Exercício de paciência, parte 1

Tudo começa com um inocente “E aí, você está namorando?”, num desses encontros casuais com uma pessoa conhecida. Em geral, mulher. Mulher adora saber se a outra está saindo com alguém. Normalmente mais velha. Pode ser uma vizinha, uma tia. Se você responde ‘não’, a dona faz aquela cara de espanto, “Ah, mas precisa arrumar um namorado!”. Na próxima vez que vocês se encontram, lá vem: “E aí, arrumou um namorado?”. Difícil saber se ela só quer que você seja feliz (como se para ser feliz o namorado fosse coisa imprescindível) ou se adora saber que sim, você continua sozinha, encalhada.

Um dia, você encontra alguém bacana. E você topa com ela de novo. Agora ela nem faz a pergunta completa, apenas um “E aí?”. Você empina o peito e pensa, é agora!, e responde que sim, está namorando. Ela fica com aquela expressão oscilando entre a surpresa e a descrença, e lasca: “Aahn… e já estão pensando em casamento?”. Você suspira, e responde que ainda estão se conhecendo, aquelas coisas. Aliás, o gerúndio do verbo conhecer é o mais bobo que existe. Ou se conhece ou não se conhece. E, dentro do ‘conhecer’, há espaço para enganos. Mas ‘conhecendo’, isso não existe.

No próximo encontro, ela insiste em ter uma atualização do relacionamento. Para piorar as coisas, ela ou segura suas mãos, ou dá tapinha no ombro, ou pergunta baixinho ao pé do ouvido: “Para quando é o casório?”. E chega um dia em que, de fato, você se casa. Com aquele bacana do começo da história ou com qualquer outro – ela não quer saber desse detalhe, quer é saber se você vai desencalhar ou não. Como uma ativista do Greenpeace, preocupada com as baleias encalhadas nas praias.

Já casada, você cruza com ela na rua. Você acha que agora ela está satisfeita e não fará mais perguntas, mas ela se supera e quer saber: “Já encomendaram o bebê?”. Como se filho pudesse ser comprado no Submarino ou no Amazon. Você é educada, e responde que primeiro vocês querem viajar bastante, coisa e tal.

Passa algum tempo, e não é que você fica grávida? Você passa nove meses curtindo a barriga, e tendo que responder a um monte de perguntas o tempo todo: se você está tendo muito enjoo, quantos quilos você engordou, se já sabe se é menino ou menina, e vai por aí. Aí o rebento nasce, é um menino lindo. Vocês se encontram na farmácia – você comprando fraldas –, e ela se limita a desejar que ele seja bastante abençoado. Você nem crê. Pensa que ela, veja só, tem salvação. Você está tão feliz com a maternidade que até se esquece do que teve de aturar, desde antes de conhecer o pai do moleque.

Mas sua alegria dura pouco. O filhote está perto de completar um ano e vocês se encontram  novamente. Desta vez, ela quer saber quando vem o irmãozinho. E decreta que agora vocês precisam ‘tentar’ uma menininha. Você mantém a educação do passado, diz que quer esperar um pouquinho, mas que está nos planos, sim, aquela coisarada.

Passam-se uns anos, você e o bacana decidem que está na hora do pequeno ter um irmão. Nasce uma menina. Você topa com ela de novo, e ao ver você, o bacana e o casalzinho, ela põe a mão na sua barriga e lasca: “E aí, vão desempatar?”. Aí é o fim.

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3 respostas para “Exercício de paciência, parte 1

  • Beth Blue

    Mais uma daquelas coincidências da blogosfera…escrevi exatamente sobre isso no meu blog tempos atras! Dá uma olhada aqui:

    http://bethblue.blogspot.com/2007/03/posso-ficar-sozinha.html

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  • As perguntas de sempre. « Histórias de Mateus

    [...] E como é tudo curiosidade do bem, bobeira ficar brava. As pessoas querem é compartilhar a fase. Já me peguei aplicando o questionário nas grávidas por aí. No fundo, as pessoas ficam encantadas com esse, digamos, milagre da vida. Ou então, encantadas com o milagre daquela mulher ter engravidado, logo ela, que nem namorado tinha. O que já é aquela outra história. [...]

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  • Liliam Popp

    Esse texto é sobre mim ??? (Rolando de rir…)

    Você lembra das minhas tão queridas Rosa e Georgina ???
    Principalmente a Tia Rosa, achava que a verdadeira felicidade era ser casada com filhos. Cada dia era uma pergunta… E nos finais de cada ano, ela me cumprimentava e dizia: Ano que vem você estará com um “broto”, se Deus quiser. E quando eu estava com o tal “broto”, ela dizia : Ano que vem você estará casada, se Deus quiser. E assim foi até elas partirem, porque não me casei e não tive filhos…

    Mas sabe de uma coisa ? Até hoje, no auge dos meus 48 anos, escuto a mesma pergunta: – Você está namorando ??

    Saudades das duas….

    beijos…

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