Os parentes de Santo Amaro

Foto: detalhe da estátua de Borba Gato, Augusto Gomes/Flickr.com

A Dona Antonia morava na casa quatro. Nós, na um. Ela costumava receber visita de uns parentes que moravam no bairro de Santo Amaro. Eu tinha a maior admiração por eles. Quando o carro entrava na vila, eu ia espiar pela janela do quarto dos meus pais. Era um carro lindo – eu achava que eram ricos – e podia vê-los desembarcando. Os parentes. Tinha sempre uma ou duas crianças, talvez sobrinhos, que de vez em quando brincavam conosco. Mas eram forasteiros, crianças muito diferentes de nós. Lembro de acreditar que eles deveriam ser melhores que nós em tudo. O carro do pai deles era melhor. Assim como as roupas que usavam. A casa. A escola, então, nem se fala. Só não me lembro deles. A lembrança que tenho é coletiva, como uma entidade – eram só “os parentes de Santo Amaro”. Bom mesmo deveria ser morar lá. E não na Mooca. Pensava: criança de Santo Amaro certamente podia comer Flan Dany todo dia.

Para mim se tratava de um lugar muito, mas muito distante. E não a apenas dezessete quilômetros de casa. Tudo é longe quando se é criança. (Preciso lembrar-me disso quando, na viagem, meu filho pergunta Mãe, já está chegando?) A gente vai crescendo e o mundo, encolhendo. O meu tem ficado cada vez menor. Tudo me parece logo ali. O pior é que nele também não está cabendo mais uma porção de coisas que cabiam antes.

Quando descobri que Santo Amaro, além de não ser tão longe assim, não era um reduto de gente rica, nem um lugar fantástico, senti uma tristeza e alívio imensos. Então era ali que eles moravam? Só faltava ser perto da estátua do Borba Gato. Que, além de horrorosa, foi erguida em homenagem a um bandeirante paulista não tão nobre quanto se fez acreditar.

Tantos anos e quilômetros depois – cento e dezessete, para ser mais exata –, até hoje quando passo por ali ou leio alguma notícia de lá, é dos parentes da Dona Antonia que me lembro. A força do mito.

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5 responses to “Os parentes de Santo Amaro

  • O Ruminante

    Gostei dessa crônica, é uma coisa que acontece na infância e apesar de por vezes nos decepcionarmos nos dá memórias maravilhosas

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  • Rafa

    Eu pensava tantas coisas parecidas! Mas no meu caso, os parentes eram de São Paulo. E eram meus próprios parentes. rs

    Mas São Paulo me faz pensar em outras tantas coisas e experiências. Que já não tem nada a ver com os parentes.

    Beijo, Sil. Saudade demais!

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  • paula mello

    O mundo nunca é o que parece de verdade, mas sim como o vemos. E se por um lado as distancias encurtaram, por outro lado vejo as pessoas cada vez mais solitárias e com medo. Vc lembra de ter ouvido, quando crianca, que a fulana tinha síndrome do panico? Até os bandidos tinham um código de honra, que se perdeu…
    Embora as vezes eu veja coisas tão antigamente doces, que me restauram a minha fé na humanidade, tenho achado este mundo complicado, em que não sabemos qual será o legado para nossos filhos…
    Tão doido quanto meu teclado, que tem dias em que recusa ao cedilha, a crase e ao circunflexo. Mistério.
    Uma semana iluminada!!

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  • dea

    nossa, lembro que quando terminei a oitava série eu quis estudar num colégio muito legal, voltado para humanidades, mas não dava pois era muuuito longe de casa. Adivinha aonde? SANTO AMARO!!!! ahahhah e eu moro na vila mariana. mas minha mãe queria que eu estudasse bem perto, uma distância que desse pra ir a pé. quando eu penso que hoje trabalho em osasco, santo amaro parece um pulinho.

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  • Ana Paula Monteiro

    Sil querida,
    quando eu era pequena, meus pais compraram um lote no Bairro Castelo.
    Iamos lá, de vez em quando, para “ver o lote”, e fiscalizar se havia invassão ou se estava limpo. Era uma viagem para mim. E uma aventura, pois ele quase não era povoado.
    Muito tempo depois, eis que eu começo a namorar um cara que morava….no Castelo.
    Ir lá continuava sendo longe, mas nada como um carro e uns 20km. O olhar que tive para o bairro é que achei curioso.
    Coisas da vida.

    Beijos com saudades.

    Ana

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