Nêga-maluca

Todo mundo já comeu aquele bolo chamado “Nêga-maluca”. E todo mundo sabe o que vai nele: farinha de trigo, açúcar, ovos e chocolate. De uns tempos pra cá, uma pergunta não sai da minha cabeça: por que diabos esse nome?

Tudo bem: um chocolate marrom, uma mulher negra, um bolo marrom como uma mulher negra. Até aí eu entendo a brincadeira. E ‘maluca’, vem de onde? O que deixa a nêga maluca, afinal de contas? Encafifei e concluí que a nêga pode ficar maluca por vários motivos.

Voltemos a 1955. Uma negra chamada Rosa Parks vivia no Alabama. Nos Estados Unidos, naqueles tempos que não são tão distantes assim de hoje, os negros tinham que ceder seus lugares aos brancos nos transportes coletivos. O que hoje soa como sandice era lei naquele país. Pois um dia a Rosa ficou maluca. Disse ‘não’ ao branquelo que exigia seu lugar no ônibus. A costureira de quarenta e dois anos não tinha idéia do que tinha acabado de fazer. Foi multada e presa. E seu desafio deu origem a um longo boicote ao sistema público de transportes da cidade, encabeçado por um pastor até então quase anônimo chamado Martin Luther King. O resto é história. Foi a Rosa que, sem saber, preparou a massa do bolo. King adicionou fermento e o pôs no forno.

Mais perto, aqui no Brasil, outra negra, nascida nos anos em que a arte da dona Parks ainda ecoava, também teve dias de se amalucar. Marina Silva, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, que nasceu no Acre e foi semi-analfabeta até os dezesseis anos, sonhava com a faculdade. “Está maluca”, talvez alguns tivessem dito. Mas ela foi lá. Bacharel em história, a Marina chegou ao ministério e disse ao que veio. Um dia ela ficou maluca: mas quanta pressão, meu Deus. E pediu as contas. Para que a batata não assasse demais. No caso, o bolo.

Mais perto ainda de mim, lembro da vizinha que morava no quarteirão de cima, num casebre de dar dó. Uma senhora negra dos seus cinquenta anos, que andava para cima e para baixo recolhendo papelão para vender, sempre acompanhada de uma cachorra bonita e um tanto medrosa. Por vezes, caso a colheita do dia não tivesse lhe rendido muita coisa, talvez nem o suficiente para o jantar, a vizinha ficava maluca, e sobrava para a cachorra. De minha varanda, inconformada, peguei várias vezes o telefone para denunciá-la por maus tratos. Mas desistia. Uma pessoa esquecida pelos colegas da Marina, uma pessoa a quem do grande bolo não coubera fatia alguma, não teria condições de compreender o direito dos bichos.

Pronto. Está explicado.

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