Rostos
29 ago 2009 19 Comentários
em Poesias Tags:revistas, sociedade
Ilustração: Isaac Nazal/Flickr.com
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Na revista colorida
Sem índice nem número de página
Há sempre alguém se casando
E um fulano que se separou.
Há a mulher que vai ter bebê
Perto da outra que acabou de ter um
Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.
Há uma família feliz em férias
Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.
Há alguém querendo aparecer
E outro que faz de tudo para se esconder.
Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada
Ao lado da que deveria ser esquecida.
Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação
Surge um beijo sem foco
Uma pose sem graça
E uma legenda sem ambição.
Há recém-apaixonados
Com grandes chances de se desapaixonarem
Até a próxima edição.
Uma traição aqui,
Outra reconciliação ali
E nada que altere a vida.
Sempre tem foto de quarto feito para tudo, menos dormir
Em algum apartamento deslumbrantemente falso
Ou num castelo de mentira
Onde mulheres posam em sofás de aquarela, com pezinhos esticados.
São bailarinas de um espetáculo impossível
Com roupas que não amassam, nem criam bolinhas.
Há sempre as confraternizações esquisitas
De harmonia indecifrável
Reunindo alhos e bugalhos
Brincando de ser amigos de infância.
No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem
Ficando fotogênicas e agradáveis.
Ninguém tem problemas.
Ninguém tem cárie.
Ninguém tem saldo negativo.
Nem chulé.
Revistas assim são estranhas companhias para a espera
Do médico atrasado
Da manicure desapressada
Ou do cabeleireiro ocupado.
Eu, entre um cafezinho e outro,
Deixo que elas sentem ao meu lado
E puxem conversa comigo.



set 30, 2009 @ 19:41:51
Silmara, querida
Se importa de eu interpretar esse poema na próxima aula para a tarefa?
Beijos!
set 07, 2009 @ 23:53:54
Amei!!
set 07, 2009 @ 17:14:16
E como é papo de personagens do ”Doriana way of life”?!
set 02, 2009 @ 14:52:10
Tenho a mesma percepção a respeito dessas revistas e dessa exposição de uma realidade montada. Não me incomodo, mas muitos tomam essa realidade pra si e muitas vezes acabam frustrados por não conseguirem materializá-la. Esse é um grande mal da atualidade.
Parabéns pelos textos!
set 01, 2009 @ 12:59:20
Silmara,
Lindo seu texto, real e profundo nessa vida tão superficial que vemos nas revistas… Futilidades não me interessam também, afinal é uma vida irreal, onde roupa não amassa, a comida sempre cai bem, os cabelos jamais enrolam…
Obrigada por esse primor…
Beijos da Marie.
set 01, 2009 @ 09:08:36
Eu gostei do texto.
A gente renasce a cada dia pelaas situaçoes de vida em nosso dia a dia.
COm carinho Monica
ago 31, 2009 @ 22:22:51
Prazer em conhecê-la!
ago 31, 2009 @ 15:28:42
Eu gosto de sua percepção ou visão do mundo.
Elas parecem obvias,mas pelo fato de parecerem ou serem
elas passam batidas nos olhos de muitos e você as capita com perfeição.
adorei mas uma vez
beijos e até mais
ago 31, 2009 @ 11:39:18
Esses rostos de cera, com sorriso falso
essa familia feliz que nunca se desentende
e essa ilha onde essas Caras se expõe
nem me chamando de lindinha me fazem conversar com elas
hehehheheh
amei o texto
bjos lindeza
ago 31, 2009 @ 10:00:42
Óteeemooo, como sempre!!!
Um dia vc me ensina a escrever assim??!!!! rsrsrsrs
Linda, um dia quero te conhecer……..virei sua fã!
Super beijo e uma semana maravilhosa pra vc!
ago 31, 2009 @ 09:06:28
Pois é… de bailarina a mal-me-quer, se vê de tudo nas revistas de esperar… eu levo um livro comigo, e espero com ele.
Um beijinho Sil
e boa semana!
ago 30, 2009 @ 11:42:03
Um brinde (nem que seja com água rsrsrsrs) à vida REAL. Acredito que essa vida maquiada, “photoshopada”, posada e por aí vai, tem colaborado bastante para infelicidade de quem não consegue enxergar além……
ago 29, 2009 @ 20:41:44
Sabe que penso, assim como você? Negócio é o seguinte: não são revistas pra ler, mas para ver e, esquecer em seguida. Já pensou, ficar pensando, frustrada, que não tem essa vida maravilhosa, mostrada por lá, com pessoas sempre tão sorridentes, felizes, esticadas, lipoaspiradas, bronzeadas, plastificadas…enquanto que a gente tá aqui, no mundo real, toda descabelada, pra dar conta de tudo?! Parece fácil, mas não é…
Lembrei da Ciranda da Bailarina, de Chico:
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem…
…Procurando bem
Todo mundo tem…
(Pois, é. Não sou essa bailarina, mas sei dançar conforme a música…)
ago 29, 2009 @ 18:47:51
Incrivelmente real…e belo!!!!
Prazer ler tudo o que escreves!
ago 29, 2009 @ 16:54:26
Engraçado…
Textos nos fazem viajar mesmo… Você aí falando de pessoas de revistas (famosas ou não), e eu aqui vendo a figura dos funcionários que as empresas querem hoje em dia… hahaha (nada a ver!!)
Super homens, ou Batgirls… Perfeitos… Que mais cedo ou mais tarde, fazem um filme que já não é tão interessante assim…
O mais engraçado somos nós tentando nos tornar esse ser solicitado pelo RH. Pena que tenhamos que chegar a maturidade, que geralmente nos dá segurança, para nos apresentarmos como realmente somos… e não como querem que sejamos
É a vida, né??
ago 29, 2009 @ 14:07:44
E eu, que sou bem chatilda no quesito conteúdo inútil) compro a revista Vida Simples para que aqueles que esperam (o que evito, porque detesto atrasar) possam participar da terapia como um bem familiar…
Vez ou outra pego matérias aqui e ali, textos bonitos (já ando te divulgando rsrsrs) e gibi para os pequenos, que alegram e aliviam as dores…
Sabe que as pessoas gostam? Achei que preferissem as tais revistas ‘normais’, mas sempre levam e trazem por causa de uma matéria, sempre pedem cópias ou e-mails com esses conteúdos! Sempre indicam para outros…
Valeu, querida!
ago 29, 2009 @ 11:28:18
Até quando esses padrões e dogmas vão nos perseguir? Sei que nessa sociedade descartável em que vivemos tudo que é novo e belíssimo vai ser ultrapassado em dois segundos. Então pra quê tanto, né? Pra quê tentar copiar e seguir cegamente tudo isso…
Revistas assim são cavernas, como a do “Mito da caverna” e eu quero distância.
ago 29, 2009 @ 09:50:20
Eu vi uma canção nestas tuas palavras.
Fiz até um arranjo mental e imaginei ela sendo musicada pela Adriana Calcanhotto.
E sinceramente, ficaria maravilhoso.
Lindo texto, lindo sábado.
Beijo de carinho.
ago 29, 2009 @ 03:45:56
Olá notívaga!! Sabe que eu não tenho paciência para essas revistas? Elas têm mesmo tudo isso que você falou…Desperdício de papel ou neurose de fãs que não acaba nunca no país que vive de fofoca, em todos os níveis da sociedade??
Pelo menos dão emprego a alguém…
Um fim de semana iluminado!!