Quinze mil dias

Hoje é meu 42º aniversário. Tentei me lembrar dos quarenta e um aniversários que já fiz e, surpresa: não me recordo de quase nenhum. Dos primeiros anos é compreensível, quem é que se lembra de alguma coisa com um ano de idade. Mas fui buscando na memória os que se seguiram, e nada.

Com dois anos lembro-me de um episódio.  E recordo dele com precisão. Estávamos em Santos. Eu, na beira do mar, brincando. Virei-me de costas para o imenso oceano, talvez para acenar ou mostrar alguma coisa para meus pais, que estavam na areia, um pouco afastados de mim. Foi quando uma pequena onda, um verdadeiro tsunami para alguém com pouco mais de meio metro de altura, me derrubou. Fui saber que isso acontecera quando eu tinha essa idade porque mais tarde descrevi a cena a alguém, que se lembrou. Mas do meu aniversário, nenhuma recordação.

E como terá sido meu terceiro aniversário? Lembro-me de uma cena de quando eu tinha três anos, durante a Copa do Mundo de 70. Porquê ela me marcou, eu não sei. Pelo futebol é que não foi. Lembro de minha mãe fazendo pipoca no fogão, eu ao seu lado. Quando ela terminou, passou a pipoca para uma vasilha, fechou a porta que ficava ao lado do fogão e que dava para o quintal, e ternamente me chamou, Vamos? Na sala, meu pai e meus irmãos (acho) já estavam em frente à TV para assistir ao jogo, que eu não lembro se era a final ou não. E do dia do meu aniversário, mais ou menos um mês antes dos jogos, não há meio de eu me lembrar.

Dos meus cinco anos, trago viva na memória a lembrança de andar em meu triciclo (batizado de “Crondiana”, não sei de onde tirei esse nome) no pequeno quintal de nossa casa. Incrível como um corredor de menos de vinte metros de comprimento e menos de dois de largura pode nos dar tanta alegria. Eu me lembro de ir pedalando até o final dele, fazer a meia-volta, ir até a outra ponta, fazer nova meia-volta e repetir o trajeto dezenas de vezes. Sozinha. Feliz da vida. Ganhei o triciclo com essa idade, mas não me lembro se foi presente de Natal ou de aniversário. Lembro-me até de uma calça vermelha que eu não tirava, de tergal e botões, que era dessa época. Mas do dia em que fiz cinco anos, nada sei.

Ainda os cinco anos. Foi nesse ano, 1972, que Vila Sésamo estreou no Brasil. Recordo de irmos todos para o quarto de minha mãe, onde ficava nossa TV, para assistir ao primeiro programa. Sentei-me no chão, ao lado da cama de meus pais, e encantei-me com aqueles personagens em preto-e-branco. Lembro-me de ter imitado o Garibaldo por muito tempo, usando as duas mãos para fazer de conta que eu tinha um bico igual ao dele. Cismei de falar através do tal bico, o que deixava minha mãe bastante irritada. Agora, do dia em que fiz aniversário, não há lembrança alguma.

Do primeiro dia de aula no pré-primário, com seis anos, eu me lembro como se fosse hoje. O aceno de minha mãe ao se despedir de mim na porta da sala, a bolsa vermelha de pano com meus materiais, bordada com meu nome, o sorriso gorducho e carinhoso de Tia Neide, acolhendo todas aquelas crianças que pisavam em uma escola pela primeira vez. (A maioria das crianças ia à escola com seis anos, e não seis meses, o que me faz ficar nostálgica à beça – para usar uma expressão bem setentinha.)

Dessa mesma época, tenho na ponta da língua a placa do velho Fusca cor de pérola que meu pai tinha: BG-7542. Mas nenhuma recordação de nenhum aniversário. Mesmo que não houvesse festas, porque as vacas sempre foram magras lá em casa, teimo em achar que eu deveria me recordar de alguma coisa, um presente, um bolo feito com carinho pela minha mãe. Sinto uma falta danada de não ter essas memórias.

A primeira lembrança de um aniversário aparece quando fiz quinze anos. Meus amigos do colégio fizeram uma ‘vaquinha’ e me deram um ursinho da Lionella, branco e rosa. Ele existe até hoje, é um jovem urso de vinte e sete anos. Está na casa de meu pai, e cada vez que vejo meus filhos brincando com ele, tenho a certeza de que este mundo é mesmo muito interessante.

Dos aniversários mais recentes, as lembranças existem, claro. Mas eu sempre as confundo, e acabo precisando das pessoas para me situar. A paellada que fizemos aqui em casa com todo mundo foi em 2006 ou 2007? Passo por desmemoriada, mas a verdade é que a minha memória funciona muito bem para algumas coisas, e para outras não. E nunca consegui compreender seus critérios. As lembranças gostam de brincar comigo, numa espécie de esconde-esconde. Tampo os olhos, conto até dez, e lá vou eu atrás delas. Mas elas vão mudando de esconderijo, e por vezes, para minha tristeza, desistem da brincadeira e vão-se embora para sempre.

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5 responses to “Quinze mil dias

  • Silmara Franco

    Mariana Alves Fávero
    201.0.106.217
    Enviado em 05/05/2009 às 15:06
    Si,
    é uma grande honra ver que, depois de tantos anos, continuamos amigas e que suas crônicas agora podem ser saboreadas por tantas pessoas.
    Boa sorte e parabéns!
    Beijão
    Mari

  • Silmara Franco

    Adriana Pereira
    189.105.96.61
    Enviado em 07/05/2009 às 17:23
    Amiga,

    Parabéns pelo níver e pelo blog que ficou muito legal mesmo.Adorei!
    A minha sacola da escolinha era xadrez e azul. Até hj se encontra no museu Pererinha, (ao lado da fantasia de halloween), localizado agora em Salvador!Qt ao rei de copas, reza a lenda que tem um cara bom na Baker Street que talvez possa ajudar! Fiquei curiosa do pq do desprezo com o cidadão!rs
    bjs e muitas felicidades,
    Adriana

  • Silmara Franco

    Flávia Aidar
    189.102.176.112
    Enviado em 07/05/2009 às 13:30
    Querida Silmara, é com muito prazer que vejo seus textos PUBLICADOS!
    Saíram do papel e ganharam o espaço (merecido).
    Já tinha lido a maioria deles, e os guardava numa pasta chamada SILMARA, com letras maiúsculas assim.
    Reli alguns hoje e li o do seu aniversário. Ótimo. Estou agora às voltas para saber se me lembro dos meus tantos que já se passaram…
    Parabéns! Agora pelo blog.
    beijos carinhosos,
    Flávia

  • Silvia Moura

    Fortalecimento de marca, market share, alto índice de recall e tantas outras técnicas, aprendidas durante os anos de faculdade que valeram para muitas coisas nestes últimos vinte anos, mas uma em especial para o dia de hoje.
    Técnicas de comunicação, emissor, receptor, mensagem. Inúmeras mensagens. Enfáticas e por vezes – e muitas vezes – engraçadas, além dos desenhos e caricaturas que ainda estão estampados em muitas páginas de meus cadernos. Aqueles tempos foram muito bons!
    Durante a época de estágio já customizamos ferramentas tecnológicas e de maneira ecologicamente correta: Telefone com orelhas de cachorro e com a língua de fora. Tudo isso com material 100% reciclável.
    Vez por outra projetávamos nossos futuros e como não poderia deixar de ser, estas projeções também foram caricaturadas.
    Entre venturas e desventuras, concluímos a faculdade e cada qual seguiu seu caminho. Passaram-se mais de 7300 dias, mais de 175200 horas e por incrível que possa parecer, todos os dias 07 de maio dos últimos vinte anos não passaram em branco. Por mais rápida que fosse a lembrança neste dia, ela sempre veio estampada com as marcas deixadas em meus cadernos e anotações: “07 de maio: o dia mais lindo do ano. Assinado Silmara Franco”.
    Pois é Gorda (não que Silmara e eu fossemos gordas, mas era o jeito carinhoso como nos chamávamos), mesmo antes de concluir a faculdade, você – talentosa como sempre – já colocava em prática as técnicas que asseguraram o recall de sua marca na minha história.
    Gordinha, você merece um Prêmio!!
    Feliz Aniversário e muitos beijos de Silvia Moura (Gorda).
    07/05/2009

  • Debora

    Silmara. Parabéns novamente. Estou adorando ler suas crônicas!!!
    Quanto a memória , sou um pouco assim também…. O importante é sempre ter histórias para contar….Não importa se foi na decada passada ou na atual…não é verdade.
    Um grande beijo
    Debora

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