Os vestidos do domingo

Foto: Leandro Mise/Flickr.com

Domingo passado fui comprar comida para os gatos, estava no fim. Com fila no caixa, meu passatempo predileto entrou em ação: olhar gente. Mais precisamente, as mulheres. Mulher adora prestar atenção em mulher, e isso é coisa que nem mulher entende o porquê.

A primavera, prestes a se despedir, disse ao que veio. Sol de fazer brotar o que fingiu estar seco, brisa quente. Dia branco, preguiça no ar. E todas as mulheres na loja vestiam vestidos. Todas. Como se uma ordem cósmica tivesse sido dada a elas ao amanhecer daquele sétimo dia, véspera do Dia dos Mortos: Vão viver! Obedientes, as mulheres trataram de tirar os seus do armário. Floridos, xadrezes, listrados, verdes, azuis, rosas, amarelos, com alças, sem alças. E numa coisa todas combinaram: o comprimento, mais curto neste pré-verão. Eu, claro, reparei nas pernas todas.

Conferi se eram bonitas ou nem tanto. Se eram gordas ou magras. Longas ou curtas. Branquelas ou bronzeadas. Se o cirurgião vascular teria trabalho por ali ou não. Se tinham ou não manchinhas roxas, dessas que aparecem quando a gente bate na quina da cadeira. Se o formato denunciava a caminhada diária ou a perna para o ar. Brinquei de trocar mentalmente as pernas de um corpo para outro, para ver como elas ficariam – o que não é nada fácil. Brinquei de tentar adivinhar como era o rosto, olhando primeiro para as pernas. Errei feio: as pernas mais gordinhas não estavam nos rostos mais redondos. Nos pés, dá-lhe rasteirinhas e chinelos cheios de bossa. A fila andou e eu pensei: o conforto há de vencer. A redenção dos pés, finalmente.

Quando eu tinha vinte anos, não usava vestido. Suspirava ao lembrar das minhas pernas aos quinze. Queria ter a cabeça dos vinte, no corpo dos quinze: tudo tão no lugar.

Fiz trinta anos, e já voltara a usar vestidos. Mas suspirava ao recordar das pernas dos vinte. Queria ter a cabeça dos trinta, no corpo dos vinte: eu era feliz e não sabia.

Aos quarenta, continuei metida nos vestidos. E ainda suspiro ao pensar nas pernas dos trinta. Queria ter a cabeça dos quarenta, no corpo dos trinta: como é que pode a gente mudar tanto em uma década?

Já que existe certa inteligência nisso tudo, resolvi não esperar meus cinquenta anos. Desta vez, a nostalgia será ao contrário, e vale para todas as partes do corpo. Dou um pulo lá na frente e, sabendo que sentirei saudades de agora, declaro-me, hoje, pronta e perfeita para o que minha imaginação me autorizar a vestir. Tirando o que for tão curto quanto a vida, eu vou é botar o meu bloco na rua.

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11 responses to “Os vestidos do domingo

  • Laély

    Engraçado é, que eu também me divirto ao ficar parada numa praça de alimentação de um shopping qualquer, só pra ver as pessoas passando, diga-se: as mulheres. Faço um exercício mental, bancando a personal stylist e brinco de cortar cabelo, mudar cores, trocar os vestidos…Um jeito adulto de brincar de bonecas…

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  • ellen maria

    em sua homenagem, hoje vou usar vestido!
    mas com meia calça com o maior numero de fios por baixo e uma blusa quentinha…
    previsão para Salamanca: 6 graus!

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  • monica paiva

    Eu também fiquei anos sem usar vestido. Perna branca e horrorosa. Hoje elas continuam brancas aos 51 anos. E lá vou eu com os vestidos.
    Hoje é meu aniversário
    Com carinho Monica

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  • Ivana e miudim

    Silmara,

    E eu que passo a semana metida em calças, por causa do trabalho? Adoro vestidos, quanto mais leves e floridos, melhor. Mas não tenho muitos, não. Nos fds vou mesmo é de shorts, mania desde a adolescência. Mas vivo me prometendo uns vestidinhos…quem sabe não vai ser nesse verão?

    bjs

    Ivana (tete)

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  • MEL

    Que graça!
    Quanta poesia… Como um vestidinho floridinho de flores micras…
    Adoro sua simplicidade.
    Beijões!

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  • Ana Paula Monteiro

    Sil,
    tá vendo….o xadrezinho virou sua marca registrada. Que, diga-se de passagem, é lindinho. E ainda apareceu no site bacana da Cris.
    Beijocas
    Ana

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  • Silmara Franco

    Ana e Rafa, meus queridos. Assim vocês entregam que usei o mesmo vestido quando fui conhecer vocês aí nas Minas (rs). Que aliás foi o mesmo de quando apareci com Dona Cris Guerra no Hoje Vou Assim. Viagem de férias é assim: não dá para levar o guarda-roupa inteiro. No final o xadrezinho já passeava sozinho pelas ruas de BH. Beijos

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  • Camila

    Ai, Sil!
    Tenho que ser sincera com você. Ri de mim mesma lendo seu texto, mas não foi um riso lá de muita felicidade não.
    Minha irmã vai fazer compras de vestidos novos semana que vem e eu não posso acompanhá-la. Estou num trauma interminável.

    Fui fazer trilha outro dia com uma amiga e esqueci de passar protetor nas pernas. Como eu estava de legin a única parte que torrou – para não ser exagerada – foram minhas canelas. Agora se eu levanto um pouco a calça do colégio para refrescar já vem os engraçadinhos perguntar se eu estou com duas meias, e pior, parece mesmo.
    O que eu faço? Do risada de mim mesma. hahaha

    Beijo

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  • Ana Paula Monteiro

    Sil querida,
    os vestidos. Que delícia. Quando nos conhecemos eu usava um azul (o meu predileto, que acomodava bem minha barriga de 9 meses) e vc um vinho xadrez, lembra?? E se minha memória não falha, a Nina também estava de vestidinho.
    Ahhh, como eles são gostosos. Deixa a gente mais feminina, mais fresquinha. Estou super feliz que pude voltar com vários deles para o armário.
    Beijos com saudades.
    Ana

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  • Rafa

    E vá de vestido xadrez combinadinho com bolinhas, em tons de vinho, e bota western. Vai ser legal!

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  • Joseliane A. Stanger

    Lindo Sil.
    Outro dia me peguei pensando no corpo que tinha antes, quando me casei. Pesava míseros 49 kilos, tudo me ficava bem, até os cabelos compridos e volumosos e a franjinha. Vestidos, nem se fala, todos curtinhos. E nos pés sempre uma sandalhinha delicada de tirinhas deixando os pés á mostra. Nem pensavama mais na minha adolecência, quando eu escondia meus pés dentro das meias e dos tênis com vergonha dos meus dedos magrinhos. Agora, treze anos se passarm e as mudanças são gritantes. Duas gestações causaram mudanças irreparáveis ao corpo. Mas também me tornaram plena. Quando olho no espelho, aquela do outro lado me mostra com um sorriso coisas das quais me orgulho. Me mostra, além da forma, me diz que estou aqui, com o corpo que agora tenho, com a cabeça que sustento, com braços mais roliços e macios que acalantam o filho e o pai dele, com seios mais humanos que amamentaram enquanto aguentei. Minhas pernas não são mais belas como antes, mas me levam pra lá e pra cá o dia todo. Meu rosto trás as marcas do tempo e meu sorriso é mais fácil e mais corriqueiro. Eu sou feliz com a vida que levo e apesar de sentir saudades do corpinho que tinha, o de hoje também me cai bem.
    Um beijinho
    Josi

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