Ilustração: Karro Lean/Flickr.com
Dei para ter lembranças, verdadeiros flashes de memória. Assim, aleatórias. Do nada. Elas vêm e vão em fração de segundos, e eu preciso laçá-las – como se laça um cavalo manso, velho conhecido no pasto, porém ágil demais – se quiser revivê-las. Elas parecem desconectadas dos sentidos tradicionais, já que não têm nenhuma relação com o que estou fazendo, vendo, ouvindo, provando. Embora devam estar especialmente ligadas a algum outro, ainda incompreendido. É como se vivessem pairando pelo infinito e de repente um delas pousa. Ou re-pousa. Um amigo costuma dizer: tudo o que já aconteceu continua a acontecer, só que noutra dimensão; assim como o que ainda não aconteceu está acontecendo nesse exato momento, também em outra dimensão – daí as premonições, as vidências.
Tarde de domingo, lavo uns copos. E esta aqui surge num galope.
São Paulo, Pátio do Colégio, seis e meia da manhã de algum dia entre 1986 e 1988. O sol despontava amarelando as antigas construções, preservadas aqui e ali como foi possível. A cidade acordava aos poucos e alguns madrugadores, como eu, também já haviam começado seus dias. Era nesse cenário que eu esperava o 408, trólebus marrom, silencioso e confortável, que me deixaria na faculdade vinte minutos depois. A linha existe até hoje: Machado de Assis/Cardoso de Almeida. Apesar de eu detestar, com todo afinco, estar em pé àquela hora, não houve como não me encantar com a cena. Duvido que algum daqueles madrugadores se lembre. Talvez nem o sujeito da história, caso seja vivo. Se bem que verdade seja dita: eu não o vi. Eu o ouvi. O silêncio da manhã fora quebrado por uma voz de homem, voz ainda moça, aguda e afinada, forte, porém suave, inaugurando o dia numa velha canção que ecoou pelas ruas estreitas onde, séculos antes, a cidade nasceria:
Toda manhã, pela manhã
Abra a janela, faça sua lei
Dê viva ao sol
Que ele é nosso rei
Ele cantava só esta parte, ou foi então somente o que guardei. Gosto de pensar que era um travesti retornando ao lar após uma noite de trabalho e diversão, homenageando o sol que surgia. E não vê-lo conferiu ao que construí posteriormente como lembrança um mistério extra. Feito mágica, sua voz, favorecida pela acústica das ruas ainda semidesertas, acordou os pombos, os paralelepípedos, os prédios velhos e sonolentos. E se viesse do céu? Ou de dentro do colégio? Quem sabe era a alma perdida de algum jesuíta nostálgico. Ou de um índio resistindo ao catecismo, lembrando que seu Deus, seu rei, era outro. Que, no fundo, era o mesmo. Só que nenhum dos dois sabia disso.
O homem parecia caminhar em direção à Praça da Sé, que fica ali ao lado. Sua voz foi ficando distante. Vez por outra o vento a trazia… Dê viva… de volta ao pátio… Sol… Até que … Nosso rei… silenciou por completo e o 408 chegou.
Está bem, está bem. Uma cena dessas com trilha sonora de Benito di Paula talvez não tenha tanto charme. Fazer o quê. Mas se um dia eu fizer cinema, ela estará lá, na íntegra, tal qual eu a registrei no pensamento. Juro que vai ficar linda.





fev 24, 2010 @ 14:34:09
Voltei aqui pra comentar depois de tanto tempo. Mas e porque de vez em quando, esse post pinta na memoria.
Esse e certamente um dos meus favoritos do teu blog. A estoria dele e simples, mas voce conta de um jeito que puxa a gente pelo colarinho da blusa pra viver aquela cena com voce.
Apesar de eu nao ter estado ali contigo, lembro de memorias semelhantes e que so de deixar a mente vagar por aqueles tempos, sinto um nozinho na garganta.
Parabens Sil.
Lindo mesmo.
Bjos
fev 03, 2010 @ 13:32:33
Benito era como os “Menudos” da minha infância…
Outro dia, nas férias, escutei aquelas suas músicas num restaurante à beira mar, comendo peixe assado. Benito, nunca me pareceu tão apetitoso…
jan 19, 2010 @ 00:47:11
Nossa Sil, quanta nostalgia! Essa mexeu comigo como uma colher de pau gigante e pontuda! Deixei o som rolando de fundo enquanto lia essa cronica e deu no que deu ne? Lagrimas. Voce falando de Sao Paulo, linha do onibus, onibus eletrico e um jeito de amanhecer que so Sao Paulo tem. Mexeu com a saudade do Brasil, com a saudade de Sampa e o pior que nao volta mais, a saudade dos velhos tempos que ficam aqui piscando na nossa cabecinha.
Agora quanto ao filme, eu voto pra voce nao mostrar o cantor na cena, so a voz dele, que nem voce viveu e a musica do Benito pra tocar na hora dos creditos.
Bjos mil.
jan 15, 2010 @ 19:31:57
Sil!
quando vc escreve eu vejo a cena na minha cabeça com uma nitidez tão grande que parece uma lembrança de algo que já vivi… aguando o livro, mas se a caso vc se dedicar ao cinema, vai fazer tão bem quanto a carreira de escritora, pois isso vc já é e é ótima!
Beijinho
Josi
jan 15, 2010 @ 06:16:02
Eu adoro essas cenas de pessoas que não ligam pro que os outros que estão perto vão pensar. E assim soltam suas vozes, cantam, correm atrasados ou pra um abraço, param, dançam.
Continue laçando essas memórias.
Vai ser bom pra você e pra nós, quando assistirmos aos seus filmes!
beijo!
jan 15, 2010 @ 06:01:15
Do exercício de gravação por meio das palavras eu entendo. É uma delícia, não é? Esse podia se chamar gravação também.
Agora… Cinema?
Um livro tá de bom tamanho, Sil hahaha
Mil beijos