O segundo a mais

Dali Inspired ClockDois mil e cinco teve um segundo a mais. Naquele 31 de dezembro, um segundo – isso mesmo, um segundinho de nada – foi adicionado à véspera do Ano Novo, no caso, 2006. Dizem que isso foi feito para ajustar a hora com a rotação da Terra. Pergunto: o que você fez com esse segundo a mais? Em um segundo não dá para fazer muita coisa, propriamente dita. Você boceja e ele puf, já era. Mas um segundo pode significar a diferença – temporal, física, absoluta – entre tudo. A diferença implacável, determinante. É tempo suficiente para consolidar uma decisão – certa ou errada, talvez só se saiba tempos depois. Dá para perder alguém de vista na multidão. Ou para achar alguém, na mesma multidão. Dá para afagar um gato que se espreguiça no tapete. Mas aí o segundo vira minuto, que vira hora, ô delícia que é gato.

Mas o segundo. Dá para sorrir num segundo. Dá para soltar um pum. Um segundo basta para você acordar e esquecer completamente o que sonhou, Ah, como era mesmo… E o centésimo. Quem foi que inventou o centésimo? E quem é que se importa com essas coisas, além dos atletas? Um centésimo na frente: recorde mundial.

Um segundo pode ser a diferença entre cruzar com sua alma gêmea, ou, por outro segundo igualzinho, não cruzar. E aí continuar a viver procurando por ela, eternamente. Morre-se em um segundo. De tiro, de infarto, de porrada. Mas não se nasce em um segundo. As contrações, de cinco em cinco minutos, olha quanto segundo. Intermináveis. Em um segundo é sorteado aquele numerozinho que falta para você virar milionário. Ou para ficar na miséria, os cassinos. Um segundo basta para alguém escapar daquele vaso caindo de cima do prédio, como nos desenhos animados, bem na sua cabeça. Um segundo para virar celebridade, o clique fatal. Agora diz: se o nome é segundo, haveria um primeiro? E quanto tempo ele duraria?

A cada segundo, três pessoas nascem no mundo todo. Em 2005, então, fechamos o ano com três a mais no planeta. Em compensação, vinte e três morreram de fome durante o mesmo segundo a mais. A ONU diz que mais de dois milhões de pessoas morrem de fome a cada dia. É só fazer as contas. Naquele segundinho bobo, vinte e três fulanos, pobres e anônimos, morreram porque não comeram. E não comeram, não porque assim o quiseram. Vai entender o mundo. O segundo. O terceiro mundo.

Em um segundo dá para fugir de um assalto. Ou cair nele. Um segundo é o que a mãe de João Hélio precisava para ter mudado seu caminho naquele dia, Hoje vou por ali. E pronto. Ele seria apenas mais um Menino do Rio, tranquilo e feliz. Um segundo e você perde para sempre o trem da vida. Num segundo você diz sim. Ou não. Ou não diz. E transforma tudo. Ou nada. Ou em nada.

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Uma resposta para “O segundo a mais

  • Nara

    Um segundo pode ser a diferença entre a vida e a morte…
    Um segundo pode ser a diferença entre a queda e a mão estendida que a evita…
    Um segundo é o tempo que leva pra dizer obrigado…
    Uma eternidade é o tempo que leva pra se esquecer disso…

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