O terno

Seu Carlos vende biju no Balão da Bela Vista, um cruzamento importante de Campinas. Mas seu Carlos não é um vendedor de biju qualquer: ele trabalha de terno e gravata. Ele é um homem de negócios, e o negócio dele é o biju. Sua loja é a imensidão do cruzamento. Por ali passa tudo: gente rica, gente pobre, homem, mulher, criança. Se contarmos quantas pessoas passam por ali, por minuto, não tem para ninguém: não há ponto-de-venda no mundo mais bem localizado. Nem vitrine melhor: não tem começo, nem fim, ela é onde seu Carlos passar. Nem todo mundo que passa por ali está disposto a comprar alguma coisa, é verdade. Mas quem é que não repara no seu Carlos? Quem é que não é atraído pela surpresa do seu terno bem cortado?

O terno do seu Carlos desconcerta o mundo à sua volta, porque inventa um novo significado para o dress-code pobre e triste das corporações: ele não está na rua a caminho do escritório. Ali já é seu escritório. Nas ruas, o terno – inventado para padronizar, endurecer e esconder tudo, reunindo nos escritórios os que são da mesma tribo, de preferência falando e pensando igual – acaba sendo o grande elemento da distinção. Escancarando o quanto precisamos de padrões para poder viver, e aí a vida fica um tanto pobre. Ficamos surpresos com o terno do seu Carlos ali, no sinal. Porque, no fundo, temos a ideia de que quem trabalha na informalidade das ruas não precisa se apresentar bem para seus clientes.

Mas o biju. Feito de água, farinha de trigo e açúcar. Gosto nostálgico da boa infância na velha vila da Mooca. São Paulo, anos setenta. De repente, ouvia-se ao longe, na rua, o homem do biju chegando. Achava linda aquela mistura de matraca com pandeiro, o som era inconfundível. Nunca reparei direito no instrumento, mas devia ser coisa das mais simples e improvisadas. O homem (era sempre um homem, nunca vi mulher vendendo biju) começava devagarzinho, ritmado, teleque… teleque… teleque… e de repente o som crescia, tectectectectectec! Eu pedia dinheiro para minha mãe e saía correndo para alcançá-lo. Nunca mais vi um desses.

Diziam que era um cabo de vassoura que dava a forma ao biju. Eu achava a coisa meio nojenta, mas comia assim mesmo. Eu pensava que, de certo, eles lavavam o cabo da vassoura antes. E pronto. Fiquei sabendo que existe uma máquina que faz o biju ficar com aquele formato de canudo. O que, evidentemente, não tem a menor graça, já que o charme do biju é o seu artesanato, sua impureza, sua venda informal, sem nome de fabricante, nem prazo de validade, nem informação nutricional. Sem nos deixar saber se contém glúten ou gordura trans.

Sinto falta quando seu Carlos não está lá. O Balão da Bela Vista fica menos interessante.

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