O Homem do Saco

Ilustração: Julio Minervino/Flickr.com

O menino pulava para lá e para cá no grande sofá da sala de espera. Entre uma cambalhota e outra, esbarrava no vaso amarelo da planta de mentira e a mãe ia ficando furiosa. Na terceira vez em que o pé do moleque quase levou pelos ares os óculos do homem carrancudo que esperava ao seu lado, ela lascou: Se você não parar, o Homem do Saco vai levar você embora. O garoto ficou quietinho até a hora em que anunciaram o nome da sua mãe, e os dois entraram no consultório do médico. O terror havia vencido.

Eis o estrago que o medo – sentimento dos mais originais que, se valioso na essência, pode se tornar maléfico – causa na vida de uma pessoa. No caso, uma pessoinha. Será que a imagem construída pelo menino do ‘homem’ e seu ‘saco’ poderia ser comparada ao fantasma da violência urbana ou da perspectiva da falta de dinheiro para um adulto? Uma criança acredita sempre nos seus pais, referência máxima – ou única – na infância. Mesmo que eles lhe digam uma bobagem, digamos, romântica como essa. Convenhamos, quem usaria um saco para raptar crianças?

Eu também conheci o Homem do Saco. Mas para mim ele tinha outro nome. No bairro onde cresci existia um andarilho dos seus quarenta anos, com barba e cabelos longos. Não era feio. Era, sim, muito sujo e mal-ajambrado. Levava nas costas uma trouxa encardida como ele, espécie de saco, onde acomodava suas catações. Daí a fantasia de que ele poderia carregar ali uma criança arteira ou desobediente. Além de significar uma ameaça terrível para as crianças do pedaço, em casa ele ainda tinha o estigma de não ser um cara legal. Quando tocava a campainha para pedir comida ou dinheiro, minha mãe dizia: Ih, é aquele chato. E ele virou o Homem Chato. Lembro direitinho do pavor que eu sentia quando o via no portão. Levei anos para descobrir que não cabia uma criança naquele saco.

A estratégia do medo, transmitida oralmente por gerações, tem lá seus méritos e dá resultados até hoje – o garoto da sala de espera tornou-se um anjinho em segundos. Talvez esse medo seja importante e faça parte do amadurecimento. Mas será que o preço não é alto? É mesmo na base do medo que se controla alguém? Por quanto tempo? E com quais consequências?

Medo é como vento: dependendo da intensidade, velocidade e direção, pode ser devastador. Ou paralisante. Medo de errar no trabalho, de não acertar na roupa. De falar em público, de pagar mico, do que os outros vão pensar. De atrasar, de esquecer, de lembrar, de rir, de chorar. De engordar, de cair, de tentar. De ouvir não, de dizer sim, de dançar, de telefonar no dia seguinte. De casar, de separar. De dar o braço a torcer, de não dar conta, de perdoar, de mudar, de voltar. De quebrar, de machucar, de perder o emprego. De ficar doente, de morrer, de partir. Medo de amar, como aquela canção eternizou.

A mãe do garoto nem imaginava o que estava fazendo com seu filho. Pudera: ela própria deve ter tido, na infância, seus pesadelos com o Homem do Saco, fosse ele chato ou não. Mas, cá entre nós: cambalhota na sala de espera também já era demais.

Nota: não encontrei nenhum link de “O medo de amar” (Beto Guedes/Fernando Brant) para colocar aqui. O Homem do Saco deve ter levado todos.

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13 responses to “O Homem do Saco

  • iara

    O medo tem sempre um lugar reservado na nossa vida. Medo de errar, de não conseguir alcançar obectivos, medo de passar vergonha. E o mais importante é encarar esse medo que anda sempre ao lado da consciência para termos coragem de chegar onde queremos. Julgo que a falta de medo é sintoma ou de uma auto-estima sem tamanho ou de depressão. Quem não tem medo não tem nada a perder.
    Já nas crianças acho uma maldade imprimir terror no dia-a-dia para conseguir melhor comportamento ou que comam todo o almoço. Se ameaçarmos tirar a Playstation eles não vão ficar assustados o suficiente??

    Gostei muito do post. beijos!

  • Rafa

    Nem dá pra imaginar o estrago que o Homem do Saco faz na vida da gente, né… No meu caso, também tinha a Maria Engomada…

  • silmaraemutah

    Rs… que nao e bom falar do homem do saco nao e, mas que foi engracado foi. Nao e que ele parou?

    Queria estar mais avancada nos puxoes de orelha. Porem confesso que outubro e um otimo mes pra comecar a lembrar o filhote de 4 anos que o Papai Noel esta vendo tudo.

    Apesar que isso nao seria uma ameaca vazia. O Papai Noel sou eu, e “ele” realmente esta vendo tudo.

    Mas tenho sim outros exemplos que precisam ser transformados.
    Aos poucos a gente vai moldando essas argilas inocentes em seres humanos amedrontados e inseguros.

    Que tal um: se voce virar outra cambalhota, eu nao sei o que vou fazer? rsss.

    Alguma outra sugestao mais eficiente? Viu que to precisando ne? Falando em pais incompetentes…

  • Bel

    Eu achei que tinha comentado aqui…
    Eu não tinha medo do Homem do Saco, porque todos os “doidos” da minha infância eram inofensivos. E minha mãe não fazia esse tipo de maldade. (As maldades dela eram outras…)

    Bjo!

  • Noéle

    To rindo até aqui, porque ontem mesmo, familia reunida para comer bolinhos de chuva e tomar suco de acerola, estavamos falando nesse respeito conquistado de pais com filhos e filhos com os pais. Eu tenho uma filha linda, de um ano e três meses e tento na conversa, nas músicas e nos puxões de orelhas ser o menos tirana possivel, afinal não fui criada assim, com medos e podas, mas passar isso pra frente tb não é facil.

    Eita homem do saco…

    Bjos

  • monica paiva

    Esta mãe deve fazer um curso de liderança, não colocar medo nas crianças.
    Mas nós tinhamos também um homem que nos fazia ficar amendrontados. Era o…. esqueci o nome, mas era porque mamae achava que ele era tarado. E então nos amendrontava para não ficarmos perto dele.
    Com carinho Monica

  • Laély

    Silmara, o que aborrece mais, é ver que pela incompetência de certos pais em se fazerem respeitar, tentam obter controle através de ameaças vazias!
    Nada mais desagradável do que precisar examinar uma criança, aos berros no colo da mãe, que avisa:”se não ficar quieta, a médica dá uma injeção”! Ao que eu, logo trato de retrucar: “nada disso! Não me culpe por essa história!”

  • Eloína

    O medo – travestido ou não de homem do saco – faz, de fato, estragos em nossa vida… Ao refletir sobre isso, com base em seus pensamentos pontuais, começo a achar possível que ele tenha me afastado da minha paixão maior – a escrita…
    Seus textos inspiram – e mais! – encorajam!

  • Camila

    Medo é um assunto difícil de falar. Uma vez li algo que dizia que o medo pode nos mover. Uma música, lembrei: Afinal de contas,
    o que nos trouxe até aqui, medo ou coragem? (Engenheiros do hawaii)

    Quanto ao homem do saco, não tive muito problemas com ele. Já com o “Jesus tá vendo” foi mais difícil lidar.

    Comecei a estudar textos publicitários, Sil. Lembrei de você na hora.

    Beijo com carinho

  • Luci

    Pura verdade. Eramos criados com diversos medos, era a melhor forma de nos controlar. Quando alguém mais velho me dizia que no tempo deles respeitavam mais, sempre dizia que não, que na época deles se tinha era muito medo.
    Sabe que eu percebo que um dos maiores erros era a relação com Deus. Éramos criados com medo dEle. Tudo Deus estava vendo e ía castigar. Quando na verdade é um Deus de amor que deveríamos respeitar, assim como as pessoas, e nos sentir protegidos e amados por Ele.
    Sim, nos tornamos adultos medrosos e é bem difícil ir acabando com cada um dos nossos medos.
    Mais respeito e menos medo, né mesmo?

    beijo e um ótimo final de semana!!

  • marina monteiro

    medo que dá medo do medo que dá!

  • Ana Paula Monteiro

    Ai Silllll,
    vc é muito legal. Minha pequetita ainda é muito pequena para eu engatar um “olha o homem do saco” nela. Mas, ficou o alerta. Para eu refletir sobre a educação que pretendo dar à ela. Já venho pensando em alguns aspectos e, agora, vc dá mais uma contribuição.
    Menina, vc tem noção de como tem influenciado nossas vidas??
    Continue.
    Beijos em seu coração
    dessa vez,
    nós duas.

  • paula mello

    Não acredito no medo, mas também passei por isso na infância e hoje crio meus filhos tentando (eu disse tentando) fazê-los entender a necessidade do respeito…Nem sempre funciona, mas às vezes sim, e é maravilhoso!
    Quanto à música, a Elis não cantava também? Ah, saudade da Elis, meu Deus…
    Beijos!

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