Nesta data querida

Ilustração: Shelly

Já que você perguntou, eu conto. Este gorro aqui tem mais de vinte e três anos. É do tempo em que eu morava no casarão. A Dona Jandira entrara na sala e desabara os três sacos de lixo sobre o tapete. Mas não eram sacos com lixo. Quer dizer, o que tinha dentro era o lixo de alguém. Mas não para nós. Aquilo era o nosso guarda-roupa. Ninguém ali ganhava roupa nova. Nunca. Sempre usada. Quando Dona Jandira chegava com os sacos, as crianças desciam pela velha escada de madeira curiosas, ressabiadas. Os degraus rangiam, como se também curiosos. Uns sentavam-se e espiavam pelo corrimão. O Francisco era um que nunca descia. Ficava encarapitado lá em cima, com o livro sobre eletricidade no colo. O livro veio num dos sacos uma vez (acho que por engano), ele o pegou e não largou mais. Dona Jandira já estava acostumada. Depois ela separava o que servia nele. Nesses dias sempre tinha um alvoroço no ar. Eu ficava alegre de ver os sacos, mas não entendia porque quase nunca tinha alguma coisa para mim.

Dona Jandira usava os cabelos presos atrás, de um jeito que os olhos dela ficavam até meio puxados. Ela era a presidente do nosso casarão. Cuidava de nós, criava as regras e as mudava, quando ninguém obedecia. Fazia nossa comida, lavava nossa roupa, apartava briga. Dava bom dia e boa noite com beijo. Ela ria o tempo todo, achava tudo engraçado. Acho que era o jeito que encontrava para não ficar doida. Éramos nove, cada um com um motivo para estar ali. Com ela, dez. Mais a Candinha que vinha ajudar, onze. Padre Tomás não contava, ele não vinha muito. No começo eu achava que ele e a Dona Jandira eram namorados. Nunca tinha visto padre que não usava batina. Um dia perguntei e ela riu, como sempre. Disse que ele era casado com Deus. Achei estranho, Deus não era mulher. Eu gostava de sentar atrás das suas pernas quando ela se deitava no sofá para assistir a novela. As pernas eram a rua, uma rua comprida que fazia esquina nos joelhos. Eu colocava minhas bonecas em cima delas e fazia de conta que estavam indo para a minha festa. A bunda era o casarão. Dona Jandira tinha um bundão.

As crianças foram abrindo os sacos e tirando tudo de dentro. Dona Jandira tentando organizar, mas a gente não deixava. Foi vestido pra um lado, blusa pro outro, aquele monte de meias espalhadas. A Sandrinha vestiu uma calça ao contrário, ficou entalada, perdeu o equilíbrio e bateu a cabeça na parede. Eu achei que ela tinha morrido. Mas não tinha, e eu fiquei decepcionada. Seria a primeira vez que eu veria alguém morrer de verdade. Até então os meus mortos tinham apenas ido embora.

Dona Jandira sabia que naquele dia era meu aniversário, ia até ter bolo no sábado. Eu percebi que ela tentava encontrar no saco alguma coisa bem bonita para mim. Eu era a mais velha por lá. Tinha doze anos e usava número dez. Mas nada serviu. Tinha uma camiseta azul-céu linda, com um brasão e a letra F bordada no peito. Imaginei que havia sido de uma menina chamada Fernanda, muito rica, e por certo tinha até etiqueta de nova  quando ela a ganhou. Experimentei, ficou curta. Puxei na frente, para baixo. Mas Dona Jandira balançou a cabeça. Foi pro Francisco. Ele nem gostou dela depois.

No terceiro saco eu já tinha perdido as esperanças quando ela tirou dele, toda animada, um gorro de lã vermelho. Quer coisa mais simples que gorro? Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça. Ficou para mim. Naquela noite a Dona Jandira ficou sentada ao meu lado na cama. Ela fazia cafuné nos meus cabelos enquanto cantava baixinho, bem devagar e quase sussurrando para não acordar as outras crianças… “Parabéns a você… nesta data querida…” E eu fingi que dormia, para ela poder chorar sossegada.

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17 responses to “Nesta data querida

  • Dani

    Oi Silmara…
    Tão difícil reler este texto. Não consigo. Quando meu filho nasceu, e ganhou muitos presentes novos e também usados, e cresceu logo também ( Graças a Deus! ), doei roupinhas e sapatinhos e brinquedinhos usadinhos e novinhos. Lembro-me que quando entreguei as sacolas, e quem as recebeu olhou e viu, se assustou: tinha roupa com etiqueta, uau!
    É, é assim que acontece. E na época, não entendi a reação de surpresa.
    Agora sim, entendo.
    Abraço grande,
    Dani ( amiga da Ana Paula )

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  • inspiracaorascunhada

    Lindo. Me lembrou muito as crianças dum abrigo já fiz voluntariado por uns anos e as vezes visito, aqui na minha cidade. Senti o texto fundo e me identifiquei, por conta dessa realidade que já presenciei. Sempre me pergunto o que exatamente passa na cabeça daquelas crianças. Fiquei imaginando uma delas como a narradora desse conto. Choreizinho. Chuinf.

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  • Rafa

    (Tô fingindo que tô dormindo também, mas é pra que EU possa chorar sossegado. rs)

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  • Flávia Aidar

    Diferente de tudo que já li do que você escreveu. Adorei este outro lado da sua veia. Jorra um sangue suado, vai pra dentro e quase não olha pra fora. Nasce uma outra escritora.
    Adorei!!!
    beijos comovidos, como sempre.
    Flávia

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  • cris prado

    Ai… me veio um choro impossível de conter (sem querer ser piegas)!!!
    Neste fim de ano, tenho avaliado tantas coisas, mas tantas, que acredito que estou na crise dos 30 (aos 32).rsrsrs
    Estou te escrevendo e chorando, no TRABALHO!!! (ainda bem que estou só, no momento rsrsrs)
    Eu vejo que tenho uma filha maravilhosa (a pequena Juju), que tem tudo o que uma criança precisa e merece, e ainda assim sinto que não consigo ser o que gostaria. Uma mãe mais presente (ai como eu gostaria de não precisar trabalhar!!!), não sei bem. Mãe de corpo presente, não quer dizer mãe presente, né?? (pra vc ver como estou confusa! ahahaha)
    Vejo também, como a vida é generosa comigo, mas ainda assim, a angústia me acompanha…
    Alguns tem tanto e outros tem tão pouco…
    Parabéns pelo texto, que me disse tanta coisa, pois sinto que ele reflete uma pessoa incrível e cheia de amor pra dar!!
    bjs

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  • Bel

    Ai ai… tem mesmo que comentar? Fiquei sem palavras.
    (Ainda bem que este nao entrou no concurso!!!)

    Beijooo

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  • dea

    “Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça!” Adorei!
    Fiquei lembrando das coisas com as quais eu me apegava quando era criança. Um cachorrinho de plástico branco que perdi num hotel… um ursinho com topete rosa… uma camisa jeans gigantesca que ficava horrível mas eu achava o máximo… muito legal!

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  • Ana Karina

    Lindo, lindo, lindo. Vc faz maravilhas com as palavras e com quem as lê, sabia?
    Beijo no coração.

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  • Joseliane A. Stanger

    Ai… Silmara… mais um lindo texto, simples e tocante. Como sou uma manteiga derretida, é claro que chorei e ainda estou com aquela dorzinha na garganta que fica quando seguramos o choro sabalado que corre por dentro… umas lágrimas teimosas escapam mas sempre cuido pra não chorar na frente das crianças…
    Um beijinho Sil… e bom fim de semana!

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  • Dayanne

    Oi flor… Eu não comentei o texto de fingimento… Mais queria dizer… Ainda que tardiamente, que me identifiquei horrores com ele… É segredo… Mais eu costumo fazer isso… rsrsrsrs… Fingir que não vi alguém… Por simples preguiça de ter que responder sempre as mesmas coisas… Acho que pelo mesmo motivo deixei de escrever no meu blog… Minha vida andava sem assunto… rsrsrsrs… Agora acho que to vivendo uma fase nova… E vim te contar… Claro… Agradecer pelo incentivo também… Eu amo ler… Amo escrever… Mais sinto que o segundo meio que anda esquecido dentro de mim ultimamente…
    Beijos…

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  • Layla Barlavento

    Fui de novo pros spam não foi? rsrsrsrs! Um dia agente entende esse wordpress.

    Beijos!

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  • Layla Barlavento

    Nossa! Assim como Dona Jandira, também chorei. Lindo texto Sil. Sei que o que vou falar muita gente já deve ter dito: você escreve com a alma. Quando venho aqui não dá mais vontade de sair! Obrigada por compartilhar tão doces e verdadeiras palavras!

    Beijos na alma!
    Layla Barlavento
    http://www.culpadowalter.blogspot.com

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  • Marianne

    Hora dessas não tem como não fingir!!!!
    Parabéns querida, lindo texto!
    beijos

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