados.
jan 29, 2010 @ 08:10:30
Pequenos gestos com grandes significados.
Grandes gestos que, também, tem seus significados.
Certeza, de que amamos com os nossos.
Lindo seu post. Como sempre inspiradores!
Tenha um dia singelo!