Carta genérica para um bebê

Algumas pessoas têm me pedido para reproduzir esta cartinha, mudando o destinatário, para dar à filha, ao sobrinho, ao filho da amiga. Claro que pode! Só que a carta original, para a Letícia, tem detalhes que são só para ela. Então, para facilitar, reescrevi algumas coisas e criei esta “Carta genérica para um bebê”. Fiquem à vontade para copiá-la. Ficarei feliz. (E se puderem dar o crédito, melhor ainda.)

Bebê,

que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. A cara de bobo do seu pai quando olha para você. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta.

Vai por mim.

Um beijinho,

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12 responses to “Carta genérica para um bebê

  • Mary

    Muito lindo! Tão simples e tão profundo…. até chorei! Tão lindo que fiquei com vontade de reforçar meu eterno amor aos meus filhos, às minhas netas e aos próximos que chegarem! Eu espero que eles (os meus netos) lembrem com um pouquinho do amor que sinto por eles, do galhinho da “árvore família” que eu também represento e, que eles também possam enviar essa cartinha aos seus amores!

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  • isabelnascimento ISABEL

    Ai, Santo face! através da rede social, de uma amiga, cheguei nesse texto lindo! Vou suar, abusar dele, pois sou Educadora e gosto de passar uns textos para os pais(textos legais!) a-do-rei!! e claro! sempre colocarei os créditos!

    Um grande abraço.. BEL (SANTOS- SP)

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  • Carta Genérica para um bebê | Sling - Kika de Pano

    [...] Bebê, que bom que você está de volta. Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer. Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos de volta. Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco. É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso. Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta. As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho. Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve. Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite. Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você. Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. A cara de bobo do seu pai quando olha para você. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, só mesmo o amor. Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça. Por fim, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta. Vai por mim. Um beijinho, Extraído de: Fio da Meada, Blod de Silmara Franco [...]

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  • Daniele

    Sil, depois de 4 anos estou novamente grávida….e com todo carinho vou dedicar sua cartinha para o meu bebê…

    será publicada no blog no dia 09…passa lá p dar uma olhadinha…

    beijocas
    dani

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  • Raquel

    Que texto lindo. Meu trecho preferido: “Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você.”

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  • Rafa

    Minhas duas amigas grávidas que me aguardem! hehe

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  • Sheyla Guedes

    Zuzu, você é linda. Amo os seus textos, e me emociono muito com eles, este em especial. Saudades de você. Bjs de amiga sumida mas ainda amiga.

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  • Lu Neiva

    Oi Silmara… recebi seu e-mail-resposta hoje com grande surpresa! Das boas!! Achei de uma delicadeza ímpar vc ter respondido um comentário sincero sim, mas super-hiper simples e correiqueiro. Puxa, obrigada. A carta genérica ficou linda tb. Certa vez eu fiz uma carta parecida para um filho de uma grande amiga (pasme, virtual) cujo filhote nasceu e vive com ela nos EUA, quando eu moro aqui, em Brasília. Ela gostou muito tb. Um dia te mando… um beijo, Lu.

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  • Mônica

    Lindo, quando eu estiver grávida vou usar sim e com os devidos créditos.
    Não me canso de gostar dos teus textos.

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  • Noéle

    Você e esse gigante coração ne mocinha

    Mil bjos

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