A escola

Foto: Anniferrr/Flickr.com

Passou um rímel no olho do furacão. Um batom na boca do povo. Um pente nas ideias. E saiu. Marchava como um soldado. Sua cabeça não era de papel, nem de vento. Naquele dia, era de chumbo.

Então sua filha não poderia estudar na mesma escola que as outras crianças da rua? Aquilo não estava certo, não. Sete e sete são quatorze. Com mais sete, vinte e um: de fato, ela tinha muitos namorados. Mas não gostava de nenhum. E, acima de tudo, não gostava de ver sua garotinha sendo tratada diferente. Pois agora o diretor da escola veria o que era bom para tosse. Justo ele, que era um xarope.

Desceu a rua pela sombra enquanto ensaiava o discurso. Senhor Diretor, a mensalidade da minha filha está atrasada? Não, senhora. (Sim, ele teria de chamá-la de senhora, igual fazia com as outras mães.) Senhor Diretor, minha filha, por acaso, desrespeita alguém aqui? Não, senhora. Senhor Diretor, minha filha sabe quanto é dois mais dois? Sabe, sim senhora. Então pronto, senhor Diretor. Minha filha fica. Estamos acertados? Estamos, minha senhora – ele diria e lhe ofereceria um chá de jasmim.

Na esquina, abriu a bolsa e buscou a medalhinha de Santa Maria Madalena. Ela, que também era Maria, mas não ia e nem vinha com as outras, apertou-a firme nas mãos, guardou-a e retomou a marcha. Então estamos acertados, senhor Diretor?

Chegou à escola rodeada de pinheiros, subiu a escadaria. Era aguardada. Assim que entrou na sala do diretor, recebeu um envelope. Uma página com assinaturas pedindo a saída de sua filha. Na verdade, era ela que queriam ver longe. Sua filha era apenas o meio, o animal sacrificado em noite de lua cheia. Não houve senhora, nem acerto, nem chá de jasmim.

Ela tentou retrucar. Falou sua parte do discurso ensaiado, mas o diretor não disse a dele. Ela improvisou, sem conseguir, contudo, estabelecer o roteiro imaginado. Disse, por fim e aos berros, que aquela escola era como uma canoa sem direção, prestes a virar. Porque ninguém ali sabia remar direito. O diretor riu, escancaradamente. E ela pôde ver: no céu de sua boca não havia estrela alguma. Era um céu estéril. Como tudo ali.

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8 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. Silmara Franco
    nov 07, 2010 @ 22:44:53

    Oi, Álvaro! Não consegui responder no email que você informou, voltou. Me escreva de novo, ok?
    Beijos,
    Silmara

    Resposta

  2. Álvaro
    nov 06, 2010 @ 11:18:48

    Escola,um dos lugares mais torturantes que eu conheço.
    Ninguem tem dó, ninguem quer ter dó.

    Resposta

  3. Rafa
    nov 26, 2009 @ 23:47:44

    O pior é saber que que coisas desse tipo acontecem todos os dias. E que algumas pessoas escolhem a esterilidade…

    Resposta

  4. ayagui
    nov 25, 2009 @ 10:56:47

    adoro suas histórias!

    Resposta

  5. cris prado
    nov 24, 2009 @ 11:05:14

    Nossa, que aperto no coração!!!rsrs
    Tenho uma filha de 3 anos e fiquei pensando… se essa “estória” for história, é muitissimo triste!!!!

    bjsssss

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  6. Bel
    nov 23, 2009 @ 15:39:54

    Querida, você viu o concurso de contos e microcontos no meu blog?
    http://deixoler.blogspot.com/2009/11/promocao-de-aniversario-4-anos-deixando.html
    Seus contos são “de arrasar”!!!

    Bjo!

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  7. Joseliane A. Stanger
    nov 23, 2009 @ 14:23:23

    Lindo e desconcertante…
    Ainda vou ler um livro assim…
    beijinho
    Jo

    Resposta

  8. monica paiva
    nov 23, 2009 @ 09:10:43

    Tem cada história nas escolas! Com carinho Monica

    Resposta

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