All You Need Is Love (ainda sobre as gentilezas)

Ninio Romantico/Flickr

I

Um dia o Carlos, meu cunhado, chegou em casa com um presente para minha filha. Era uma enorme tartaruga de pelúcia cor-de-rosa. A tartaruga tinha um zíper na barriga, e nela quatro ‘ovinhos’ feitos de pano. Dentro, os filhotinhos. A tartaruga poderia ficar grávida e não-grávida, e as tartaruguinhas nasciam quantas vezes a gente quisesse. Era só colocar os bichinhos de volta na barriga e começar a brincadeira de novo. Enquanto minha filha se divertia com a novidade, meu cunhado revelou: Eram cinco ovinhos. E cadê o outro?

Foi assim. O voo estava lotado. Uma mulher estava com sua filhinha pequena no colo, que chorava sem parar. A mãe tentava distraí-la, cantava, contava histórias e nada. Os passageiros – meu cunhado, inclusive – já se incomodando com a situação, mas fazer o quê? Criança não quer nem saber, quando quer chorar, chora mesmo.

Foi quando o Carlos teve uma ideia. Pegou a tartaruga que estava embrulhadinha no bagageiro, e não teve dúvidas. Ou melhor, teve, mas era um quase caso de vida ou morte. Ele abriu-lhe a barriga, retirou um dos ovinhos e o deu à menininha. Como num passe de mágica, ela abriu um sorriso e parou de chorar. E todos viveram felizes para sempre.

Está certo, meu cunhado teve outra motivação, além da compaixão: o desejo de viajar em paz. Mas tirante isso, o gesto foi, no mínimo, uma gentileza das boas. Capaz de fazer a diferença na vida daquela garotinha, naquele momento. E da sua pobre e desesperada mãe. Eu, que não sou pessoa das mais gentis, tenho aprendido nos últimos tempos: todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém, sempre. Algo simples, que não nos tira do caminho, não nos atrasa e não nos onera. Juro: a vida fica melhor assim.

Minha filha adorou o presente com o bichinho a menos. Até porque ela nem sabia da quinta tartaruguinha – que deve estar até hoje na casa da menininha.

II

Existe um lugar na blogosfera chamado Crônicas de uma menina feliz (não faço o link aqui de propósito, só mais adiante). A dona dele, uma brasileira que vive na Alemanha, dedica-se a uma atividade singular. Ela faz desenhos para os outros. Mas não são simples desenhos. Quero dizer, são desenhos simples, que ela própria chama de ‘bobinhos’, mas que não são nem um pouco simples na sua natureza. Ela desenha a vida das pessoas. Gente que ela nunca viu na vida lhe manda histórias de suas infâncias, contando suas doces memórias, e ela põe tudo no papel. Depois, todo mundo pode ver na tela. Às vezes, ela fica sabendo de uma história (triste ou feliz), se comove, e lá vai ela desenhar. Com um capricho de dar gosto.

Quando encontrei esse site, absolutamente por acaso, resolvi lhe mandar algumas das minhas histórias, assuntando se ela não gostaria de desenhá-las. E não é que ela gostou da ideia? Antes, fez uma espécie de entrevista comigo: quis saber como eram meus pais, meus irmãos, que roupas eu usava quando criança, como era a casa onde cresci.

Quando vi o post de hoje no seu site foi impossível não ficar com os olhos rasos d’água. Fiquei impressionada, e comovida, com sua habilidade para captar os detalhes do que lhe contei, das fotos que lhe enviei, traduzindo tudo em desenhos transbordantes de carinho e delicadeza. Como se as pessoas da minha família (até o gato) fossem seus velhos e queridos amigos. Ganhei mais um presente diferente e bom este ano, além dos que eu já contei aqui dias atrás.

Essa moça é uma verdadeira retratista de boas lembranças. Ela doa seu tempo e sua energia, simplesmente para fazer um agrado. Pensei com os botões: por que uma pessoa faz isso? O que move um desconhecido a nos endereçar tamanha gentileza? Sim, porque podemos ser gentis com quem está à nossa volta. Mas quando o somos com quem não conhecemos, propriamente dito, o sentido muda. É outro papo.

O que a move é simplesmente a alegria de imaginar a alegria das pessoas vendo seus desenhos, que são dela mas que pertencem, de um jeito muito especial, às pessoas retratadas neles. Aquele sentimento que, de um jeito ou de outro, é o que  funda o trem das nossas vidas.

É preciso registrar uma coisa: ela havia me avisado que publicaria minha historinha hoje. Então, este post aqui já estava meio pronto desde ontem, eu só estava esperando ver no que a coisa tinha dado para completá-lo. Prestem atenção: lá no finalzinho de seu post ela resolveu colocar uma música. Que também já estava aqui desde ontem e é, inclusive, o nome deste post. Ninguém combinou nada. Para quem acredita em coincidências…

III

Ave Beatles.

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4 responses to “All You Need Is Love (ainda sobre as gentilezas)

  • nina

    Querida Si!!
    Desculpa o atraso em vir aqui, chegamos anteontem em casa, à noitinha, e ontem os filhotes (nao de tartaruguinha :) viajaram d enovo, agora sozinhos e vc sabe como é mãe né? tem que cuidar de tudo já com lágrimas nos olhos de saudade :)

    Meu Deus do céu! Não tem coisa mais linda que ler algo assim como o que vc escreveu, qd recebo um email ou um comentário de agradecimento ao desenho que fiz fico super contente. Si, menina, qd inventei isso, deu um medo danado, ficava pensando: meu Deus, onde foi que fui amarrar meu burro??? Por onde anda a minha prudência?? minha sensatez?? minha modéstia?? E se as pessoas nao gostarem do que eu fizer?? pelamordedeus!

    mas acaba sendo tao bom fazer. foi como vc mencionou, cada história me leva a um cantinho guardado bem dentro de mim, e que eu sei que tbm tem dentro da pessoa que me enviou. é um agrado mesmo que eu gosto mt de fazer às pessoas, sabe??
    é como vc disse, no texto sobre seu cunhado, é fazer o bem mesmo. tentar fazer alguém feliz. de alguma maneira.

    fiquei tbm arrepieada com a música! bom, eu sabia que seu irmao gostava de beatles (eu tbm adoro!!!) mas qd desenhei e vi o post completo, nao conseguia pensar em nenhuma outra música, tinha que ser aquela.

    e claro que eu concordo totalmente, tudo o que precisamos é amor.

    Um beijo grande pra ti e pra toda a familia linda que vc tem. e obrigada pelas doces e gentis palavras.

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  • Carla

    Oi, gostei muito do seu blog e aproveitei para retribuir a visita.
    Achei sua história lá na “menina” muito criativo e interessante. Eu acho que algumas memórias são automáticas e outras são seletivas, porque a gente só se lembra do que quer (seja porque marcou de modo positivo, seja negativo).
    Um beijão

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  • Liliam Popp

    Silmara, quase choro lendo “Crônicas de uma menina feliz” … você sabe… dos seus 7 anos em diante, eu estava lá… nos bons e maus momentos…

    Hoje, por vários motivos, não estamos dia-a-dia juntas, mas continuo amando vocês todos…

    Um grande beijo

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  • Clara

    Vi o post da Nina com sua historia…eu adorei parabéns !!
    a Nina é otima consegue transmitir tanta delicadeza em cada uma delas e os desenhos são tão significativos né ? enfim muito boa historia me emocionei tbm …beijos !!

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