Tempo da conciliação

Luis Ricardo Falero (1851-1896), óleo sobre tela

Despediu-se dos filhos na porta da escola e, enquanto a empregada avisava pelo celular que a máquina de lavar roupa tinha pifado, conferiu as orelhas dos dois: tudo em ordem. No caminho para o trabalho, aplicou a maquiagem aproveitando os semáforos vermelhos, como sempre fazia. Na hora da sombra, o telefone de novo: desta vez era sua assistente, completamente perdida na reunião que acabara de começar, onde ela deveria estar. Conseguiu chegar a tempo de salvar a pobrezinha e, de volta à sua sala com mais sete tarefas novas para aquele dia, o marido mandou um email. Tinham o aniversário da sobrinha naquela noite, e ele simplesmente não tinha ideia do que comprar. Na hora do almoço, já no estacionamento do shopping, ouviu no rádio algo sobre uma certa “semana da conciliação”. Não deu tempo de saber do que se tratava. Mas guardou o nome para pesquisar depois. De volta ao trabalho, digitou no Google. E antes que visse os resultados, uma colega quis saber por que ela havia pintado um olho só.

Então era isso. A tal semana não era novidade nenhuma. Ela acontece de tempos em tempos, e todo mundo com alguma pendenga judicial pode tentar resolvê-la de vez. Na paz. Como o próprio nome diz, na base da conciliação. Um mutirão da justiça. Vale tudo: acordo com ex-marido, ex-patrão, ex-sócio, ex-empregada. Limpar o nome, pedir indenização e por aí afora. Ela foi se interessando pela coisa. E enquanto tentava deixar os olhos iguais, pensou no quanto seria bom providenciar umas conciliações na sua vida também.

Começaria por um acordo consigo mesma: assumiria, definitivamente e em todos os detalhes, o seu layout. E determinaria: seria uma obra em progresso.

Depois, seria a vez da balança. Não discutiria mais a relação: a melhor conciliação seria, de fato, a separação. Um peso a menos.

Em seguida, ajustaria os ponteiros com Cronos. O deus do tempo andava ligeiro demais. Ele prometeria diminuir o passo. Em contrapartida, ela teria de inventar menos coisas para fazer.

A família não ficaria de fora: antes de perguntar onde estão as coisas em casa, o marido se comprometeria a tentar encontrá-las sozinho. O que teriam para o jantar deixaria de ser uma decisão dela, para se tornar um processo participativo. E cada um dos filhos só poderia chamá-la vinte e cinco vezes por dia.

Encontraria um tempo para ligar para aquele amigo, há anos não se falavam. Por que mesmo haviam discutido?

Por fim, a conciliação mais delicada: nada de sutiãs queimados, nada de Amélias. Nesses assuntos, onde parece não haver nem juiz, nem justiça, ela teria que se reinventar. Nem tanto o céu, nem tanto a terra. E, como Hamlet, ela acreditaria: deve haver mais coisas entre os dois.

Uma semana seria pouco.

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6 responses to “Tempo da conciliação

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    Comentario…

    [..]Articulo Indexado Correctamente[..]…

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  • Renata Malachias

    Como sempre, delícia de texto. Dá vontade de imprimir e colocar junto com o cartão de Natal de todas as amigas.

    Beijos!!!

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  • silmaraemutah

    Lindo Sil!
    Acho que poder determinar que somos uma obra em progresso ja e um grande passo.
    Poder me olhar no espelho e dizer: Voce nao e invencivel, heroina ou a Mae do Ano e mais dificil do que eu esperava.
    Amei o limite de quantas vezes os filhos devem nos chamar. Essa eu vou adotar la em casa.
    Bjos

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  • Ana Karina

    Sem dúvida alguma, eu sou uma obra em progresso. rs. Todos somos, afinal de contas, não é mesmo? E vc vai aí, me ajudando com alguns toques, retoques e pinceladas.
    Beijo grande

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  • Marília

    Hoje, uma palavra só: Uau!

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  • Janaína Scaramussa

    Nossa, que delícia!

    Estava na correria da “não-reconciliação” e mal visitava o seu blog.
    Hoje, assim que fiz uma pesquisa em meus e-mails, vem-me o link daqui. Resolvi passar, visitar, dar um tempo para uma boa leitura. E eis que deparo-me com esse texto. Nada como reconciliar-mo-nos com coisas boas e as ruins também! Basta querer!

    Obrigada, mais uma vez. É realmente uma delícia vir aqui!

    Um grande abraço,
    Janaína Scaramussa.

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