Carta para Rosa

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Querida Rosa

Devo esta carta a você. Mais precisamente, desde o dia 7 de fevereiro de 2007. Todo esse tempo, ela esteve escrita em minha mente, mas nunca tive coragem de colocá-la no papel, muito menos de mandá-la. Nunca me cobrei muito por isso, é verdade. Porque você, de fato, nunca esperou por ela. Assim, a dívida se ameniza.

Talvez a dívida seja comigo mesma. Porque levaram seu filho daquele jeito, e eu não fiz nada. Não esperneei, não fui às ruas, nem aos gabinetes, não cobrei nenhuma atitude ou providência de nada e de ninguém. Fiquei quieta, estarrecida e amedrontada como ficaram milhões de mães, no país inteiro, naqueles dias que se seguiram. Colei-me ao noticiário, para saber como a história ia ficar – sim, porque acabada ela já estava.

Fora isso, eu apenas chorei, Rosa. Durante todos os dias, sem exceção, na hora de dormir, eu chorei a morte do seu filho. Em meu dia-a-dia, não havia pensamento que não me levasse de volta a ele. Orei bastante por ele e por vocês, também. Mas devo confessar: nunca consegui orar até o fim; a lembrança das cenas e os meus sentimentos tortos tiravam meus pensamentos dos trilhos, e eu voltava a chorar, até adormecer. Parei de chorar no dia em que a história completou um ano. Mas não parei de ficar triste. E você, Rosa, por certo ainda chora.

Naquele depoimento no final do capítulo da novela “Páginas da Vida”, você disse que quisera ter superpoderes naquela hora, para salvar seu filho. Eu também, Rosa. Naquele dia, quisera eu ter acordado, aberto a porta de minha casa e ter encontrado o jornal do dia 8 de fevereiro. Como naquele seriado Early Edition, que passava na TV há alguns anos. Nele, um homem recebe na porta de sua casa, todos os dias pela manhã, o jornal do dia seguinte, trazido sempre por um misterioso gato. Como sempre há uma tragédia no jornal, e com detalhes – onde, a que horas, com quem – sua missão é mudar o destino das coisas. Quando ele consegue, a notícia ruim vai sumindo da página do jornal, e em seu lugar aparece outra, sobre algum fato normal ou corriqueiro.

Rosa, eu queria ter recebido um jornal desses. Sairia de minha casa logo cedo, e viajaria, aflita, por quinhentos quilômetros. Jornal em punho, saberia seu trajeto naquela quarta-feira. Saberia qual era seu carro. Meia hora antes, ficaria esperando você a três quarteirões daquele sinal. Assim que eu a avistasse, eu daria um jeito de fazer você parar. Talvez pulasse na frente do seu carro, e lhe dissesse muitas bobeiras, só para lhe distrair. Porque talvez não adiantasse eu lhe contar o que aconteceria se você continuasse por ali, você não acreditaria. Eu também não acreditaria. (O que, hoje, me faz ficar mais alerta para certas coisas que acontecem e a gente não entende direito.) Ou então eu bateria meu carro no seu, de propósito, só para fazê-la parar. E, enquanto você descesse do carro para conferir o estrago, eu ficaria de olho no jornal, e veria, feliz da vida, a notícia se desmanchando, e em seu lugar surgindo outra, sobre qualquer coisa sem tanta importância.

Eu olharia para dentro do seu carro, daria uma piscadela para seu filho. Logo mais, à tardezinha, tudo estaria em paz na cidade maravilhosa.

Eu queria que isso fosse verdade, Rosa. Mas o gato não veio naquele dia.

Um abraço,

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One response to “Carta para Rosa

  • Silmara

    Triste nao? Meus olhos se encheram de lagrimas. To aqui, sugando o nariz com minha insonia as 1:38 da manha, horario de Utah.
    Estava no Brasil de visita quando isso ocorreu.
    Quanto a pergunta do pai do Joao: fizemos alguma coisa?

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