A revolta dos poodles

poodle

Vira e mexe, aparecem aquelas faixas pela rua. Gente que perdeu seus bichinhos de estimação. Alguém viu o Totó por aí? Sempre presto atenção nelas, procuro decorar a descrição e ficar atenta. Mais gente deve fazer assim, pelo menos por alguns quarteirões. Mas depois a gente esquece e vai cuidar da vida. Como se tentar ajudar um bichinho que se perdeu a voltar para o carinho dos seus donos também não fosse cuidar da vida.

Gosto de ver como os donos descrevem os detalhes de seus amigos de quatro patas. Um é tímido, outro manca de uma pata. Tem os que precisam de remédios diários, o que me coloca numa aflição danada. Tem também a “criança doente”. Pode até não existir criança nenhuma na história, mas a mentirinha é do bem. Até topam pagar para ter o bichinho de volta. Maluco, visto que devolver um animal encontrado é obrigação, assim como devolver qualquer coisa que não lhe pertence. Alguns donos tentam ajudar na identificação, explicam que o cachorrinho é da raça daquele amortecedor, quem se lembra? Outros castigam a gramática: “Procura-se cão bigou“. Gosto de fantasiar que achei, assim por acaso, o Fox Paulistinha perdido, descrito na faixa perto da padaria. Tinha nome de filósofo, fugiu do petshop na véspera do Natal. Ligo e aviso: está comigo! Dou asas à imaginação e imagino um reencontro emocionante, lágrimas, latidos de felicidade e rabinho abanando.

Esses bichinhos se perdem tanto… Por vezes, são roubados. Difícil é entender alguém que rouba um animal que tem casa, donos, uma história. Achou aquele bonitinho? Então por que não adotar um parecido? Tanto bicho abandonado. Vai me dizer que aquele tinha alguma coisa de especial, como adivinhar o futuro?

Mas voltando às faixas: fico pensando se eles se perdem mesmo, ou simplesmente vão-se embora, querem é se pirulitar. Um tempo atrás, me chamou a atenção as faixas de poodles perdidos na cidade. Foram uns três, no mesmo mês, em bairros diferentes. O que me fez desconfiar de um movimento silencioso. Estariam os poodles se organizando e planejando uma fuga em massa? Basta das tosas que os deixam com cara de algodão-doce. As patas peladas, compridas e finas, a bola de pelos crespos na ponta, num esquisito layout. A cabeça pequena, focinho fino e uma cabeleira enorme, toda enroladinha, igual às permanentes que se as mulheres (eu incluída) faziam nos anos oitenta. Chega de roupinhas, enfeites na cabeça, luvinhas, sapatinhos. Fraldas! Esmalte para as unhas. Bizarrices mal inventadas e bem vendidas para pessoas que ainda não decidiram se querem animal de estimação, brinquedo ou filho. Bicho é bicho. E bicho precisa de amor, alimento, abrigo, vacina e respeito. Só.

Seria o início de uma revolução dos bichos, deflagrada justamente por eles, os poodles, símbolo maior do madamismo cafona de outrora, reivindicando uma maneira mais nobre de nos relacionarmos com os bichos? Seria a fuga um protesto para uma profunda revisão no entendimento dos animais? Não somente acerca de frufrus dos ditos domésticos, posto que isso é mero detalhe diante da coisa toda, mas da compreensão de seus papéis, ao lado de todas as outras espécies do reino animal, subjugadas século após século? Quem dera fosse o momento. Ficaria feliz em presenciar um movimento desse quilate.

Retorno aos meus afazeres. E continuo de olho nas faixas.

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