De volta para o futuro

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

[Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.]

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11 responses to “De volta para o futuro

  • Rafa

    Pois é. Conta pra ela que as pessoas não se empenhavam tanto com a coleta seletiva e que eram feitas bolsas com sacolinhas plásticas, na intenção da reciclagem. Ela vai surtar!

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  • Taffarel Brant

    Hahah! só por esta vez usou chapinha!

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  • Ana F.

    Eu me lembro de quando ainda haviam carros na rua – coisa mais primitiva, um troço de uma tonelada para carregar uma pessoa. E dos bancos, vc lembra? O dinheiro era seu, mas vc tinha que entregá-lo a uma empresa e ainda pagava taxa se quisesse retirar de lá!
    Tempos que não voltam, felizmente!

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  • Laély

    Puxa, que bom seria se no futuro pudéssemos nos lembrar de tantas coisas ruins, como se fossem coisa do passado!

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  • Romina

    Silmara,

    Mais uma vez fico cheia de alegria com um texto seu. Mas será que seremos tão arrependidos assim e conseguiremos crescer um pouco? Tenho grande experanças…e espero que minha filha assuma os cacho com mais orgulho do que eu (rs…),

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  • Ivana e miudim

    Silmara,

    Nessa sexta-feira meio tristonha, em que eu já sinto os efeitos da partida dos meus pais, vc conseguiu, mais uma vez, me fazer viajar com as suas palavras e deixar o meu dia um pouco mais leve…

    bj e bom fds

    Ivana (tete)

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  • Layla Barlavento

    Fomos tirar uma foto na casa de meu avô com a velha e boa yashica de sempre. Com direito a filme de 36 poses viu? Mal batemos a primeira, meu filho hoje com 9 anos, olha pra voinho e fala: “Bibi, deixa eu ver como ficou!” Indignado meu avô diz: “Neto, não uso essas modernidades, aqui só depois que revelar o filme, é mais divertido. A festa dura até depois que acaba!” Sábio não?

    Beijos na alma!
    Layla Barlavento

    http://culpadowalter.blogspot.com

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  • forcefool

    Mesmo as coisas em partes serem melhores ainda tem muitas coisas que dão aquela saudade dos velhos tempos, ouço as histórias de quando minha mãe era criança e acho que até meus olhos brilham quando ela vai contando suas histórinhas coisas que nunca poderei viver já não é mais a mesma coisa.

    beijos suaves…

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  • Iêda Ferreira

    Andei falando de nostalgia, que é diferente de veneração ao passado. Andei atenta ao dia-a-dia, mas não indiferente à história. Aí, li esse seu texto… Acho que tem tudo a ver. Se não acredita, vai lá pra ver: http://zenhumorado.blogspot.com

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  • Joseliane A. Stanger

    Sil.
    Teremos um futuro onde nos envegonharemos de muitas coisas diante de nosso netos, infelizmente. Quando vamos ao museu, nos admiramos com algumas coisas simples ou com engenhocas esquisitas de antigamente eram usadas pra fazer coisas que hoje não teria o menor sentido… como os primeiros telefones, ou as engrenagens de um relógio, sei lá, tantas coisas… a cada vez nos cresce a impressão de que tudo vem pronto, acabado, que a confecção de um produto não necessita mais do mesmo processo de antigamente, parece que ninguém mais faz, e sim transforma. Como nos desenhos e nos filmes, tudo é fruto de uma transformação mágica… Deveríamos repensar nosso tempo, pois do contrário sobrarão tão poucas coisas pra por num museu, que temo pela extinção desse espaço que quando éramos criança, era tão bom de se visitar…
    eu usei chapinha uma vez…
    espero não usar mais, quero encaracolar meus cabelos…
    usei “bobs”, muitas vezes e isso era coisa engraçada pra por num museu…

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  • Ana Paula Monteiro

    Sil.
    que viagem. Que delícia.
    Bom, eu pelo menos poderei me gabar de nunca ter usado chapinha..r..rs.
    Hoje a Letícia completa 1 mês. Vai ter bolo com cobertura de brigadeiro, coca-cola e plaquinha para tirar retrato.
    Ah…e a Sissi em cima da mesa para cantar parabéns com ela.
    Beijos em seu coração.
    Ana

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