O dia em que a vaca tossiu

Ilustração: Paul Kohler/Flickr.com

Hotel-fazenda tem sempre cavalinho, patinho e vaquinha para fazer a alegria dos hóspedes, em especial da criançada. Na função de atração, esses bichinhos deveriam receber salário.

Domingo, dez para sete da manhã. A família já estava em pé. Tomaram café com pão quentinho, feito ali mesmo no forno à lenha. O leite, grosso e de aroma forte, em nada se parecia com aquele que eles tinham em casa. O filho de três anos ficou curioso e, inconformado ao saber de onde ele vinha, quis ver a vaca. Precisava conferir aquela informação. Foram todos ao curral. O rapaz da fazenda pegou o banquinho, um balde velho, e escolheu uma para a ordenha. O leite jorrava, e o menino ia ficando assombrado. No balãozinho do seu pensamento podia-se ver uma embalagem longa vida, um ponto de interrogação e um de exclamação. Pausa para a troca do balde. Foi quando a vaca fez um movimento com o pescoço, fazendo todos se afastarem assustados – menos o rapaz. Ela abriu a boca e ouviu-se um ruído seco. O rapaz traduziu: ela acabara de tossir.

Agora quem estava assombrada era a mãe. Lembrou: no sábado o marido, entusiasmado no primeiro dia de férias, levantara-se da cama com ânimo inédito e, de braços abertos para o sol que nascia em frente à varanda do chalé, sugeriu deles irem morar num lugar como aquele. E ela, sonada e ainda sob o edredom, porém de olho num filhote de lagartixa que zanzava pelo varão da cortina de algodão, respondera: nem se a vaca tossisse.

Pois a danada havia tossido. E, embora para a mulher nem esse fato fosse suficiente para fazê-la cogitar a ideia, a verdade é que aquela tosse passou a representar uma alteração no curso do seu planeta particular. O símbolo da nova ordem do seu mundo. Todas as coisas que soavam impossíveis, impensáveis e infactíveis, agora se tornavam reais possibilidades. A primeira delas: deixar para trás a metrópole vinte quatro horas no ar – que ela acreditava ser necessário, embora nunca tivesse ido ao cabeleireiro à meia-noite, nem provado o nhoque às quatro da manhã – e ir viver num lugar com dia e noite bem desenhados, onde as flores e as galinhas (até as vacas) podiam dormir. A segunda: tudo o que derivaria da primeira, entre elas abrir mão da efervescência cultural da sua cidade, da qual ela tinha orgulho, mas nunca tempo para usufruir (e quando tinha, faltava-lhe a disposição para encarar a fila). Sem contar tudo o mais que ela rejeitara a vida inteira – pensamento, oportunidade, crença – amparando-se na improvável condição da vaca um dia tossir. Agora, ela teria que estar disposta a mudar suas raízes de lugar, como uma árvore transplantada. Teria de se rever. Tudo culpa da vaca, que havia tossido.

O rapaz encerrou a ordenha e entregou o balde ao pai. O filho estava animado. Queria um Toddy com aquele leite.

É. Agora a porca tinha torcido o rabo.

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4 responses to “O dia em que a vaca tossiu

  • paula mello

    Pois é, não tenho mais desculpa. Afinal, se a vaca tossiu, o que mais hei de esperar? Quero todas as minhas impossibilidades já, please.
    Uma semana iluminada!

  • Kelly

    Silmara, fazia algum tempo que nao lia teu blog.
    E quando leio o primeiro post me deparo com minha realidade. Eu troquei a cidade cheia de cultura, troquei o urbano pela praia faz duas semanas. Sou mais uma dessas que adora cultura mas não tinha tempo e, muitas vezes, nem dinheiro para fazer parte desse cenário. Mas não abandonei por completo, estou à uns 25min do centro, da cultura, um pouco menor do que era acostumada, mas estou maravilhada.
    A vida é agora. E única. E vale a pena.
    bjoca

  • Rafa

    Coragem, moça! Não espere que a cobra fume nem que a onça beba água!

  • Cristóvão Júnior

    Silmara,

    Seus texto são deliciosos! Vi seu comentário no vidabreve.com e vim aqui conferir sua escrita. Li dum folego só uma porrada de cronicas, gostei deveras da “Fingimentos” e “O elogio nosso de cada dia”. Adicionei-a como favoritos, hei de te acompanhar. Nos agracie com seus belos textos.

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