Panis et circenses

Ilustração: Thiago Carrapatoso/Flickr.com

Chama-se Praça de Alimentação. Mas poderia ser Festa das Nações, como aquelas quermesses de igreja, cheias de barraquinhas com comida típica de quase todos os cantos do planeta. Shoppings centers alteraram um bocado de coisas na vida das pessoas nas últimas décadas, e foram além: redesenharam o mapa-múndi – pelo menos no aspecto gastronômico – sob uma nova, interessante e apetitosa geografia. Nela, a Itália pode ficar ao lado do Japão, os Estados Unidos em frente à Arábia, a Alemanha vira vizinha do México. É a volta ao mundo em apenas algumas garfadas.

O mais interessante são os povos que circulam nessa pequena amostra de mundo. Todos falam a mesma língua, numa espécie de Babel ao contrário. Os comportamentos são parecidos, as afetações são gerais, a diversão é garantida. Embora eu faça parte desse microcosmo, por alguns instantes – meia hora, para ser exata – viro satélite. E vou capturando tudo.

Tem a turma do faz de conta. Faz de conta que não estão esperando aquela mesa vagar para saltar sobre ela com uma lança em punho, fincando nela sua bandeira. Faz de conta que não estão incomodados com a demora do casal que não termina nunca aquele cafezinho. Faz de conta que o refrigerante light vai salvar o estrago da lasanha. Faz de conta que eu acredito.

Tem a mulher que passa escolhendo o cardápio através dos luminosos, empertigada em seu traje de marinheiro. Terninho azul escuro, camiseta branca, sapatos bicolores azuis e brancos. Sisuda e séria. Barriga para dentro, peito para fora. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Seus passos são uniformes, como numa marcha. Instantes depois ela carrega com altivez sua bandeja. Mapeia o local e decide, estrategicamente, por uma mesa próxima à parede. Assim ficará de frente para o movimento, eliminando as chances de um ataque inimigo por trás. Senta-se e devora o filé à parmegiana com disciplina, condizente com as Forças Armadas. Mas em vez da Marinha ela poderia ter escolhido a Aeronáutica. Só para tirar um pouco os pés da terra, deixar as coisas voarem mais soltas, ao sabor dos ventos e, rumo às estrelas, descobrir que a Terra é azul.

Tem as Barbies. Moças que, se não nasceram iguais à boneca, foram dando um jeito pelo caminho. Embora algumas roupas só fiquem bem mesmo na original. Que não respira, não se mexe, não anda. Outras conseguem o impossível: ficar com a barriga incólume depois de um Número 1 com batata frita extra e meio litro de Coca-Cola. Só pode ser uma nova versão de Photoshop, que saiu dos computadores para a vida real. Como um spray, que pode ser levado na bolsa. Quem vai querer?

Tem o grupo de moças que reúne duas mesas para almoçarem juntas. Uma usa calça com cintura alta, quando não deveria. Outra veste blusa de um ombro só. O deslize: sutiã de alça de silicone. A bolsa de uma delas é Louis Vuitton, mas o sapato perdeu a validade há tempos. Enfim, entre as vítimas da moda, infelizmente algumas são fatais. Há poucas sobreviventes.

E tem a calça saruel. Oh, a saruel. A incógnita do início deste século. Se por um lado ela é uma celebração ao conforto e à liberdade de movimentos – a qual eu me rendo, sempre um pouco hesitante – por outro é uma quase afronta estética, um acidente. A saruel talvez seja o fundamento sobre o terceiro segredo de Fátima. Revelado antes da hora e, por isso, ainda incompreendido.

Tem a mãe que estaciona o carrinho do bebê, praticamente ocupando o espaço de outra mesa. Uma verdadeira extensão do quarto do pimpolho e da cozinha da família. Confiro os itens: uma mamadeira para água, outra para suco. Mais a de leite. O vidro com a papinha. O pratinho para a papinha. Um arsenal de babadores descartáveis. Dois travesseiros. Quatro brinquedos. Uma bolsa azul-clara de onde se tira tudo. E a mantinha, vai que o tempo vira. Ainda bem que tem rodas.

Tem outra de bebê. Sentada em seu cadeirão, a menininha tem um séquito de ajudantes para a mais simples das tarefas: comer. O avô segura-lhe o copo; o pai, o prato; a mãe faz o aviãozinho com a colher. Mas não há ninguém disponível para a única coisa que ela necessita, de verdade, naquela hora: pegar sua bonequinha que caiu no chão. É acudida pelo irmão mais velho. De três anos.

Tem o adolescente que pede dinheiro para o pai, quer um milk shake.  Ele se levanta e em dez segundos identifico, com extrema facilidade, cinco logomarcas na sua indumentária. Se ele fosse uma revista, seria remunerado para tê-las nas suas páginas. Mas ele ainda nem é um gibi.

Tem o casal que em meio a tudo – ou nada – promove um beijo longo e apaixonado, desses de cinema. Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir. Eles não ouvem a sinfonia das latas de refrigerante se abrindo. Nem assistem a dança das cadeiras. A trilha sonora deles é outra.

Devo ser alvo de algum ‘satélite’, também. Talvez perguntem o que foi que comi, para rir sozinha e escrever tanto no verso do papel que veio na minha bandeja. Simples: sopa de letrinhas.

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9 responses to “Panis et circenses

  • Laély

    Você é de uma sensibilidade! Talvez, de baratinha: ali parada, de antenas mexendo, analisando o ambiente, pra só depois tomar algum rumo…( perdão pela comparação infeliz…rsrs)
    Mas, em meia hora, quanto material, não é?

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  • Josi

    Uns dias fora, e quando volto, encontro esse texto, leve e engraçado, sobre coisas do dia a dia, com as quais nos deparamos numa voltinha pelo shopping… escrito assim com maestria… só podia ser você. E eu que gosto tanto de ser satélite e registrar as imagens com traços rápidos e poucos definidos, como num exercíco de desenho de observação, já me peguei rindo sozinha num momento assim… sinto falta desse tipo de exercício… mas dia desses volto a desenhar, e deixo as palavras por sua conta. Um beijinho Silmara!

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  • Layla Barlavento

    Realmente os Shoppings são a Babel do século. Concordo sobre a saruel. Achava ela horrorosa, antes de experimentar a maravilha de conforto que nos traz. E juro por Deus, senti inveja da pseudo-barbie. Depois de comer toda a promoção conseguir manter a barriga no mesmo diâmetro, se é que posso chamar de diâmetro… Ai, ai. É nessas horas que agradeço à Deus o nosso poetinha: “Uma barriguinha é fundamental.”

    Beijos na alma!
    Layla Barlavento
    culpadowalter.blogspot.com

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  • Silmara C

    Silmara. Voce e mesmo um satelite. Eu tenho um texto com semelhantes observacoes as suas, so que ocorrem no aeroporto. Raramente a espera de um voo consigo sentar e ler algo pois fico distraida tentando decifrar o historico de cada individuo que por mim passa.
    De onde vem? Pra onde vai? Por que vai? Quem que fica?
    Parabens, mais uma vez voce me leva pro Brasil. Acredite ou nao, mas sinto saudades de shoppings, principalmente da praca de alimentacao.
    Bjos.

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  • Ana

    Muito bom Silmara! Adorei a parte “Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir.” kkkkkk também penso isso às vezes!
    hahaha
    um beijão!

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  • Marília

    Oi, Silmara!
    Adorei o texto!
    De vez em quando eu também fico prestando atenção ao comportamento das pessoas. Acho legal que num espaço relativamente pequeno como uma praça de alimentação transitem tipos tão distintos. Cada um vivendo a sua vida e fazendo o todo borbulhar. É até gostoso de assistir!
    Bjs!

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  • Dani

    Silmara, é a primeira vez que comento aqui (apesar de ler teus textos de tempos em tempos), e olha, parabéns mesmo!
    Amei!
    Confesso que tenho um certo pânico das praças de alimentação de shopping, apesar de frequentá-las com certa frequencia.

    Sentar perto do Mc Donald’s, coragem!
    Das duas, uma: ou vai ter ao menos uma criança enlouquecida gritando/chorando (e os parentes já exastos ou acostumados não dizendo um “ai”), ou uma turma de pré-adolescentes com garotos de boné e meninas de roupa justa e cabelo com mechas rindo alto de tudo.

    Isso me deixa nos nervos, mas no fundo sei que certos estão eles, que ainda tem liberdade de fazer tudo isso.

    Beijo!

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  • Eduardo Coelho

    Adorei o texto, muito inspirado. Me identifiquei pois eu também observo muito as tribos urbanas. As vezes é muito divertido fazer uma pausa para um café e observar as pessoas. “Ver o desfile de modas”, como minha mãe diz. Ah, e eu ri um bocado com a descrição da calça saruel.

    Parabéns Silmara.

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  • Camila

    Clap clap clap clap!
    Não gosto de onomatopeias, mas essa você merece.

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