O vinho, o táxi e outras paroxítonas

Foto: Maria G./Flickr.com

Saiu do escritório duas horas mais cedo. Tinha, portanto, três horas até a aula. Aquele MBA não acabava nunca. Não era uma pós, mas permaneceu após tudo: casamento, gravidez, separação, lipoaspiração. Passou no boteco ao lado da faculdade e resolveu tomar uma. Uma, não: um. Pediu vinho. O garçom, desacostumado, nem sabia se havia algum vinho para servir. Voltou quatro minutos depois:

– Tem este aqui…

– Vai esse mesmo.

Vinho, para ela, tinha sabor de festa, aniversário, reunião com amigos. Sozinha, nunca. Pois agora o vinho estava ali na sua frente. Seria também uma reunião. Só que desta vez, dela com ela mesma. Hora de colocar os pingos nos is, os acentos nas sílabas certas e os pontos finais nos devidos lugares. Pra que mesmo aquele MBA? Ela, que sonhava ser atriz. Zonza da silva, foi para a aula. Entrou na sala errada, sentou-se na última cadeira e prestou a maior atenção. Fez anotações no caderno. Na hora de ir para casa, a zonzeira não havia passado. Melhor não dirigir e voltar de táxi. Aproveitou um que acabara de deixar o passageiro.

– Para onde vamos, senhorita?

– E por acaso o senhor sabe de onde todos nós viemos?

Da faculdade até sua casa, falaram sobre política, a chuva da semana passada, receita de queijadinha com doce de leite – exclusividade da mulher do motorista –, bíblia, MBAs e novela. Ele estacionou, acendeu a lâmpada sobre o espelho retrovisor, a Nossa Senhora pendurada nele ficou iluminada. Enquanto procurava cinco reais para o troco, anunciou:

– Vou dizer uma coisa: criei meus seis filhos sem esse tal de MBA. Perca seu tempo não, dona. Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo.

Dia seguinte, manhãzinha, foi até a faculdade buscar seu carro, que dormira na rua. No pára-brisa, o recado: “Desculpe-me pelo amassado. Me procure e acertamos tudo. Obrigado, Henrique”. Achou engraçado tanta paroxítona. No verso do cartão, pôde ler: o Henrique era dono da escola de teatro, a sete quadras dali. Foi lá, encontrar a sua sílaba tônica.

16 Comentários (+add yours?)

  1. ellen maria
    dez 08, 2009 @ 20:26:35

    Ei Silmara
    voltei sim!!! Espanha tava boa, mas tava com saudade.
    E vc acredita que ainda nao bebi guaraná nem comi açaí nem brigadeiro??
    Mas a saudade do meu amor deu pra matar….
    e até pra começar a criar outra:
    agora foi a vez dele viajar… a trabalho… 21 dias em Buenos Aires, e eu aqui, na terra chuvosa de Sampa, aguardando as festas pra gente comemorar juntos novamente.
    Com vinho!!!! argentino!!!!

    Responder

  2. Noéle Gomes
    dez 03, 2009 @ 08:52:58

    Sil, obrigada pelas palavras, pela lindeza e pela vida.

    Responder

  3. Ana Paula Monteiro
    dez 03, 2009 @ 08:24:31

    Sil querida,
    seus textos me deixam com a maior vontade de saber a continuação da história. Bom demais ler.
    Beijos
    ANa

    Responder

  4. Rafa
    dez 03, 2009 @ 07:05:52

    Ah! Esse post foi pra mim!

    (Se não foi, sem problemas: roubei na boa. Um presente numa manhã chuvosa. Agora é só curtir mil coisas que ele despertou aqui dentro…)

    Responder

  5. paula mello
    dez 03, 2009 @ 03:05:25

    Adorei essa de encontrar a sílaba tônica. Não é que é mesmo?
    Além do marido, encontro muitas dessas na música. Gosta de música celta? Passa lá em casa para ouvir.
    Uma semana iluminada!
    Beijos.

    Responder

  6. Layla Barlavento
    dez 02, 2009 @ 16:40:52

    Nada mais sensato que que a frase do taxista. “Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo” Serviu feito luva pra mim. Depois desse texto vou começar a rever minhas prioridades…

    Beijos na alma
    Layla Barlavento
    culpadowalter.blogspot.com

    Responder

  7. Bel
    dez 02, 2009 @ 14:17:43

    E eu me pergunto: Mestrado, pra que?

    Seus textos sempre muito próprios e “encaixados”, sacomé?

    Beijo, lindona!

    Responder

  8. Brisa Ananda
    dez 02, 2009 @ 13:49:37

    “Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo.”
    Texto excelente. Vai para o meu blog!

    Responder

  9. Taffarel Brant
    dez 02, 2009 @ 13:43:53

    Sil!
    Sempre estou por aqui lendo seus posts, mesmo que na surdina.
    Esse em particular me fez imaginar mil coisas boas.
    grande abraço.
    continue por aqui, suas palavras me trazem boas sensações.

    bjão

    Responder

  10. silmara
    dez 02, 2009 @ 13:33:50

    Apesar da MBA nao ser pra ela, pra mim e pra muitos, ela estava no lugar certo, na hora certa, pelo menos seu carro estava.
    As vezes a gente fica fucando, tentando encontrar o algo pra colocar as coisas nos eixos, mas nao adianta, as vezes as respostas vem assim.

    Amei!
    Bjos
    Sil

    Responder

  11. O Ruminante
    dez 02, 2009 @ 13:31:31

    Um texto pequeno, mas excelente, muito bom mesmo. Parabéns!

    Responder

  12. Joseliane A. Stanger
    dez 02, 2009 @ 13:15:20

    Oi Sil
    Texto pra pensar, e sorrir no final, pois sempre temos alguma coisinha pra mudar de rumo na nossa história…
    Um beijinho
    Josi

    Responder

  13. terracotabolsas
    dez 02, 2009 @ 13:10:27

    Gostei, Silmara! Parece o complemento do outro conto, ‘Brincadeira séria’… quantos toques precisamos levar até percebermos que podemos ser felizes?

    Grande beijo!

    Responder

  14. Trackback: Tweets that mention O vinho, o táxi e outras paroxítonas « Blog da Silmara Franco -- Topsy.com
  15. Cris Prado
    dez 02, 2009 @ 10:12:31

    Pois é… que estajamos de olhos abertos e ouvidos atentos, pois as chances passam por nós e muitas vezes, nem nos damos conta.
    bjk

    Responder

  16. Sol
    dez 02, 2009 @ 08:59:38

    A gente perde tempo na vida por puro medo de ser feliz com as coisas simples. O que nos assusta é que felicidade é fácil e não há nenhum segredo…rs

    Responder

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