Anderson Augusto/Flickr.com
Ontem falei com o vizinho da casa ao lado, não sabia que ele era vesgo. Ficou irritado quando fixei meu olhar no dele para entender melhor aquela vesguice toda. Fui avisá-lo que uma moça havia procurado por ele à tarde, e como ele não estava, bateu aqui em casa, É ali que mora o Artur? Fiquei sem graça de responder para a moça das botas vermelhas. Eu não tinha a menor ideia do nome do vizinho. Embora ele morasse ali há anos. Mudou-se para a nossa rua no dia em que tia Tetê morreu. Era um domingo frio de agosto, um entra-e-sai na nossa casa o dia inteiro. Gente que vinha saber como havia sido, prestar condolências, comer os salgadinhos da Damiana. Foi o único dia em que o vizinho novo falou comigo: Animada, a sua casa!
Tia Tetê morava conosco desde que tio Jaime tinha ficado louco. Ele cismara que ela queria envenená-lo, e então decidiu que faria o mesmo com ela. Fazia suspense com ela: Vamos ver quem morre primeiro? E a tia não conseguiu mais tomar seu cafezinho em paz. Meu pai não se conformava em internar o único irmão. Naquele final de semana de agosto, tia Tetê fora com uns amigos para a praia. Não era acostumada com o mar. Distraiu-se. Acharam seu corpo, inchado e azul. No velório, lembro-me de ter perguntado ao meu pai se ela engolira muitos peixes, para ter ficado daquele jeito. Eu tinha oito anos.
Você é o Artur?, perguntei assim que ele abriu a porta. Já fui explicando, a moça das botas. Ele encostou a porta atrás de si, como se não quisesse que eu visse lá dentro. Como não a fechara direito, espichei o olhar. Apenas um piano encostado à parede. E mais nada na sala comprida com piso de tacos. Aqueles tacos antigos. A moça ficou de voltar, avisei. Ele agradeceu e fechou a porta. Não perguntou meu nome. E eu não entendi como nunca ouvira som de piano algum vindo de sua casa naqueles seis anos.
Um ano depois de tia Tetê, foi a vez do tio Jaime. Ligaram de madrugada em casa. Meu pai sentou-se na poltrona e chorou. No dia em que foi buscar as coisas do tio no asilo, chorou de novo. Dois ternos, sete pijamas, um par de chinelos, duas alianças guardadas num vidrinho de maionese vazio e a bíblia, com metade das páginas arrancadas. Um funcionário contou que antes de morrer o tio cantava sem parar, numa voz miúda:
A canoa virou
Por deixar ela virar
Foi por causa da Tereza que não soube nadar
Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar
Eu tirava a Tereza lá do fundo do mar
Hoje acordei bem cedo. Artur era seu nome, então. Artur era vesgo. E tinha um piano. Pela manhã, estudei na sala, em frente à janela. De plantão, caso a moça voltasse. Depois do almoço, apanhei minha mochila e saí. A casa do Artur estava silenciosa e fechada, como sempre. Assim que cheguei à calçada, um carro estacionou em frente à casa dele. Era a moça. Desta vez, com brilhantes botas pretas. Carregava com dificuldade um pequeno aquário embaixo do braço. Na outra mão, pude ver um saquinho plástico com dois peixinhos dentro. Ela me viu, sorriu e tocou a campainha com o cotovelo. Acenei e apertei o passo. O professor da primeira aula não deixa ninguém entrar na sala depois dele.





ago 01, 2009 @ 00:17:13
Continue com os contos, POR FAVOR!
jul 23, 2009 @ 08:54:43
Uau! e é um conto! Um conto muito gostoso por sinal. Tão bom, que pensei que tivesse acontecido tal qual. rs.
jul 23, 2009 @ 08:50:40
Adorei este texto: a sensibilidade, o ritmo da narrativa, o jeito gostoso de contar uma história pontilhada de sentimentos. Muito bom!
jul 21, 2009 @ 09:04:07
Silmara! Voltei!!
E que bom poder ler um belo “miniconto” seu hehehe, o texto está lindo.
E eu com muitas letras pra contar também… flip, avião, comendadora, Marcelo Tas, mais flip, avião novamente… casa, saudades, e estrada de novo, Santa e bela Catarina, mais estrada…. dez dia longe de casa… e muita coisa pra escrever…. vou fazer isso aos poucos e com calma.
um beijinho
Josi
jul 19, 2009 @ 20:02:18
boa noite Silmara, poxa interessante seus contos, e fiquei feliz por vc ter usado um trabalho meu para ilustrar, obrigado por colocar os creditos, irei acompanhar o blog, se vc precisar de outras artes para ilustrar seus contos entre em contato.
bjos e boa semana
jul 19, 2009 @ 12:10:39
Isso é um conto né?
Como assim a Silmara só tem 14 anos?? Você me assustou.. Nunca tinha visto contos por aqui.
- Pela linguagem, parece muito que é você mesma que está falando.
Legal mudar um pouquinho.
Um grande beijo!!
jul 19, 2009 @ 12:33:00
Mira querida, este eu vou responder aqui, porque mais gente vai pensar isso.
Sim, é um conto. Estou estreando (até criei uma categoria nova). Na verdade, eu sempre quis ser contista. Mas embrenhei por outras paradas. Getting back to where I once belonged.
Este é um miniconto, para ser mais exata. Ficção pura. Claro que um detalhe aqui, outro lá, foram tirados de coisas da minha vida. No mais, pura invenção.
Um beijo para você,
Silmara Franco