Carta para uma barata

Ilustração: NDroae/Flickr.com

Dona Baratinha

Não tenho dúvida: deve haver algum sentido em você. Quando você surgiu na minha frente ontem à noite, sem aviso – é sempre à noite, e sempre sem aviso – um frio percorreu-me de cima a baixo. E nada era mais urgente do que meu instinto ancestral de autoproteção e o desejo absoluto de ficar longe, muito longe.

Ineditamente, contemplei você. E você deve ter feito o mesmo comigo. O que não pude assegurar, seus olhos sem órbita parecem olhar para tudo e para nada. Na verdade, foram suas antenas que detectaram a minha presença na varanda, antes mesmo que eu detectasse a sua. Nisso você sempre leva vantagem.

Deus costuma falar com a gente através das parábolas. Elas são práticas, lúdicas e eficazes para transmitir ensinamentos. Você é uma parábola em si, Barata. O problema é que ninguém entende a sua palavra. A palavra muda de um inseto, com o perdão dos termos, barato e ordinário que representa os mistérios insondáveis da criação do universo. Um raro exemplo de obstinação e coragem, com essa sua mania de seguir vivendo a despeito do que pensam de você.

Deus também escreve certo por linhas tortas. Sua existência é uma linha torta – como aquela que você fez do banco até o jardim – e nela deve existir alguma certeza, ou sabedoria. Estar no planeta há quatrocentos milhões de anos, antes mesmo dos extintos dinossauros, é fato nada prosaico. Nojento, contudo.

Costumo dizer à minha filha, nos seus medos dos insetos em geral: “Eles têm mais medo de você do que você deles”. O que, evidentemente, não vale quando é você na história. Embora você não tenha me enfrentado, tampouco me ignorado, você não fugiu com muita convicção. Como se já me conhecesse. Ideia que garantiu nova náusea, pondo de novo aquele frio a me percorrer. Se acaso eu lhe perguntasse, Barata, “Nós já nos vimos antes?”, qualquer que fosse sua resposta, eu não acreditaria. Todo mundo sabe que você é mentirosa. Aquela história das saias de filó, anel de formatura, sapato de veludo, cabelo enrolado. Você mente para ser aceita. Até você sofre com os padrões sociais e de beleza. Existe barata gorda?

A verdade é que ontem, por instantes, eu não desejei aniquilá-la com minha supremacia. Pensei no Deus das parábolas e das linhas tortas e em qual seria a mensagem dele através de você, do seu layout. Porque vamos ser sinceras: ninguém gosta de vocês. Existem algumas histórias que lhe conferem alguma utilidade. Outras, de tão bizarras, eu prefiro acreditar que não passam de ficção. Como será ser um bichinho tão detestável? Terão as baratas auto-estima? Como você reage a tanta rejeição? Talvez sua resposta seja a mais contundente e audaciosa, dada sob aquele seu repugnante movimento de antenas, para que a humanidade inteira a ouça: “Eu sobrevivo a uma hecatombe nuclear”. Ao que eu replico imediatamente: “Mas não a um chinelo”. Pá.

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19 respostas para “Carta para uma barata

  • Dinah Sales de Olive

    Ah, Silmara, que ótima sua crônica! Franz Kafka deve estar comemorando…
    O que você fez com ‘a fita no cabelo e o dinheiro na caixinha’? Ahahahahaha
    Me fez lembrar de um conto ‘terrível’ do Cortázar, da história do bombom (Circe), afe!
    beijo.

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  • Jacob

    Me tornei fã do seu blog,
    Parabéns por nos divertir com suas sábias idéias, viajo e me divirto lendo os seus textos!!!

    beijos

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  • Adriana Lopes

    Muito obrigada pelo seu retorno quanto ao texto “Brincadeira Séria”.
    Dei muitas risadas com este “Carta para uma Barata”. Fantástica!
    Sabe, acho que já sou mais um dentre seus fãs…
    Este seu texto fez-me recordar de um texto e um livro da maravilhosa Clarice Lispector: “Perdoando Deus” e “A paixão segundo G. H.” respectivamente.
    Vou dar mais uma passeada pelo seu Blog… Vou me divertindo com as fantásticas leituras!

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  • walmir

    CARACAS!!!Essa foi simplismente demais!!!kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.Muito divertido e agradável de ler.Ainda bem que eu tinha pessoas ao meu lado pra poder compartilhar,pois gostaria de rir com alguém.Sem dúvidas terei outro olhar quando encontrar com uma barata.Sabe que vou ficar imaginando de onde ela veio e p q veio parar ali.Vou querer saber onde ela guarda a única saia de filó.Até mais.Abração!!!

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  • Raquel

    Adorei!!! Incrível o que você faz até com uma barata ;o). Morri de rir com o final.

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  • Rafa

    Matei uma barata ontem à noite. Com uma vassoura. Tenho medo não. Um pouco de nojo, talvez. Quando aparece alguma no escritório, eu mato e pego ela pelas antenas, e faço terrorismo com as mulheres que trabalham comigo. Bobagem.

    (Contei essas coisas só porque não tinha muito o que dizer. É que esse é mais um dos seus muitos posts que me deixam inconformado! Tipo, “Como ela consegue escrever essas coisas???”)

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  • Laely

    Houve um tempo( e não, muito tempo atrás), que eu tinha verdadeira fobia à baratas! Engraçado: ou eu superei, ou elas deixaram de ser tão assustadoras quanto imaginava!
    Uma coisa é certa: acho que barata e rato devem ter feito pacto com o “encardido”!
    A única barata que acho simpática, é a da historinha. Às outras: pá!

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  • Camila

    Sil, olha só que engraçado. Eu lembro de um clipe que sempre aparecia na tv cultura quando eu era criança. Conta a história dos pais do cantor e que de nada teria acontecido se não fosse uma barata num saco de batatas. Aí descobri que é do mesmo grupo que você linkou a música da barata.

    Esse é o link: http://www.youtube.com/watch?v=KqUK-F5Ta_U&feature=related
    Não fosse essa barata minha infância não seria tão feliz com os clipes da Tv Cultura. Hhahaa

    Adoro suas cartas,
    Beijo!

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  • cristiane

    Oi Silmara
    q blog legal menina.
    Vim lhe informar q ‘peguei emprestado’ um texto bem bacana seu e publiquei no meu blog tah!!!
    Adorei tudo q vc escreveu aqui.
    Gosto de escrever tbm (mas não publico nada, hehe) e admiro pessoas que, assim como vc, tbem gostam, e fazem isso muito bem, por sinal.
    Bjooo.
    Aguardo visitinha sua no meu blog.

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  • Nara

    Oi Silmara!

    As vezes fico pensando se não somos iguais as baratas de vez em quando… Suportamos inúmeras hecatombes emocionais e sucumbimos diante de apenas um olhar frio ou um silêncio…

    Bjs

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  • Noéle

    É bom voltar, é bom ler vc, acalenta, mas o engraçado é que estou lendo um livro da Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., que diz sobre isso, sobre vida e baratas.

    Bjo minha flor

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  • Ana Paula Monteiro

    sil querida,
    vc e suas cartas. São simplesmente deliciosas.
    Menina, que tal colocar como meta de 2010 publicar estas pérolas??

    Beijocas em todos.

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  • Cris Prado

    Você é LINDA Silmara!!!
    Muito espirituosa e de uma imaginação incrível (vc deve ouvir isso o tempo todo rsrs)!
    Ontem mesmo eu falei pra minha filha, que não precisa ter medo de baratas, pois elas é que tem medo de nós (estava chovendo e tinha várias delas no meu quintal, quando cheguei à noite!!! CREDOOOOOO). Só não disse a ela que eu estava quase chorando de nojo ao ter que abrir o portão e guardar o carro (rsrs).
    Enfim, fico enganando a coitadinha da Juju, pra ver se ela cresce com mais coragem que eu!!!
    bjsssss,
    Cris

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  • LILIAN GRATTI

    kkkkkkkkkkkkkkkkkk Silmara!!!!!!!! simplesmente SENSACIONAL essa crônica!!! AMEI!!! Sempre digo q qdo ver Deus (Oh pretensão, rs) quero perguntar pq a barata foi inventada… pq ela não serve pra exatamente nada!!! rs Peço agora autorização pra divulgar esse texto, posso? Se sim, me responde no email, pode ser? rs liacps@yahoo.com.br Obrigada!!!! e FELIZ 2010 com ou sem baratas… claro! ;-)

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  • dea

    você levantou um fato verdadeiro, parece que as baratas não tem mesmo muito medo da gente, assim como os outros insetos no geral. já viu um pernilongo ir embora depois de quase levar um tabefe? ele se desvia e depois insiste em voltar, com a maior cara de pau.

    bjs

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  • Bel

    hahahaha Tive que rir!
    Eu não tenho medo de baratas, mato na boa, sem dó nem piedade.
    Outro dia Marido se espantou com minha calma, quando uma voadora apareceu no quarto (de noite, sem aviso). Matei e joguei no lixo. Simples assim!

    Bjooo

    (Recebeu sua encomenda?)

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  • Marília

    Oi, Silmara!
    Na minha infância a gente cantava “sapato de fivela/ o sapato é da mãe dela” e eu não conheço a estrofe do cabelo enrolado…
    Bj!

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  • Layla Barlavento

    Quando vi o título do post, pensei seriamente se leria ou não. Tenho pânico de baratas e tudo a que se refere a elas. Até aquelas que ilustram os rótulos dos inseticidas me dão frio na espinha.
    Mas pensei: “É um texto de Silmara Franco, não posso perder!” rendi-me e comecei a leitura. Não antes de tirar os pés do chão e colocá-los “bem seguros” em cima da cadeira, é claro.
    Pois bem, sempre me pergunto porque Deus criou as baratas. Algum propósito deve haver nessa obra. Talvez apenas para que ela lhe inspirasse a escrever tão sábias e divertidas palavras. Pensar dessa maneira me faz até sentir uma certa compaixão delas… (já passou viu? rsrsrsrs)

    Beijos na alma
    Um 2010 iluminado!
    Layla Barlavento
    culpadowalter.blogspot.com

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  • paula mello

    Quá quá quá!! Essa sou eu rindo e não o pato da história.
    Pensei em lhe emprestar o chinelo, mas graças a Deus não foi necessário.
    Vc já assistiu Joe e as Baratas??
    Beijo.

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