Os presos da Dona Balbina

Dona Balbina, ou Vó Bina/Arquivo pessoal

Minas Gerais é terra de gente rara, já disseram. Que, além de rara, costuma ser preciosa como tudo o que dela já se extraiu. Terra de gente colorida. Musical. Charmosa. Efervescente. Original. Generosa. Refinadamente simples.

Dona Balbina é da turma dos generosos. Vó Bina nasceu em 1891, e não teve vida nem um pouco fácil. Viúva aos vinte e sete anos, costurava para a vizinhança sob a parca luz de uma lamparina. Com o que ganhava, alimentava os filhos. Que eram muitos. Mas ela sempre tinha em casa algo para receber as visitas. Geralmente um doce, feito por ela no maior capricho.

Vó Bina conhecia todas as plantas, ervas e segredos da natureza. Dizem que ela fazia um chá para bronquite feito com uns ingredientes esquisitos, que era tiro e queda. Conta-se que um tio, que sofria com a doença, mas jamais aceitara o remédio por achá-lo difícil demais de engolir, nunca se curou. Ao contrário dos demais, que enfrentaram a panacéia numa (quase) boa.

Pena que ninguém se lembrou de anotar seus conhecimentos. Agora é esperar que Vó Bina volte a este planeta um dia (se é que já não está por aqui), e que tenha guardado essa sabedoria naqueles arquivos mentais que a gente carrega de uma vida para outra.

Pelo menos uma vez por mês, Vó Bina gostava de preparar suas ‘quitandas’, como se dizia, para levar a uns moços muito especiais. Eram os presos da cadeia de Pouso Alegre, que nesse dia podiam saborear os pães, os sequilhos e o café fresquinho daquela mulher que, de verdade, se importava com eles. Gentileza improvável nos dias de hoje. Vale repetir: a vida da Vó Bina não tinha regalias. Questionada sobre por que repartia suas coisas quando mal as tinha, ela respondia com uma sabedoria singular: “Assim Deus manda mais”. E para entender mesmo o que a movia, o que ela ganhava com esse gesto, a gente precisa compreender dois fundamentos: um é a compaixão. O outro é a generosidade.

Naquela cadeia, os presos não passavam de uns vinte homens, postos ali por conta de delitos quase prosaicos, como roubar galinhas ou dar uns tapas nos desafetos. Uma categoria de detento que habita nosso imaginário e a gente gosta de pensar que existe: os bonzinhos.

Os presos da Vó Bina não ficavam à toa. Como deveria de ser, eles trabalhavam. Fabricavam brinquedos em madeira – carrinhos, vassourinhas, bonecas – que depois eram vendidos na cidade. No dia da tal visita, uma das netas ia junto. Era a menina quem fazia questão de ir, e nisso havia um interesse: ela sempre faturava um brinquedo.

Eu não a conheci. Dona Balbina é trisavó dos meus filhos, bisavó do meu marido. Enquanto escrevo, olho para seu retrato, tão antigo quanto belo. Penso no dia em que ela tirou essa foto, onde seria esse cenário, em que estaria pensando? Faço uma reverência à sua compaixão, ao seu interesse pelos que tinham menos ainda que ela, sequer dignidade. E outra reverência à sua generosidade: mesmo sem ter, Vó Bina dividia o que tinha. E justamente por viver dividindo, recebia da vida sempre o que lhe bastava.

Seria bom sentar-me ao seu lado no velho fogão à lenha, que não existe mais, e tomar um café com ela.

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10 respostas para “Os presos da Dona Balbina

  • Carlos Henrique

    Silmara, na casa da minha vó tem essa foto original da vó bina meu bisavo é filho dela, vc é de pouso alegre ?

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  • Helena Miranda

    Moro aqui, em Pouso Alegre. Mas conheci Dona Balbina através da sua história. Chamei minha mãe, ela devia conhecer! Afinal, a bronquite do meu irmão caçula foi curada por esse chá. Mamãe não se lembrou. Mas minha avó há de se lembrar de uma história tão bonita! Não vou esquecer de perguntar. Talvez até tenha sido Dona Bina quem ensinou minha vó a fazer o chá que curou meu irmão.
    A internet deixou o mundo pequeno outra vez, não é?!
    Um beijo
    (PS: estou lendo o blog de “cabo a rabo”, como se diz aqui em Minas. COmecei lá atrás, no primeito post, e estou vindo… Gosto cada vez mais!)

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  • Sheyla Guedes

    Zuzu, impossível não se emocionar ao olhar os olhinhos vivos e bondosos da Vó Bina.

    Obrigada por nos lembrar de como é simples a compaixão, basta agir.

    Eita simplicidade mineira…

    Bjs

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  • Cláudia Paulino

    Silmara, que história bonita. Me emocionei. Tem pessoas que a gente guarda mesmo no coração. Tem muita gente boa nesse mundo, antigamente parece que tinha mais… é que hoje em dia todo mundo tem pressa, falta de tempo até pra ajudar os outros.
    Mas vale sempre a pena falar nessas pessoas boas, que se preocupavam com os outros e só faziam o bem.
    Outro dia no meu blog fiz uma homenagem a minha avó materna, uma pessoa que marcou muito a minha vida e que até hoje se faz presente em tantos momentos e pensamentos e lembranças…
    Um beijo grande pra essas mulheres que se foram e deixaram lindas histórias que fazem a gente pensar e repensar a forma como vivemos. Um beijo grande pra vc que escreve lindamente e cativa o coração da gente.

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  • Felipoca

    Sil, fazia um tempinho que não entrava no teu blog. Ando meio aperriado.
    Mas quando vi que falavas da minha trizavó também, não pude deixar de fazer uns esforço pra parar e ler.

    Muito lindo. Gosto tanto do jeito que escreves. Quem dera eu ter esse “dom”…rsrs.

    Muitas saudades de vocês.

    Teu blog é xow!

    beijos.

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  • Dani e Pri

    Silmara querida!

    conheci sei blog ontem e me encantei com seu jeito simples ( e não simplório) de usar as palavras.
    Confesso que passei horas aqui. Lendo, lendo , lendo e entrando no seu universo. Que por muitas vezes se confundiu com o meu.

    E hoje vc me vem com 2 surpresas. A primeira, seu comentário no meu blog. Juro que não esperava! Ameiii! =D

    E A segunda Vó Binha…poxa…acho que vó binha era irmã gêmea de vó mariquinha. A minha avó, que se foi há dois anos e é tão presente em todos os momentos da minha familia. td lembra ela.
    Inclusive a história do presídio da Vó Binha, minha mãe sempre me conta uma situação quase igual com vó mariquinha.
    Mulheres assim, conheço poucas.

    Agradeço a Cris Guerra. Ela me tem levado a pessoas incríveis. Sempre vou no blog dela (mas sou apenas expectadora..daquelas quietinhas, sabe? Pq se eu começar a falar..ahhh não páro mais! rsrsr) e ontem vi seu link lá….

    =D

    Ahh, muitooo obrigada pelos elogios ao blog. Eu e minha irmã fazemos td aquilo com um amor imenso. E as peças estão a venda sim. ´Muitas peças que tem no Blog ainda não tem no catálogo virtual. Mas logo, logo estarão lá e você poderá escolher a vontade.

    Enfim…

    Um beijo grande e tenha certeza que ganhou mais uma leitora fã.

    Flores pra vc , querida!

    Dani
    e
    Pri

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  • Ana Paula Monteiro

    Silmara….

    Um post começando com tantos elogios para quem é de Minas..rs..rs.

    Muito bom. E essa tal generosidade e delicadeza que andam tão em falta no mundo de hoje…Tenho pensado muito nisto. Nestes valores meio esquecidos que quero passar para minha filha.

    Beijos

    Ana

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    • Marcella Braga

      Oi, Silmara!
      Muito bom ler um comentário seu no meu blogue.
      Seus textos são muito bonitos e muito delicados, é uma honra poder citá-los por lá.
      O “Chega de cinza/Be sure to wear some flowers in you hair” fala de idéias que vivo defendendo. Muito especial!!
      Beijos

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  • Simonne Almeida

    Silmara, deu vontade de me juntar a você e à Vó Bina, no fogão à lenha, e beber esse café bom e sorver a sabedoria delicada dela.

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  • Joseliane A. Stanger

    Temo pensar que a generosidade seja uma atitude antiga, ande fora de moda e que esteja em extinção. Temo pensar pois tenho dois filhos e procuro ensiná-los que nada custa ser gentil. Sempre digo que o mais importante é se colocar no lugar do outro. É simples demais, é difícil levar essa prática pro dia a dia… Muitas vezes, só julgamos a acabamos por deixar a nossa volta a marca nodosa da estupidez. São só palavras, mas palavras que pesam, ora pra um lado, o do bem, ora pro outro. Palavras podem ser brasa, ou brisa. Basta um gesto na palavra, para fazer sorrir ou chorar. A escolha é nossa. E isso poderíamos aprender com as avós e bisas e tataravós, mas muitas delas já se foram daqui. Ficaram as histórias e as lembranças. Agora, pensando daqui pro futuro, nós seremos avós, bisas quem sabe tataravós diferenes… um pouco do que temos pra ensinar, está aqui… esta será nossa memória, basta escrever e basta que sejamos lidas depois…
    musiquinha de hoje.

    Simplicidade – Pato Fu (banda mineira que eu adoro)

    Vai diminuindo a cidade
    Vai aumentando a simpatia
    Quanto menor a casinha
    Mais sincero o bom dia

    Mais mole a cama em que durmo
    Mais duro o chão que eu piso
    Tem água limpa na pia
    Tem dente a mais no sorriso

    Busquei felicidade
    Encontrei foi Maria
    Ela, pinga e farinha
    E eu sentindo alegria

    Café tá quente no fogo
    Barriga não tá vazia
    Quanto mais simplicidade
    Melhor o nascer do dia

    Só pra lembrar que a felicidade está nas pequenas coisas, nas mais singelas, nas mais importantes. Sorriso largo, abraço apertado, aperto de mão seguro.

    Até mais Silmara!

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