Coisas de Campinas

Estação da Estrada de Ferro de Campinas/SP, 1872

Bons ventos me trouxeram a Campinas, no início desta década. Mudança até que simples, posto que São Paulo é logo ali. Mas a proximidade e as semelhanças não me dispensaram de uma fase de adaptação. É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi.

No começo eu me embananava com alguns nomes. Quirino, por exemplo. Nunca vi cidade com tanto Quirino. Tem santo, coronel, doutor, escola. Tirando o santo, os demais pertencem à mesma família, e tive que decorá-los para não ir parar no lugar errado.

Em Campinas, as vias são carinhosamente chamadas pelos seus apelidos. Como só os mais íntimos chamam pelo apelido, concluí que o campineiro tem uma bonita relação familiar com a cidade. Mas para se chegar aonde quer, além de decorar os logradouros, é preciso também decorar os apelidos. Nessa hora, um mapa pode não ter serventia alguma. Quer ver?

Você conhece a Rodovia Miguel Noel Nascentes Burnier? Provavelmente não. Mas Avenida da CPFL você sabe qual é. Estrada dos Amarais: todo mundo sabe onde fica. Mas tente perguntar como chegar à Rua Silvia da Silva Braga, seu nome oficial. As pessoas vão coçar a cabeça e olhar para o horizonte com aquele ponto de interrogação estampado no rosto. Tapetão? Nada a ver com decoração. É só o nome da Rodovia General Milton Tavares de Souza, que liga Campinas a Barão Geraldo, Paulínia e Cosmópolis.

Um dia, logo que cheguei, precisei ir ao Balão do Castelo. Mapa em punho, estudei o trajeto e lá fui eu. Crente que iria ver um… castelo. Cheguei ao local, e necas de avistar nenhuma construção majestosa. Dei mais uma volta. Na segunda, concluí que já estava nele. Um pouco decepcionada, confesso. O Castelo não se parecia com nenhum castelo dos contos de fadas. Mas é de lá que se tem uma das mais belas vistas da cidade.

Quando vi pela primeira vez aquela construção imponente, cor-de-rosa, próxima ao Castelo que não é castelo, quis saber do que se tratava. Já informada, achei que fosse brincadeira. Afinal, não fazia muito sentido uma Escola de Cadetes daquela cor. O motivo do questionável tom nenhum campineiro conseguiu me explicar ainda. Mas é assim e pronto. E sabe que, com o tempo, passei a achar a coisa até meio charmosa? Diferente.

Avenida Heitor Penteado. Simples, não? Não. Como ela contorna toda a Lagoa do Taquaral – leia-se Parque Portugal –, para chegar a um endereço nela é preciso ter também uma referência. Caso contrário, será necessário dar a volta completa para achar o que se precisa. É de deixar doido qualquer migrante. Ou com peso na consciência: todas aquelas pessoas fazendo suas caminhadas e você, prometendo a si mesmo há anos começar a se exercitar.

Outra. A Avenida José de Souza Campos, mais conhecida pelos pontos cardeais que indica – Avenida Norte-Sul –, frequentemente é confundida com outra avenida, continuação dela (ou será o contrário?), também relacionada a outro ponto cardeal: a Princesa D’Oeste. Que de princesa não tem nada, pois não existe um reino chamado Oeste. Acontece que Campinas é ternamente considerada pelos seus habitantes uma ‘princesa’ do estado de São Paulo, espécie de menina dos olhos, que fica no sentido de onde o sol se põe. Poético.

Tem mais: para ir às tais avenidas dos pontos cardeais é preciso passar pelo Laurão. Opa. Laurão? Seria uma espécie de guardião do cruzamento? Que nada. É o apelido do Viaduto São Paulo, inaugurado em 1977 durante a gestão do prefeito Lauro Péricles Gonçalves.

Conta a lenda que apenas 30% da população da cidade é de campineiros legítimos, ou seja, nascidos neste solo. O restante teria vindo parar aqui por conta das universidades, das oportunidades de trabalho, da qualidade de vida. Aliás, qual seria o correto, campineiro ou campinense? A questão dá pano para manga. No século passado, achou-se que ‘campineiro’ seria um termo mais adequado para representar o trabalhador do campo. E que ‘campinense’ ficaria mais bonito. No entanto, esse último gentílico já teria dono, ou melhor, donos: os habitantes de Campina Grande, na Paraíba. Como o povo daqui já se acostumara à primeira opção, ficou campineiro mesmo. O que, no final das contas, não faz a menor diferença.

Os campineiros têm motivo de sobra para se orgulhar da cidade. Ela é maior (em todos os sentidos) do que muitas capitais de estados e uma das principais cidades do interior paulista. Ops, não pode dizer que é interior. Explico: para boa parte da população Campinas não é interior. Já ouvi muita gente daqui contar o que fez no feriado: Fui para o interior. Nesse caso, valeria a pena relembrar um pouquinho as aulas de geografia. Dentro de um estado, um município pode estar em uma dessas localizações: capital/região metropolitana, interior ou litoral. Visto que Campinas não tem praia, nem é a vizinha capital, a boa notícia é que estamos… no interior. Quando me mudei para cá, inclusive, fui orientada a jamais contrariar os campineiros nesse assunto. Para não ter briga. Mas não entendo que briga poderia haver, já que não enfrentar horas no trânsito, nem fila para tudo, é coisa das mais bacanas.

O Caminho dos Goiases, como a terra foi primeiramente chamada pelos Bandeirantes no século XVIII, nem imaginava aonde chegaria. E é preciso registrar: esta cidade me acolheu com tanto carinho, que hoje me sinto uma campineira. Ou campinense. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Pelo menos por enquanto.

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14 respostas para “Coisas de Campinas

  • Mônica

    Nasci em Campinas (hoje moro em Valinhos) e nunca tinha percebido estas particularidades nossas! Lendo o seu post “conheci” os nomes reais das rodovias e avenidas!! Interessante!! Vou verificar com o meu pai, com minhas irmãs e o com meu esposo se eles têm noção dos nomes reais dos lugares de Campinas…vai ser divertido!! Beijos

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  • Kleidisson

    Detalhe é que a academia de letras chama-se “Academia Campinense” de letras. fica entre o bairro do botafogo e o centro, próximo à avenida Senador Saraiva.

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  • Sergio W Vianna

    Ola Silmara, adorei sua posição e respeito a Campinas, tenho minha opinião como a sua respeitar e gostar da cidade onde mora mesmo não sendo dela.Sou Campineiro Nato AMO E ADORO MINHA CIDADE, sei que ela tem varios problemas mas mesmo assim pela sua historia como o seu regurgimento das cinzas apos uma enorme peste ter dizimado com quase 85% de sua população e hoje é maior que varias capitais e sua RMC ser a oitava maior do BRASIL

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  • K

    Adorei seu post! Muito bom mesmo; dá vontade de ir conhecer todas essas particularidades agora mesmo…

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  • Airton de Oliveira

    EU GOSTARIA DE ESCLARECER QUE O A CONSTRUÇÃO MAJESTOSA PERTO DO BALÃO DO CASTELO, É A ESCOLA PREPARATÓRIA DE CADETES DO EXÉRCITO BRASILEIRO, E A COR ROSA FOI UMA EXIGÊNCIA DA DOADORA DAS TERRAS EM QUE FOI CONSTRUÍDA A ESCOLA DE CADETES.
    SEGUNDO PONTO: O PONTO MÁXIMO DA CULTURA E DA LÍNGUA PORTUGUESA EM CAMPINAS CHAMA-SE-SE “ACADEMIA CAMPINENSE DE LETRAS” E NÃO CAMPINEIRA. PORTANTO QUEM NASCE EM CAMPINAS É CAMPINENSE. NÃO TEMOS NADA A VER COM A OUTRA CIDADE EM QUESTÃO.
    PS: CAMPINAS AGORA NÃO É APENAS UMA SIMPLES CIDADE, MAS UMA METRÓPOLE. PARA ORGULHO DOS 30% DE CAMPINENSES.
    INFELIZMENTE EM 1889 A FEBRE AMARELA CHEGOU EM CAMPINAS, COM 40 ÓBITOS POR DIA. 3/4 DA POPULAÇÃO DEIXOU A CIDADE, NUM TOTAL DE 20.000 HABITANTES. HOUVE 2.000 ÓBITOS, FORA OS QUE FALECERAM EM OUTROS LUGARES.
    AIRTON DE OLIVEIRA ” ORGULHO DE SER CAMPINENSE”
    CAMPINAS – SÃO PAULO – BR

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  • Maria Valéria

    Moro em Campinas há 2 anos, e também me confundia com os apelidos dados às ruas… ehehehhe…!!! Tem muita coisa que não conheço da cidade e tem lugar que ainda tenho medo de ir sozinha de carro por medo de me perder… rs.
    bjs

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  • Marcia

    Sou de Campinas, mas moro em Salvador há 29 anos.
    A familia td dai e estou sempre por ai, achei mto legal sua cronica e fiquei envaidecida por ser camnpineira, adoro minha cidade.
    abraços

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  • Bruna

    Amei o texto, você pegou várias particularidades de Campinas!
    Isso dos apelidos é verdade, como o Brunno Frigo disse. E a escola de cadetes rosa, eu já ouvi a mesma história que a Ana, e é essa que conto qndo me perguntam por que é rosa.
    Ah, quem nasce em Campinas é Campineiro e quem vem de fora é Campinense.
    Bjus =*

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  • Léia

    Olá Silmara, Amei seu blog, moro em Campinas há 13 anos, nasci em Cosmópolis, bem aqui ao lado e sempre vinha a Campinas desde criança, então me mudei para cá quando me casei, me considero campineira.
    Pelo que sei a cor rosa da Escola Preparatória de Cadetes do Exército tem um motivo nobre. De acordo com o coronel Cappellano, o arquiteto responsável pelo projeto da instituição, Hernani do Val Penteado, pediu que as cores originais da Fazenda Chapadão fossem mantidas para que sua memória fosse preservada. A tonalidade original era feita com barro, óleo de baleia, pó de ostra moído e cal. A partir dos anos 70, o material foi trocado por massa industrializada.

    Adoro morar em Campinas, e como vc ” Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Pelo menos por enquanto”.
    BJS Léia.

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  • melke

    Andar de ônibus sempre rende boas histórias. Certa vez, passeando pela cidade citada comecei a reparar na conversa de dois senhores. O tema: A cor da escola de cadetes. Se a história é verdadeira, duvido muito, mas o que vale é não se saber o que é verdade em muitos casos. Em certo ponto um falou: A escola é rosa porque em caso de um ataque inimigo, aéreo principalmente, vão pensar que é uma escola de civis, uma creche ou coisa parecida aí não vão atacar lá. Curiosidade a parte… para mim não passou de bobagem, mas histórias e estórias existem…
    Grande Abraço

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  • Ana

    oi, silmara!

    estou com seu blog aberto nas minhas “abas” há dias, e vou lendo aos pouquinhos. que achado!

    moro em campinas há uns 20 anos, e acho esta cidade um charme só.

    quanto à cor da escola de cadetes, uma vez ouvi dizer que ela é rosa por causa da promessa feita ao fazendeiro que doou as terras ao exército: esta seria a cor favorita de sua falecida esposa, e a casa não deveria ser pintada de outra cor. não tenho como confirmar, mas aceito pela beleza da história.

    um beijo para você. acaba de ganhar uma fã.

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  • Brunno Frigo

    Olá, Silmara! Que bacana encontrar um blog vizinho (também de Campinas). Visitarei mais vezes, sempre que puder!

    E, como campineiro, gostei de modo particular deste “Coisas de Campinas”. Gostei mesmo! Tem algumas outras coisas que você não colocou nesse post, talvez por já ter falado de muitas particularidades campineiras.

    Por exemplo, há aquele agradável (na minha opinião) local de Campinas que se chama oficialmente “Praça Imprensa Fluminense”, mas acho que muita gente nem saberia qual é. Mas, se falar “Centro de Convivência”, aí todos sabem (“ahhh, ali ao lado do City Bar”). Temos ainda o “balão da Bosch”, apelido dado ao anel viário no entroncamento da Rodovia Anhanguera com a Rodovia Campinas-Monte-Mor. Tem o caso da “Av. Albino José Barbosa de Oliveira”, popularmente conhecida como “Estrada da Rhodia”. E por aí vai…

    Mas, mesmo que isso seja de fato muito frequente em Campinas, os campineiros muitas vezes não percebemos. Acho que só mesmo alguém que vem de fora para observar esses detalhes. Afinal, nós campineiros já estamos acostumados.

    Afinal, todo campineiro (ou quase todos) diria “Aí você pega a Norte-Sul em direção à Princesa D’Oeste, até passar por baixo do Laurão…” ao invés de um estranhíssimo “Aí você pega a Av. José de Souza Campos em direção à Princesa D’Oeste, até passar por baixo do Viaduto São Paulo…”

    Embora eu seja suspeito para falar (como campineiro), gosto muito daqui. Campinas é uma mistura de “cidade grande” com “recantos de interior”. Ao contrário de muitos campineiros, não acho ruim quando dizem que “aqui é interior”. Concordo com você, ser do interior tem muitas vantagens.

    Um abraço e parabéns pelo texto!

    Brunno – http://olharmutante.wordpress.com

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  • Lili

    Si, amei seu blog, Parabéns! Quem diria que a paulistana da Moóca, nascida e criada, escreveria tão bem sobre Campinas.
    Sempre que eu puder, darei uma passadinha pelo Blog.
    Beijos.
    Lili

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  • Elan

    Oi, campineira/campinense! Não venho aqui sempre, mas quando apareço, boto a leitura dos seus textos em dia. Claro que gosto de todos e volto. A paulistana aqui “adotou” São José dos Campos (ou ela me adotou!) há duas décadas e parece que sempre vivi aqui. Assino embaixo a maravilha de estar no “interior” convivendo com a falta de trânsito e de filas… coisas que, definitivamente, não nos fazem falta nenhuma, heim?? Bj, em vcs. Elan.

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